06:53

As mulheres decidem, a sociedade respeita e o Estado garante

17/10 – O Senado uruguaio rejeitou esta semana a proposta de despenalização do aborto no país, pondo fim à polêmica gerada em torno do tema, considerada a mais acirrada desde a discussão sobre a derrogação da Lei da Caducidade[1].

Após uma acalorada discussão em sessão, que foi ainda interrompida por falso alarme de bomba e perturbada por um exibicionista que se despiu, os parlamentares votaram o projeto de lei denominado Saúde Sexual e Reprodutiva que previa, em um de seus capítulos, a descriminalização do ato de interrupção de gestações nas doze primeiras semanas. O projeto, cuja votação no Senado atraiu toda a imprensa, propunha que o aborto fosse desconsiderado crime em casos de risco de saúde para mulher ou para criança e também se a gestante se encontrar em “situação de penúria econômico, social, familiar ou etária”.

Apos a votação, que terminou empatada (15 votos a favor e 15 contra), os senadores não aprovaram o capítulo que tratava do aborto, já que a aprovação de projetos de lei requer maioria simples, ou seja, metade mais um. O restante do documento foi aprovado por unanimidade. O projeto agora será encaminhado para a Câmara dos Deputados, e a coalizão do governo, a esquerdista Frente Ampla (FA), pleiteará uma consulta popular.


O projeto de Saúde Sexual e Reprodutiva provocou, tanto na sociedade civil quanto nas esferas de poder, opiniões e posicionamentos dissonantes. A FA se posicionou a favor da despenalização do aborto, com exceção de dois senadores que se alinharam ao presidente da República, Tabaré Vázquez. Dias antes, ele havia anunciado que vetaria o projeto caso ele fosse aprovado integralmente, contrariando a posição da maior parte de sua coalizão. Em relação às legendas de oposição, o Partido Nacional votou contra e o Partido Colorado ficou dividido.

Os argumentos usados contra a legalização do aborto nas condições previstas pela proposta são, na maioria das vezes, referentes ao “direito à vida”, defendendo a proposição científica que a vida humana começa no momento da concepção. Trata-se de um argumento muito difundido, apesar do Código Civil uruguaio estabelecer que uma pessoa só existe após ter nascido e vivido por mais de 24 horas. Alguns dos defensores da perpetuação da criminalização do aborto sustentam também que a legislação atual já prevê uma série de exceções à criminalização do aborto. Além disso, insistem em avanços na prevenção e na educação para evitar gravidezes indesejadas e abortos clandestinos.
Já os defensores da proposta de despenalização atentam para o fato que a lei que define o aborto como crime é de 1938 e que, até hoje, não contribuiu para que se evitasse um grande número de abortos ilegais e as muitas mortes em decorrência dos procedimentos inadequados nesses casos: no Uruguai, 33 mil mulheres por ano se submetem às condições precárias dessas operações de risco – o equivalente a 90 por dia, num país que possui somente 3,4 milhões de habitantes. Os militantes da despenalização do aborto também enfatizam a necessidade de dotar a mulher de liberdade e autonomia suficientes para decidir soberanamente sobre o próprio corpo. Além disso, muitos adotaram a postura do senador frenteamplista Víctor Vaillant: a favor da descriminalização apesar de contra práticas abortivas. O parlamentar tem chamado a atenção para a contradição entre as normas e a cultura da sociedade – apesar de ser previsto como crime pela lei, o aborto não é denunciado pela população, ao contràrio de outros crimes, como roubo e assasinato.

Segundo a senadora da FA e médica Mónica Xavier, nos países que legalizaram o recurso de interrupção da gravidez, os índices de mortalidade materna durante abortos em condições de risco caíram significativamente. Além disso, o número de abortos praticados nesses países não subiu após a prática ser descriminalizada. Pelo contrário, o número de mulheres que escolhem interromper a gestação diminuiu em tais países. Levando em conta esses fatores, os setores progressistas da sociedade tenderam a se posicionar a favor da despenalização. Segundo os resultados de pesquisa realizada pela empresa Factum, no último trimestre de 2006, 61% dos uruguaios apóia a descriminalização do aborto, enquanto 27% é contra e 12% prefere não opinar.

