12:10

O labirinto peruano e o fio de Ariadne

Estou colando a artigo que o Luiz, companheido do OPSA, publicou no Valor Econômico.
O labirinto peruano e o fio de Ariadne
Por Luiz Antônio Gusmão
24/09/2007

O desempenho dos governos de esquerda que ascenderam ao poder na América Latina nos últimos anos tem chamado atenção da imprensa devido, em boa parte, às polêmicas ações de líderes nacionalistas como Evo Morales e Hugo Chávez. Mas e quanto a países que, como Peru, México e Colômbia, deram prosseguimento a políticas econômicas ortodoxas e têm pautado suas opções de política externa pela aproximação com os EUA?

Para além das estratégias de inserção na economia internacional e dos esforços em estabelecer uma economia estável e dinâmica, cumpre indagar quais são os dilemas sociais por que passa um país que não optou por reverter as reformas neoliberais implementadas durante a década de 90.

A participação do Peru na última reunião do foro de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec), em Sidnei, Austrália, oferece uma boa oportunidade para refletir sobre essas questões.

Com o objetivo de avançar propostas de liberalização comercial e integração econômica na região, o foro da Apec reuniu, durante os dias 8 e 9 de setembro, ministros e chefes de Estado dos 21 países que compõem a organização, dentre os quais figuram China, EUA e Rússia. Em busca da diversificação de parcerias econômicas, o presidente do Peru, Alan García, cumpriu intensa agenda de reuniões com chefes de governo da Coréia do Sul, Cingapura, Japão e Austrália. O Peru visa a firmar entendimentos para fechar acordos bilaterais e encorajar investimentos e aumentar exportações. Com a China, por exemplo, iniciará negociações para concluir um acordo de livre comércio até novembro de 2008.

Nesse contexto, García anunciou a formação de um novo bloco político-econômico - o Arco do Pacífico. Com o objetivo de consolidar uma aliança entre países da costa do Oceano Pacífico, a iniciativa, que de início congregaria Chile, Colômbia, México e Panamá, já conta com a adesão do Canadá. Segundo García, o Arco se contrapõe às economias protecionistas da região, que qualificou de "primitivas" em referência à Bolívia, Equador e Venezuela.
O Peru se mobiliza ainda para firmar tratados de livre comércio (TLCs) com os membros da Associação Européia de Livre Comércio (Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein) e, no âmbito da Comunidade Andina (CAN), com a União Européia. No que se refere à promoção e proteção de investimentos externos, possui 31 acordos bilaterais com países da Costa do Pacífico, da Ásia e da Europa.
Sua iniciativa mais importante foi a assinatura de um TLC com os EUA em abril de 2006, durante o governo de Alejandro Toledo (2001-2006). Agora García se esforça para promover a ratificação pelo Congresso norte-americano. Para atender às condições exigidas pelos legisladores do Partido Democrata, o governo deverá modificar as legislações ambiental, trabalhista e de propriedade intelectual.
Governo demonstra resistência ao diálogo e segue abusando das declarações de emergência que suspendem direitos civis, o que compromete o estado de direito
Peru é um caso de sucesso de estabilidade econômica na região. Apresenta indicadores consistentes de crescimento econômico há mais de 70 meses. No primeiro semestre deste ano, o PIB aumentou 7,8%, principalmente devido ao crescimento da demanda interna e dos setores de construção, manufatura, serviços e comércio. Embora a meta projetada de inflação (2% ao ano) tenha sido ultrapassada, a carga tributária não chega a 15% e a arrecadação aumentou 16,4%, com a maior atividade econômica.

O desempenho econômico e o engajamento em iniciativas comerciais têm rendido boa imagem ao país como destino de investimentos externos e uma avaliação favorável do ambiente de negócios. Contudo, no âmbito doméstico, o país continua a sofrer de instabilidade política crônica.
Em julho, García completou um ano de governo, exibindo seu mais baixo índice de popularidade (quase 41% de aprovação), após meses de uma trajetória declinante que só agora começou a reverter. Essa vertiginosa queda deve-se ao descontentamento de diversos setores que têm se manifestado em greves, marchas e paralisações regionais disseminadas por todo o país. Segundo a Defensoria do Povo, que acompanha essas manifestações, entre janeiro e julho, os conflitos sociais ativos tinham aumentado de 12 para 35. A resposta que o governo vem dando não tem sido eficaz.
Tome-se como exemplo a última greve geral de professores em julho, aos quais se juntou a Confederação Nacional de Trabalhadores do Peru (CGTP), maior central sindical do país. Manifestações no interior e nas principais capitais em protesto contra a aprovação de uma proposta de lei para regulamentar a promoção na carreira docente resultaram em confrontos violentos com forças policiais. A greve foi declarada ilegal e o governo recrudesceu medidas de repressão, lançando um decreto em que autorizava a intervenção das Forças Armadas para garantir a ordem pública.
Em paralisações regionais, é comum que autoridades locais se associem a pequenos agricultores e cocaleiros para agregar à pauta desses grupos demandas por recursos para investimento em obras e serviços públicos. Com freqüência, ocorrem manifestações violentas e dura repressão policial. Em maio, uma atrapalhada tentativa de solucionar a tensa paralisação dos cocaleiros de La Convención (Cuzco) provocou a renúncia do ministro da Agricultura.
O desempenho econômico e o engajamento em iniciativas comerciais têm rendido boa imagem ao país como destino de investimentos externos e uma avaliação favorável do ambiente de negócios. Contudo, no âmbito doméstico, o país continua a sofrer de instabilidade política crônica.

Esses exemplos mostram que a instabilidade política do Peru não se deve mais a crises econômicas. Agora, ela é provocada pela incapacidade do governo em oferecer soluções eficazes a conflitos sociais recorrentes. O governo demonstra grande resistência ao diálogo e abusa das declarações de emergência que suspendem direitos civis, o que compromete seriamente a vigência do estado de direito. Atualmente, a população que vive em distritos e províncias sob estado de exceção chega a 530 mil.
Estabilização e inserção na economia internacional são necessárias, mas por si sós não farão do Peru um Estado democrático moderno. Com elas o país conseguiu seu fio de Ariadne. A saída do labirinto peruano depende da adoção firme de medidas para melhorar a capacidade gerencial do Estado, promover o gasto público eficiente, difundir o crescimento econômico, incorporar os segmentos sociais mais pobres ao mercado formal e oferecer condições propícias ao pleno desenvolvimento da sociedade civil.


Luiz Antônio Gusmão é pesquisador do OPSA. lagusmao@iuperj.br

23:13

Você é um bom amigo?

Reza a lenda que dias depois de se "iluminar", Siddartha Gautama pernoitou para se alimentar e matar a sede. Na fazenda onde parou, teve uma rápida mas frutífera conversa com um agricultor e que isso teria popularizado a doutrina budista na Índia.

* * *
(...)
- Quer dizer que o senhor descobriu a verdade suprema, atingiu um estado de elevação? -- indaga o fazendeiro enquanto revolve a terra com o arado.


- Sim -- responde simploriamente Siddartha, sem qualquer presunção ou orgulho na voz -- Gostaria que você e todas as pessoas também vissem o que vi, sentissem o que senti.


- Pois então guie-me, me mostre como fez. -- rebate o homem, sem dar muito crédito ou mesmo relevar o feito do Buda vivo.


- Talvez se eu passasse trinta anos ensinando-lhe o que é a atitude reta, o desapego material e outras práticas necessárias para reconhecer o que senti, o senhor se sentiria sábio, mas o que você aprenderia de verdade? -- rebate Siddartha.


- Não entendi, o que o senhor quis dizer com isso? -- pergunta o agricultor largando o arado e virando-se na direção do novo mentor.


- É uma estrada árdua, percorrida nas entranhas da mente e nos confins da alma. Cada um deve trilhar a própria rota; não há atalhos ou pontes, apenas a vastidão do eu -- profere o iluminado, enquanto seu interlocutor coça o alto da cabeça e olha em volta desnorteado, como se duvidadesse da própria existência.


- Vejo que você deu o primeiro passo, é normal ter muitas dúvidas e poucas certezas no início -- diz Siddartha ajeitando a túnica e retomando a peregrinação.


- Espere, mestre -- brada o pupilo -- porque me deixas logo agora?


- Porque não posso lhe ensinar mais nada. Atingir o Nirvana é como uma relação ideal de amizade: quando ajuda um pouco, fortalece; quando ajuda muito, enfraquece... -- entoa o Buda, enquanto desaparece na bruma que rodeia a estrada.