Organizações de mulheres argumentam que a legalização do aborto é uma “bandeira irrecusável”. Movimentos sociais a favor de sua legalização têm se manifestado constantemente nas ruas uruguaias, reunidos na Coordenação Nacional de Organizações Sociais pela Defesa da Saúde Reprodutiva. Em setembro, houve uma marcha pela descriminalização da prática na América do Sul e Caribe, cujo lema no Uruguai era: “As mulheres decidem, a sociedade respeita e o Estado garante”. Durante a ocasião, denunciou-se a morte de uma mulher de 40 anos após passar por um aborto clandestino – ela tinha 14 filhos. Críticos da despenalização também foram às ruas, liderados pela Mesa Coordenadora Nacional Pela Vida e apoiados pelo arcebispo de Montevidéu, monsenhor Nicolás Cotugno.
O debate pùblico sobre a descriminalização do aborto não é novidade no Uruguai. Desde 2001, o tema está em pauta na agenda política do pais – em 2004, um projeto muito semelhante foi rejeitado no Congresso e hà anos, as organizações feministas se mobilizam no sentido de demandar mudanças na legislação para habilitar a interrupção da gravidez. Dado o conservadorismo presente na sociedade uruguaia, é provàvel que a consulta popular solicitada por alguns senadores condene mais uma vez o aborto. Um projeto de caráter tão ambicioso e liberal dificilmente vingará em um país tradicionalista onde a idade fixada pela lei para meninas se casarem é de apenas 12 anos. A Organização das Nações Unidas chegou a emitir um parecer expressando sua preocupação com o grande numero de adolescentes grávidas e solicitou que o Uruguai modificasse a lei e elevasse a idade mínima para 18 anos. No entanto, o pedido da ONU ainda não foi atendido.

Esse quadro indica que apesar de garantir espaço para a atuação dos movimentos sociais, incentivar a organização sindical e eleger um governo de esquerda, a sociedade uruguaia ainda deixa a desejar em relação à promoção da autonomia feminina. A atualidade do pais ainda é marcada pela discriminação da mulher pela limitação de sua autonomia sobre o próprio corpo. Como Monica Xavier bem expressou, citando Albert Einstein, em seu discurso no Senado, “é mais difícil quebrar um preconceito do que um átomo”.

[1] lei de anistia que favoreceu os militares após a ditadura no país.

11:18

O dia em que Shakespeare salvou o amor.


Outro dia li uma enquete que reunia um punhado de intelectuais e propunha a seguinte pergunta: qual a maior história de amor já contada? Como em quase todas essas pesquisas, o resultado não foi grande surpresa: Romeu e Julieta, de Shakespeare.

Era muito novo quando li a peça, não lembro de passagens do texto ou coisa assim, mas acho que essa, como muitas outras obras de Shakespeare, é daquelas que todo mundo conhece detalhes, mesmo sem nunca ter aberto o livro. (principalmente graças àquela versão moderninha que foi pro cinema).

Sempre pensei que Shakespeare está pra literatura assim como os Beatles estão para o rock. Você bota um moleque de 15 anos pra ouvir Beatles e ele vai dizer: “é, legalzinho...”. Ele ouve Beatles hoje, depois de já ter consumido quinhentas bandas que não existiriam se os Beatles não tivessem gravado meia dúzia de discos que dariam origem a milhares e milhares de imitações. Não acho exagero dizer: todo mundo imita os Beatles, há mais de 30 anos. Desde então, com raras exceções, pode-se dizer que “não há nada de novo sob o sol”. Não sou beatlemaníaco, longe disso. Até porque é estupidez não admitir que essa influência dos Beatles vem se modificando, se adaptando, se desenvolvendo. A distorção, por exemplo, aquela guitarra suja do Helter Skelter, teve sua ascensão e queda, mas não tem como negar: ela nasceu com os Beatles. Enfim, muitas bandas boas, excelentes, surgiram desde a década de 70, mas isso não é excludente. Copiar os Beatles não faz da banda uma banda ruim ora, pelo contrário.

Muito bem! Com Shakespeare acontece a mesma coisa. Você vai lá e lê Hamlet, por exemplo. É inevitável! Você vira a última página e diz: “É só isso?Esse é o tal do Shakespeare que todo mundo fala? Código Da Vinci é tão bom quanto!!” Ok, peguei pesado, mas deu pra entender, não é? A mesma coisa acontece com Machado de Assis na literatura brasileira, mas isso é tema pra outro post.

Não chego ao exagero do Harold Bloom (um crítico peruado, que baba o ovo do Shakespeare até dizer chegar) de afirmar que Shakespeare inventou o ser humano como conhecemos hoje, e que devíamos cultuá-lo quase como uma religião, pois ele despertou no homem a capacidade total de auto-análise e outras coisas (se você estiver sem nada pra fazer, mas nada mesmo, pode se aventurar pelas quase mil páginas que ele escreveu pra te convencer disso: http://www.planetanews.com/produto/L/11415/shakespeare--a-invencao-do-humano-harold-bloom.html). Sem dúvida, toda a literatura ocidental teria sido muito diferente se Shakespeare não tivesse existido. Não há sentimento humano que não seja abordado na sua obra. Nada fica de fora.