* * *

Engraçado como o ser humano protege os mais próximos, com mais ou menos ênfase. Não é questão de preferência ou noção de comunidade, simplesmente um instinto de sobrevivência da espécie. Mas mesmo assim, isso pode prejudicar tanto ou mais do que as situações desconfortáveis da vida. Estar sob pressão em alguns momentos pode ser o melhor fator de evolução do caráter que alguém pode ter.

Da próxima vez que alguém brigar com o namorado(a), tirar uma nota baixa, perder o emprego, se acidentar ou machucar outrem, etc., ofereça sim o ombro amigo. Enxugue suas lágrimas, console, abrace, beije, mas diga em leve tom de confronto: você de alguma forma é culpado(a) pelo que aconteceu? Você teve a chance de evitar isso? Agiu quando necessário? Seu(Sua) amigo(a) vai estar respondendo para si mesmo(a) a resposta mais sincera que pode haver... E exatamente a que precisa.

Em breve algo menos transcendental. Até.

18:11

divino (parte 1)

Divino queria ser deus. Assim, com minúsculas. Nunca me disse o porquê.

Nuca falou de outra coisa, na verdade. Todo dia era isso. Todo dia ele aparecia na padaria, pedia uma média, e começava com seus planos de ser deus. Às vezes perguntava sobre o Fluminense.

Achavam o Divino louco, mas eu gostava dele.

Tinha dias que eu me atrasava para o trabalho, distraído com os planos de divino. Filósofo amador que eu era, sempre dava conversa. Não acreditava em Deus, mas de vez em quando acreditava no divino.

Não sei o que ele fazia, digo, qual sua profissão . Só o via na padaria, de manhã, de segunda à sexta. Chegava e ele já estava lá, e lá permanecia quando eu acabava de comer e seguia rumo ao centro da cidade. Era magro, o divino.

Um dia apareceu um pouco tarde, mais eufórico do que o normal. Quase lá, ele dizia, e se calava. Parecia ter forte dores, os olhos se contraíam de vez em quando.Só bebeu água naquele dia e nem se importou quando disseram que o Fluminense havia vencido o Botafogo. Que bom, disse.

Parecia melhor na manhã seguinte, mas com certeza não havia dormido. Divino, você parece cansado, não dorme há quanto tempo? Não posso dormir, preciso cuidar deles, era sua resposta. Todos riam, eu me preocupava.

Aos poucos foi definhando. Sua magreza foi chegando aos limites da carne. Suas olheiras eram duas violetas murchas sob seus olhos. Não penteava o cabelo e não mudava de roupa, mas pelo menos não fedia. Só tomava água agora, nem uma garrafa inteira. Ia morrer, o divino.

Nessa época, não respondia às minhas perguntas. Olhava-me parecendo sempre não entender. Botava a mão nos cabelos desgrenhados e ronronava que faltava alguma coisa, alguma coisa.

Um dia divino não apareceu na padaria, nem no dia seguinte, nem no outro. Morrera? Era cedo demais pra dizer, dizia o balconista, mas não seria nenhuma surpresa. Vai ver alguém o levou pro sanatório, outros falavam. De segunda à sexta, nem sinal de Divino.
Sábado de manhã resolvi dar uma passada onde certa vez ele me disse que morava. Era uma vila, dois quarteirões da padaria, para um lado onde eu nunca tinha ido, novo no bairro que era. Mesmo assim, quando vi o rabecão dos bombeiros, mesmo de longe, suspeitei que era ali.
(continua..)
Fábio

05:13

Os ianques somos nós

RUBENS RICUPERO

A radicalização na América do Sul fez o Brasil despertar para a verdade de que, em alguns países, os ianques somos nós