Obviamente, o amor é um dos temas mais freqüentes e sem dúvida seu ponto alto, na obra de Shakespeare, está em Romeu e Julieta. Tal obra deixou se de ser apenas literatura e entrou, há muito, no imaginário da sociedade. A coisa chegou a um estágio de enraizamento cultural tão forte que conhecemos o amor contado por Shakespeare antes mesmo de experimentarmos o amor nas nossas próprias vidas.

A principal particulariedade de Romeu e Julieta, como maior obra de amor de todos os tempos, é que não apresenta final feliz. Pelo contrário: quando a tal adaptação moderninha passou no cinema, todo mundo já sabia o fim, mas, mesmo assim, era uma choradeira total.

Então, não há final feliz. Mas acontece que aquilo que poderia ser interpretado como um estímulo à desesperança, uma vitória das convenções sociais sobre o verdadeiro sentimento humano, é, na verdade a vitória do amor, a eternização do amor. Se o plano do jovem casal tivesse funcionado e ambos conseguissem fugir e tudo mais, o que haveria depois? A história ficaria inconclusa, teria que terminar com um tradicional “Felizes Para Sempre” e, com certeza, se perderia como mais uma entre milhões de histórias de amor que já foram contadas por aí.

A grande sacada de Shakespeare foi desafiar o homem aos seus limites. Revelar sua humanidade à luz do seu pior inimigo: o destino, e mostrar que havia chance de vitória. A eternidade só poderia ser alcançada pelo amor incondicional, o amor súbito, o amor que não se acaba. O amor nunca vai ser capaz de fugir da vida e, consequentemente, da morte, mas, acima de tudo, existe uma capacidade de sonhar e de se elevar além do que é sentimento. A espiritualidade plena, o caminho da salvação, a isso Shakespeare chama amor, e é a isso que ele põe em Romeu e Julieta. Ao mesmo tempo ele tenta mostrar que só no duplo, no outro, cada um se encontra. Ao depender do tempo para viver, o homem se torna vulnerável, passa a ser uma memória turva, um reflexo borrado do que um dia ele já foi. Não podemos confundir isso com desapego pela vida, pois, na verdade é exatamente o contrário, é o elevar da vida ao status supremo, de atemporalidade.

O homem é um ser solitário, abandonado, e essa é sua constante maldição. É preciso achar o caminho de volta e isso só é possível com a ajuda de uma outra alma. Essa é a conjunção de Romeu e Julieta e é isso que torna a morte deles não o fim, mas a redenção do amor. Graças a Shakespeare, ainda é possível ter esperança.

07:56

O Livro dos Profetas


Minha incompetência, alida a minha perguiça, vem sabotando qualquer tentativa própria de escrever uma resenha sobre lançamentos que considero importantes. Assim, transcrevo abaixo uma pedaço do prefácio da obra O Livro dos Profetas, escrito pelo próprio autor, um jovem carioca com o estranho nome Hugo Soto, que acho que vai dar muito o que falar. Aproveitem.



“ Quando falava para as pessoas que estava publicando um livro, os comentários eram sempre os mesmos: “Que legal! Sobre o que é?”. No começo, confesso, aproveitei a pergunta para me divertir um pouco: “é sobre uma técnica tântrica de sexo animalesco, que servia de elevação espiritual na filosofia hindu e que, por incrível que pareça, possui traços muito semelhantes com os de algumas tribos indígenas amazônicas, que copiavam o ritual de acasalamento dos tatus pardos, registrados no período colonial. Não é interessante?” “ah sim, que bacana”...!

No entanto, a insistência desse questionamento me levou a uma reflexão verdadeira sobre do que, de fato, tratava o meu livro. A resposta mais simples, sem dúvida, é: são contos sobre pessoas que acham que são profetas, ou que talvez sejam de fato, e nós não sabemos. Mas nada, na arte (e me perdoem a pretensão) é o que parece.

Em primeiro lugar, não gosto de enxergar as histórias desse livro como contos isolados. As histórias possuem traços de independência uma das outras em termos de começo, meio e fim, que facilitam a vida do leitor, mas todas possuem um elo em comum. A construção do livro e de suas histórias foi feita como uma pintura, como se contemplasse um enorme painel onde é possível enxergar de perto cada centímetro e perceber uma peculiaridade, um ciclo que se completa, ou dar cinco passos pra trás e observar o todo como um grande universo que compreende inúmeras centelhas de vida. Esse grande painel, no entanto, não deixa de estar envolto por uma certa neblina, uma certa aura que encoberta o grande tema, que é a fé. Essa tema se revela exatamente no minimalismo que permeia o tom que tentei dar a toda escrita a obra, buscando construir um enorme jardim japonês, rico em detalhes que, por sua vez, são mínimos em sua simplicidade.