O PRESIDENTE do Equador anuncia renegociação com a Petrobras e seus auxiliares insinuam que o contrato pode ser anulado. Será fato isolado, explicável pelas circunstâncias? Ou faz parte de padrão que se repete em todos os movimentos radicais no poder na América do Sul?
A tendência irrompeu com estrondo em 1º de maio de 2006, com o anúncio da nacionalização do gás e das refinarias da Petrobras na Bolívia. Desde então, confirmados ou não, os sustos originados no país vizinho nunca se interromperam: expulsão de siderúrgica privada, anulação de contrato com construtora, ameaças a fazendeiros brasileiros, alusões levianas ao passado do Acre, resistência à construção de hidrelétricas no rio Madeira, queixas contra o tratamento a imigrantes bolivianos, multas milionárias à Petrobras por delitos negados pela companhia.
A lista é exemplificativa apenas e não pretende negar que o governo de La Paz possa ter razão em algumas dessas situações. A siderúrgica, por exemplo, transferiu-se para Mato Grosso do Sul, onde estaria devastando a mata nativa para fazer carvão. O crime ambiental era justamente o que censuravam à empresa as autoridades bolivianas, mais zelosas que as nossas do ambiente. No Paraguai, não só o favorito nas pesquisas eleitorais mas amplos setores da opinião querem subverter as bases de Itaipu, projeto com 30 anos de vida. Curioso é que, no mais radical dos sul-americanos, a Venezuela, tenha-se evitado até agora o choque direto com interesses brasileiros, embora sejam notórias as dificuldades entre a petrolífera local, a PDVSA, e a Petrobras.
O padrão aqui é mais indireto e sub-reptício. À medida que esfria o relacionamento entre Chávez e Lula, tornando raras as visitas e conversas, a ação do venezuelano se faz mais incômoda no entorno sensível do Brasil. Municípios e até quartéis da Bolívia e do Paraguai de repente se vêm aquinhoados por cheques de petrodólares bolivarianos.
Dir-se-á que não há nada de mal, não passando de ajuda desinteressada, busca natural de prestígio e influência. Mas até quartéis paraguaios? Não haveria prioridades mais óbvias ou menos provocativas? A radicalização da política sul-americana fez o Brasil despertar para verdade desagradável: em alguns países, os ianques somos nós. A presença brasileira quase sempre dependeu da ação do Estado, direta (Itaipu, Petrobras) ou indireta (construtoras financiadas pelo BNDES, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).
No momento em que líderes radicais reescrevem as constituições e redefinem a ordem socioeconômica, o Brasil descobre que faz parte do status quo em contestação. A mudança pode vir em nome das massas excluídas. Nem por isso é menos desconfortável para nós.
O governo brasileiro não é culpado das tendências da história. Salvo por obra de alguns aprendizes de feiticeiro em diplomacia: favoreceram a subida de Chávez e Morales e estimularam novas agressões pela incapacidade de defender os direitos nacionais. As conseqüências são de duas ordens. De um lado, desapareceram as condições para projetos de integração energética e até os existentes correm perigo. Do outro, região vital, a única de nossa influência direta, virou campo minado. A diplomacia na região não funciona e faz água por todo lado. O Itamaraty conseguirá mudá-la quando ela continua dominada pelos aprendizes de feiticeiro?

RUBENS RICUPERO, 70, diretor da Faculdade de Economia da Faap e do Instituto Fernand Braudel de São Paulo, foi secretário-geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) e ministro da Fazenda (governo Itamar Franco). Escreve quinzenalmente, aos domingos, nesta coluna.

07:57

existe forma mais eficiente para acabar com um debate do que propor um debate?

Quero compartilhar o orgulho dos meus colegas e do debate político irado que está rolando na minha instituição de ensino. Vou colar aqui embaixo.

Como não pedi autorização pra ninguém, omitirei os nomes.
Será que isso basta pra não me processarem? Tenho trauminha de processo.
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De: A.
Enviada: qui 13/9/2007 12:04
Para: Professor 1, Professor 2, Lista de email da Instituição de Ensino
Assunto: Protesto


Prezados cidadãos,

está sendo organizado um ato público no sábado, na Praça dos Três Poderes, com a presença de estudantes, entidades civis, e vários representantes da sociedade civil organizada, a fim de simbolizar o desprezo pelo Congresso Nacional, sua ilegitimidade e um Tribunal Popular para julgá-lo, segundo a soberania popular. A proposta é a concentração às 10:00h.
Para tanto será organizada uma reunião hoje, às 13:30 na Candido Mendes, e um convocatória popular amanhã, às 14:00h, no Beco do Lume, com panfletagem, com a presença da imprensa para divulgar a mobilização popular. Quem puder participe hoje da reunião, da convocatória amanha.

Por um PROTESTO ABERTO, JULGAMENTO ABERTO e AS CARAS FECHADAS.DIVULGUE. COMPAREÇA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! SERÁ NO SÁBADO, UM SÁBADO DIFERENTE!!!!