Assim, não foi minha pretensão proporcionar algum tipo de revelação mística, apesar de, confesso, eu mesmo ter sofrido algumas durante o processo de criação (egoístas, sem dúvida). No entanto, esse livro pode ser considerado uma resposta íntima a uma aflição pessoal com a contemporaneidade da literatura e da arte moderna como um todo. Existe sim a intenção declarada de, nas histórias, mergulhar o mais profundamente possível no lado oculto do ser humano, mas sem glorificá-lo, sem se lambuzar nele. Essa escuridão que todo homem apresenta é exposta de forma simples e natural, tentando iluminar as partes possíveis, sem abandonar as questões racionais. Esse livro, humildemente, é meu manifesto contra a uniformização do ser humano e contra a arte sem significado. . È um elogio à tristeza essencial e à felicidade básica. È uma exposição do medo tranqüilo, de um mundo que não se acaba. È uma busca solitária de alguém que descobriu, na escrita, a forma mais humilde de falar com Deus. Por isso, se você veio aqui procurando sujeira e degradação, por favor, vá ler algum blogueiro."

09:30


O renomado lingüista Oliver Schuh veio a falecer pouco depois do lançamento de O Homem Sem Fim, livro que ele próprio considerou o mais importante de sua carreira. A empolgação do autor com sua própria obra foi tanta que o faz sair de sua notória reclusão para dar algumas entrevistas e palestras, com o intuito de divulgar e explicar esse seu último trabalho. Por isso, me eximo de escrever qualquer resenha e passo as palavras ao próprio autor, reproduzindo o trecho de uma entrevista concedida ao periódico francês Le Xis, em 29 de setembro de 1973. A tradução, feita do espanhol, é minha.

Le Xis: Após 10 anos o sr. volta a publicar um livro, acabando com um longo período de silêncio e retomando uma carreira que o sr. mesmo afirmara já ter terminado. Quais os motivos para esse retorno?

Schuh: De fato, já tinha considerado como encerrada minha carreira e já decidira abandonar de vez as grandes atividades intelectuais e me dedicar apenas aos meus netos e minha família. Acreditava, e ainda acredito de certa forma, que não tinha mais forças ou disposição para tal coisa. No entanto, continuei dando aulas na faculdade e isso acabava não me deixando desligar totalmente do meio acadêmico. Foi aí que caíram em minhas mãos os trabalhos de Hamm Junk, particularmente os dois primeiros livros, Gatos Selvagens e África. Interessei-me na hora, principalmente ao constatar que não havia praticamente nenhuma produção acadêmica sobre sua obra, uma vez que ela havia sido quase toda destruída pelo regime nazista e não ganhara traduções. Logo percebi que os exemplares que tinha eram muito raros. Decidi que valia à pena reunir um pouco das minhas últimas forças e me aventurar em mais essa empreitada. Minha esposa, obviamente, não ficou muito satisfeita, afinal, a idéia era fazer um pequeno artigo, que não me ocupasse mais de um ou dois meses trabalho, mas acabou virando um livro de 500 páginas que me consumiu dez anos.

Lê Xis: Como isso se deu? Essa transformação de artigo em livro?

Schuh: Logo que comecei a pesquisar sobre Junk soube que ele ainda havia escrito dois livros: A História do Fogo e O Abismo das Coisas. Esses dois livros eram muito diferentes do que aqueles que eu já possuía. Era uma outra sintaxe, um outro autor. Mas todos eram muito interessantes porque tinham semelhanças que eu não pude distinguir na hora. Foi buscando informações sobre a vida de Junk que pude entender, finalmente, que seus livros, ou melhor, que sua linguagem, era um verdadeiro labirinto. Era como se Junk tivesse inveja de deus e quisesse, através da linguagem, construir um novo mundo em algum lugar que nem ele mesmo sabia. Poderia ter parado a análise aí e ter feito o artigo, mas o vício de anos e anos dedicados à pesquisa me fez a abrir a porta do labirinto. E ali fiquei durante dez anos, creio.

Lê Xis: O sr acabou fazendo, pela primeira vez em sua obra, um livro que vai além da análise literária e incorpora muitos aspectos biográficos. Por que essa escolha?