Ligar para XXXXXXXXXXX para confirmação.
Saudações democráticas.
B.
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De: C.
Enviada: qui 13/9/2007 12:49
Para: A.; Lista de emails da Instituição de Ensino
Assunto: RES: Protesto

Prezado A., antes de vc embarcar nesse clima de comoção ética e moral para "simbolizar o desprezo pelo Congresso Nacional", vamos identificar os atores dessa contenda e entender os interesses em jogo. O que vc acha? Envio a entrevista abaixo para começar.

abs,
C.
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(PS da Pati: colei a entrevista, como anexo 1, no fim do post)


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De: F.
Enviada: qui 13/9/2007 14:26
Para: C., A.; Lista de emails da Instituição de Ensino
Assunto: RES: Protesto

Caro C.,
para defender o governo não precisa defender seus aliados oligarcas e corruptos.Não entro em qualquer manifestação conservadora do estilo "Cansei" ou em tentativas de deslegitimar o Congresso, mas apóio (claro!) a cassação do Renan.
Apóio igualmente e com a maior alegria qualquer atividade que discuta a democratização da comunicação ou que investigue as atividades dos grandes órgãos de imprensa. Por exemplo, essa CPI da Abril. No entanto, apesar da manipulação da mídia, não precisamos fechar os olhos para a existência de corrupção e compra de votos no governo e para seu crescente conservadorismo.
Abraços,

F.
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De: A.
Enviada: sex 14/09/07 10:19
Para: F.; C.; Lista de emails da Instituição de Ensino
Assunto: RES: Protesto (resposta do Augusto aos colegas)

Prezado C. e demais colegas que comentaram minha mensagem,para falar a verdade, repassei a mensagem ontem meio sem convicção. Realmente não acredito que coisas deste tipo sejam relevantes... ou melhor, são relevantes apenas como começo de algo qualitativamente diferente: a coagulação do mal estar e a passagem da indignação moral à prática intervencionista.

É lógico que a bandeira da ética levantada pela imprensa e por este tipo de mobilização de classe média é parcial e mesmo melancólica: é como se estivéssemos pedindo para ser dominados com um mínimo de decência.

No entanto, é preciso lembrar o momento também melancólico que a dita "sociedade civil" (detesto este termo) vive hoje assim como os grandes acadêmicos brasileiros.Explico-me: eu era criança quando um aumento de passagem de ônibus resultou num quebra-quebra terrível em plena Av. Rio Branco. Eu e meu primo na época aproveitamos o ensejo (sem saber nada do que acontecia) e pegamos umas casquinhas de sorvete do MacDonald da Rio Branco (cujas vidraças foram quebradas). Eu chamo isso de coagulação do mal estar e passagem da indignação moral à prática intervencionista. É disso que estou falando e é isso que me interessa como fenômeno social. O resto é o resto! E acredito piamente que a indignação popular possa se solidificar através de manifestações "bobinhas" como essa.

Quanto aos acadêmicos, é melancólica a maneira parcimoniosa como eles comentam o terrível pacto estabelecido entre Governo, elites e "povão". Veja bem, assim como eu detesto o termo "sociedade civil, não tenho problema algum com o termo "povão" (na versão brizolista do termo). No entanto, é óbvio que Lula (como diz a célebre frase de Marx sobre Luís Bonaparte) está lidando vulgarmente com a vulgaridade das massas - em busca de uma vaguinha no Proune, um bolsa miséria ou mesmo uma cesta básica. Então, não vejo problema algum que a imprensa também lide vulgarmente com a vulgaridade das massas em busca do "sangue dos culpados": isso pode ser usado à favor a a coagulação do mal estar e à passagem da indignação moral à prática intervencionista.
Abraços
A.
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Outro PS da Pati. Eu achei muito feio da parte do sr. A. ter roubado sorvete.
As crianças são os seres mais cruéis do mundo.

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De: V.
Enviada: sex 14/9/2007 10:39
Para: A.;F.; C.; Lista de emails da Instituição de Ensino
Assunto: RES: Protesto (resposta do Augusto aos colegas)

Prezadas(os) colegas,
Proponho um debate acerca do tema em questão via Fórum dos Alunos. Como liberal político acredito que o diálogo e debate sejam propedeuticos em si. Não obstante o fato de ser igualmente entusiasta dos debates virtuais, não vejo qualquer problema em nos reunir numa tarde agradável de setembro com o objetivo de nos auto-esclarecermos.
Interessados favor enviar mensagem aos coordenadores do Fórum dos Alunos.
Com sinceras admiraçòes,

V.
Doutorando Ciência Política
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PS da Pati de novo:
E os emails pararam de chegar à minha caixa de mensagens...
existe forma mais eficiente para acabar com um debate do que propor um debate?
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07:46

ANEXO 1

12/09/2007 12:25h

A IMPRENSA NO BRASIL VIROU PARTIDO POLÍTICO

Entrevista com o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos ao blog de Paulo H. Amorim.

Quando se fala em mídia como o "Quarto Poder", qual é a primeira coisa que lhe vem à cabeça?
A primeira coisa que me vem à cabeça: não é uma particularidade nacional. Porque, na verdade, na teoria democrática clássica, não havia previsão para o aparecimento de um lugar institucional com poder político relevante. Então, você tinha o Parlamento e você tinha o Executivo. O Parlamento podia ser dividido em duas Casas, como quando tem Senado e Câmara, ou ser unicameral. O Executivo podia ser ou de gabinete ou uma Presidência da República. Mais o Judiciário, quando árbitro dos conflitos eventualmente surgidos entre as duas estâncias anteriores. Mas não havia, não há previsão em nenhuma teoria, de algo, de uma instituição que veio a ser a imprensa. Como também, aliás, não havia para as Forças Armadas. Não se concebia que as Forças Armadas viessem a ser um ator político relevante.
Mas, sobretudo, a imprensa. Porque, de certo modo, ela encarnaria não um poder, mas a vigilância do poder. Era a garantia do direito de opinião, a garantia do direito de expressão de idéias e a garantia de vigilância dos poderes constituídos. Então, era muito mais um órgão defensivo e reflexivo do que interferente. A partir do momento em que você tem uma sociedade de massa, ou seja, o tamanho do eleitorado traz novidades para o funcionamento da democracia - ninguém jamais imaginou eleitorado de mais de dez milhões de pessoas -, isso também trouxe uma modificação do papel das instituições. Em princípio, elas interagem com estas massas que têm peso.
O resultado foi que aquelas instituições que, de certa maneira, condicionam e influenciam a formação de opinião das massas, fazendo com que a disposição delas se altere ou se incline numa direção ou em outra, aquelas instituições passaram a ter um papel de importância.
A imprensa, os órgãos de comunicação e informação, na medida em que condicionavam e orientavam a inclinação desta população, e o peso delas se tornando cada vez maior dentro do funcionamento das democracias, fizeram com que esta instituição, a imprensa, passasse a ter um papel híbrido: de um lado, refletia o real; e de outro, ao mesmo tempo, interferia, interfere e condiciona as alternativas deste real.
É necessário deixar claro que isso não aconteceu por nenhuma conspiração, nenhum plano previamente estipulado. Foi assim, numa democracia de massa, com o problema do populismo, por exemplo. Este novo papel desempenhado pela imprensa, envolvida no seu papel constitucional, teórico, de expressão de opinião, controle e vigilância da ação dos poderes públicos, e, ao mesmo tempo, cobrar responsabilidade desta instituição pública, tem que ter norma a que deva obedecer, tem que ter instâncias de julgamento - com o qualquer agente público. E não se trata de julgamento estritamente policial, trata-se de julgamento político. Não existe consenso sobre como conciliar esta responsabilidade, que deve ser cobrada neste ato público, com o que é fundamental também numa democracia - que é o respeito à liberdade de imprensa, à liberdade de opinião.
Quer dizer, a liberdade de expressão de opinião é crucial e essencial na definição do que é democracia. Quando esta expressão de opinião pode de alguma maneira trabalhar contra a democracia, cria um problema. É o mesmo problema que se coloca em relação a partidos revolucionários. Democraticamente, é necessário que se permita a organização em partidos as diversas opiniões, correntes. Agora, em que medida este direito deve ser ou pode ser assegurado a partidos cujo objetivo é fazer com que desapareçam as instituições que permitam que ele exista - isso é uma complicação numa teoria democrática. Então, esse é um problema contemporâneo da imprensa, não é só no Brasil: como conciliar os dois papéis que a imprensa tem. Primeiro, como instituição da sociedade privada de exprimir o que se passa no mundo e a opinião da população. Por outro lado, na medida em que se comporta como ator político, ter instâncias que cobrem responsabilidade política dessa instituição.
Este problema já foi resolvido em algum país ?
Institucionalmente, não. O que você encontra é uma evolução da cultura política e também do poder da sociedade civil, do poder privado. Na verdade, até agora não se criaram instituições consensuais para a solução deste problema. Tem sido resolvido pela idéia gradativa de redução da importância da imprensa, como condicionador das atitudes da população. Isso é o que tem acontecido nas sociedades ricas, porque dependem cada vez menos das políticas de governo. Porque são ricas, porque a sociedade é abundante, então, a opinião que os jornais e as televisões começam a distribuir - dizer que o governo é isso, que o governo é aquilo, isso não tem conseqüência sobre a vida privada dos cidadãos. E por isso mesmo a opinião da imprensa deixa de ser relevante. Então, o que tem acontecido nos países mais estabilizados, não é que se tenham criado instituições de controle ou de chamada à responsabilidade, mas que os jornais e as televisões vêm perdendo importância.
Especificamente no Brasil, como é que esse cenário se desenvolveu? Quem se aproveitou?
Quem se aproveitou eu não sei. No Brasil, você tem uma circunstância peculiar que é o fato de que as empresas jornalísticas têm os interesses empresariais também fora do circuito de informação. Então, isso faz com que as opiniões da imprensa não se apoiem apenas, como se diz, pelos preceitos de seus comentários, mas pelo interesse de matérias econômicas também, que são defendidos sob a desculpa, o contexto de que está sendo defendido o interesse da população. Então, este aspecto é o aspecto que não se encontra muito nos países desenvolvidos: a distância entre empresas, empresas jornalísticas que têm interesses comercias e empresariais, além dos interesses jornalísticos.
E isso cria uma situação muito particular, porque, afinal de contas, os interesses econômicos e empresariais de proprietários de jornais deviam ter suas instâncias de defesa e não utilizar a imprensa para isso. Mas, esta é a peculiaridade do Brasil. E é isso o que se mistura com freqüência no Brasil: as campanhas políticas desenvolvidas pela imprensa, sob o pretexto de que são questões que se quer públicas, mas, na verdade, são interesses privados dos próprios empresários jornalísticos.
Paulo Henrique Amorim costuma dizer que em nenhuma democracia importante do mundo os jornais e uma só emissora de TV têm a importância política que têm no Brasil.Quer dizer, só em países mais ou menos parecidos com o Brasil. Fora países, digamos, com renda per capita inferior a 30 mil dólares, fora países desta faixa, isso não existe. Ou seja, em todos os países (com renda superior a 30 mil dólares), a imprensa não tem esta capacidade de criar crises políticas, como tem nos países da América Latina.