Schuh: Bom você ter ressaltado que foi uma escolha, porque de fato foi assim. Cheguei a completar um manuscrito feito dentro dos padrões de todos os meus outros trabalhos, mas algo me dizia que não estava certo, que faltava alguma coisa, que aquilo poderia render muito mais. Minhas pesquisas sobre a vida de Junk haviam sido interrompidas pela escassez de material. Tudo sobre sua vida era muito irregular e não havia nada de concreto. Sabia que havia lutado na primeira guerra, que havia passado alguns períodos em sanatórios na Alemanha e na Itália, e de sua viagem à África que acabou virando uma fuga da perseguição nazista. Mas nada disso era oficial e não me sentia seguro suficiente para explorar isso no trabalho. No entanto, uma vez dentro do labirinto, vi que não conseguiria retornar até chegar ao fim. Foi então que deixei de lado a parte lingüística e comecei numa função inédita em minha carreira, a de biógrafo. Fiz inúmeras viagens, buscando fontes primárias sobre sua vida, e finalmente recolhi informações suficientemente fidedignas para completar o trabalho.

Lê Xis: Recentemente o professor Xaval publicou um pequeno estudo sobre Junk, onde contradiz alguns fatos que estão no seu trabalho...

Schuh: Não li o trabalho de Xaval, e não sei se pretendo ler. Parece que ele afirma que Junk era desconhecido dos nazistas e foi ele mesmo que queimou todas as suas obras durante uma de suas crises mentais. No entanto, prefiro confiar nas minhas fontes. Junk era judeu e como sabemos isso implicava numa série de coisas. Acho que ninguém será capaz de desvendar completamente a vida de Junk. Durante minha pesquisa, às vezes, senti como se ele tivesse feito questão de não existir, de não deixar traços de sua existência além de seus livros. Na verdade, acredito que uma de suas muitas paranóias era de que ele mesmo, cedo ou tarde, se tornaria um personagem de seus próprios livros. Sua mente chegou a um ponto onde o que ele criava na literatura se tornava real para ele. Nossas cabeças, consideradas racionais, não conseguem entender a profundidade do que isso implica. Não é como um louco que vemos num filme, normalmente ligado a alucinações. Não, Junk levou sua paranóia a um grau que os próprios relatórios dos hospitais onde ele passou afirmam ser inédito até então. No entanto, temos a sorte de ter isso documentado de uma forma muito menos hermética do que imaginaríamos. Junk tinha uma mente doentia, mas que funcionava quando se tratava de linguagem e foi nisso que eu foquei minha obra. Claro que acho importante, como disse, sabermos sua biografia, mas não sua biografia factual, pois essa é impossível de ser refeita de forma objetiva. O que interessa em Junk, para mim, é a biografia da sua loucura, da sua dor, e de como ele jogou isso tudo na sua linguagem e conseguiu fazer arte.

Lê Xis: E por que o título Homem se Fim?

Schuh: Existe uma frase de Junk, na verdade está em um de seus poemas, que se espalham por toda sua obra, onde ele diz “O que será de nós, homens eternos?” Tive muitos problemas na tradução dessa frase, mas preferi interpretar que a expressão “homens eternos” se refere a ele mesmo. Mas isso tem uma explicação: duas características marcantes que identifiquei na obra de Junk foram a pluralidade de escritores e unicidade do tempo. A pluralidade à que me refiro vai além do narrador, não é uma mudança apenas na voz narrativa. Junk parecia escrever como muitas pessoas ao mesmo tempo. Ele conseguia usar características diferentes em diversas vozes, e confesso que me diverti muito recolhendo e montando esse quebra-cabeça. Pode parecer exagerado, mas a análise a ser feita é muito semelhante a que fazemos com Homero quando perguntamos se ele realmente existiu ou se suas obras não são, na verdade, uma coletânea de história populares reunidas num contexto. A diferença é que Homero viveu a milhares de anos atrás e Junk há poucas décadas. Quanto à unicidade de tempo, parte da percepção de que muitos personagens possuem uma noção completamente inversa da idéias de início e fim. O próprio Junk sofria com distorções semelhantes e a eternidade acaba sendo um tema muito explorado subjetivamente nos seus livros. Acho que ninguém na literatura ocidental conseguiu ir tão fundo na questão metafísica do tempo. Unindo então essas duas características eu percebi que Junk, ao escrever, não se via como um narrador ou um escritor. A linguagem para ele era algo místico, não exercia a simples função de comunicação ou organização como possui para a maioria de nós. A linguagem para ele era como o tempo, e é daí que vem o título. Escrever fazia Junk existir e tenho certeza de que, se ele não tivesse escrito, não teria existido.