Aqui no Brasil, com esta importância política que os jornais e a Globo têm, como é que eles exercem este poder?
O modo tradicional de exercer o poder em países como o Brasil, e isso tem acontecido historicamente com freqüência, é a capacidade que a imprensa tem de mexer na estabilidade, ou seja, de criar crises, cuja origem é simplesmente uma mobilização do condicionamento da opinião pública. O que a imprensa nos países da América Latina, e particularmente no Brasil, tem é a capacidade de criar instabilidades. É a capacidade que a imprensa tem de criar movimentação popular, de criar atitudes, opiniões, independentemente do que está acontecendo na realidade. Isso é próprio de países latino-americanos, mas particularmente no Brasil, em que as empresas jornalísticas têm poder econômico e capacidade e disposição para a intervenção política. Então, a arma da imprensa no Brasil, o seu recurso diante dos governos: esta capacidade de criar instabilidade política.
Como é que o senhor vê o papel da mídia no governo Lula ?
Tem dois aspectos. O primeiro aspecto é fato de o governo Lula ser um governo inédito no Brasil. É realmente um governo cuja composição de classe, cuja composição social é diferente de todos os governos até agora. Isso não foi e dificilmente será bem digerido. Agora, em acréscimo a isso é que, ao contrário do que se teria esperado ou gostariam que acontecesse, este é um governo que até agora tem se mantido fiel à sua orientação original, independentemente das discussões internas do grupo do PT. A verdade é que as políticas do governo têm prioridades óbvias, que são as classes subalternas. Isso é algo que irrita e, conseqüentemente, faz com que aumente a disposição da imprensa para acentuar tudo aquilo que venha a dificultar e comprometer o desempenho do governo.

Em que outros episódios da Historia do Brasil a imprensa usou a arma da instabilidade ?
No Brasil, tivemos em 1954, com a crise que resultou no suicídio de Vargas, em que tudo foi utilizado. Documentos falsos que foram apresentados como verdadeiros, testemunhos de estrangeiros que seriam associados a confusões internas...
Houve em 1955, na tentativa de impedir a posse de Juscelino Kubitschek. E em 1961, na crise de Jânio, na sucessão do Jânio. E em 1964.
Depois, durante o tempo do período autoritário, evidentemente, houve uma atuação explícita da imprensa. Não se falava a favor, mas também não se desafiava. Com o retorno da democracia, a imprensa interveio outra vez, na sucessão de Sarney, com todas as declarações e reportagens absolutamente falsas em relação ao candidato das forças populares, que já era Lula. Isso se repetiu nas duas eleições de Fernando Henrique, mas mais moderadamente. Foi bastante incisiva durante a primeira campanha. Na segunda, a imprensa se comportou razoavelmente. Houve certas referências, mas nada escabroso.
Mas, os dois últimos anos foram inacreditáveis em matéria de criação de fatos sobre nada: foi inacreditável. Para 50 anos de vida política, é uma participação à altura dos partidos políticos e dos militares. Quer dizer, fazem parte da política brasileira os partidos, as Forças Armadas e a imprensa.
Destes episódios que o senhor listou qual o senhor acha que é o mais emblemático ?
Eu acho que dois episódios. Primeiro, a tentativa de impedir a posse de Juscelino Kubitschek. Por quê? Porque Juscelino não era intérprete ou representante de uma classe ascendente. Ele pertencia à elite política. Era um homem do PSD - Partido Social Democrata. Juscelino era um modernizador. Portanto, a tentativa de impedir a sua posse mostra o radicalismo e a intolerância das classes conservadoras brasileiras. Quer dizer, naquele momento, não aceitava nem mesmo um dos seus membros, porque era um modernizador. Este episódio é bem emblemático. Não houve nada de dramático, de trágico ou suicídio, mas é um exemplo de até onde pode chegar a intolerância do conservadorismo brasileiro. É impressionante. Esse foi pra mim um episódio que define muito bem até onde o conservadorismo é capaz de violar os escrúpulos democráticos.
E o segundo ?
É agora com Lula, porque a posse de Lula realmente revela uma nova etapa histórica no país. E revela o quanto o conservadorismo se dispõe a comprometer o futuro do país, pelo fato de o governo estar sendo exercido pelo intérprete de uma nova composição social. Isto é, há um grupo parlamentar e há grupos privados - e neles se inclui a imprensa - dificultando a implementação de políticas que são reconhecidamente benéficas ao país, porque estão sendo formuladas e implementadas por um governo intérprete das classes populares. Isso é impressionante. Quer dizer, no fundo, aquilo que os conservadores dizem que as forças populares - segundo eles, para a esquerda, quanto pior melhor -, na prática, quem pratica o quanto pior melhor são os conservadores.
Por que, na opinião do senhor, a mídia se considera inatacável, indestrutível ?
Ela se considera indestrutível porque ela tem razões para isso. Ou seja, uma das instituições que até agora vem resistindo à democratização, à republicanização do país é a imprensa. Um país moderno e democrático é um país em que não existe instituição ou pessoa com privilégio de direitos, pessoa que não seja submetida à lei. Na medida em que a democracia se implanta nos países, se reduz o número de instituições e grupos sociais que não se submete à lei. Todo mundo fica, de fato, igual diante da lei. Isso vem acontecendo gradativamente, vagarosamente, mas inapelavelmente no Brasil. Na realidade, nós temos até que as Forças Armadas hoje, no Brasil, estão mais democraticamente enquadradas, mais juridicamente contidas do que a imprensa. Hoje, é muito mais difícil para um representante das Forças Armadas violar impunemente as leis do que a imprensa.

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Minha vida é um constante esforço de adaptação. A insegurança sobre quem eu sou tornou a adaptação diária, quanto as minhas próprias dimensões e possibilidades, um dos meus grandes esforços enquanto ser humano.