03:29

o sol por entre as árvores


O amor é como duas solidões protegendo-se uma à outra”. Não é à toa que a famosa frase de Rainer Maria Rilke aparece logo na abertura de O sol por entre as árvores, o único romance escrito pela japonesa Harumi Morita, falecida em 2002 num acidente de carro na Inglaterra, aos 24 anos.

Considerada um talento da nova geração, Morita seguiu o caminho inicial de quase qualquer escritor moderninho. Escrevia sem grandes pretensões em um blog na internet e, quando menos percebeu, seu espaço virtual já era um fenômeno no Japão e em boa parte da Ásia continental, com uma média de 10 mil acessos diários. Daí foi só uma questão de tempo para ter seu primeiro livro encomendado por uma pequena editora de Tóquio.

Seguindo essa tendência, o que podíamos esperar era um livro urbano, com uma linguagem estruturalmente empobrecida, sobre a desculpa de se adequar á realidade do mundo pós-11 de setembro, e que contasse as agruras de uma vida tediosa onde jovens se atiram a vícios ou qualquer tipo de subversão, buscando preencher o vazio de uma sociedade consumista ou qualquer blábláblá que justificasse a filosofia Homer Simpson adotada pela juventude de classe média (não interessa mais se ocidental ou oriental).

No entanto, Morita não seguiu o caminho mais fácil. Encerrou as atividades de seu blog e trancou-se numa pequena casa alugada no interior do Japão. Um ano depois, saiu de lá com o que o prêmio Nobel de literatura, Kenzaburo Oe, definiu como “o maior romance escrito em japonês nos últimos 20 anos”.

A história por trás de O sol por entre as árvores é tão simples que assusta. Passado na zona rural do atual Japão, o livro conta a vida da família Koda durante um ano em que, basicamente, nada de importante acontece. Não há um personagem central e a história flui através de 4 eixos que correspondem aos diários de cada membro da família: Janichiro, sua esposa Kinko, e o casal de filhos Chise e Hideki.


Aos poucos vamos sabendo um pouco mais da história dos Koda que, apesar de serem uma família, parecem não serem suficientes um para o outro. Janichiro e Kinko casaram-se em Tókio nos anos 70 e alimentavam sonhos artísticos-revolucionários que ambos sabiam não ter nenhuma condição de realizar. Fugindo de suas próprias frustrações, o casal já havia ensaiado uma fuga da capital para o campo, mas foi inibido pela mesma falta de coragem que também os impediu de aceitar a proposta de um primo para abrir uma editora, o que significava também largar seus empregos no Estado. Incapazes de fazer algo para si mesmos, os Koda encontraram na doença respiratória de seu primeiro filho, Hideki, a oportunidade de realizar esse sonho migratório e se mudaram de vez para a zona rural. Lá, Junichiro pretendia realizar o sonho de escrever um livro e Kinko se dedicaria a abrir uma escola.

No entanto, as coisas não aconteceram da forma como ambos imaginavam. Junichiro passou um ano e chegou a escrever um livro inteiro, mas sua ambição e sua insegurança o impediram sequer de enviar os originais para uma editora. Assim, em um ritual que simboliza toda sua personalidade dramática, queima os originais no jardim durante o inverno. Kinko, por sua vez, entra de sócia numa escola local, que não lhe realiza como educadora, mas também não lhe dá motivos para reclamar. Impaciente e desiludida abandona o cargo na diretoria para assumir como professora.

Nesse ínterim nasce Chise, que, junto com seu irmão mais velho, cresce num ambiente corrompido e de desesperança. Ambos, na adolescência, já começam a despertar traços de personalidade conflitantes com os pais. Chise é rala, superficial, pode-se dizer até fútil, e Hideki não é diferente. Ambos odeiam a vida no campo e sonham em ir para cidade. Não têm ambições, além de possuir as últimas coisas da moda, ou qualquer coisa que apareça nos comerciais. Cresceram afastados de valores familiares e, assim como seus amigos, evoluíram conforme o mundo se mostrava na tela da TV.

Tal palco poderia estar montado para a exposição de um grande acontecimento trágico-familiar, mas não é por aí que Mirota decide nos levar. Ao invés disso, autora nos mostra a delicadeza que não podemos ver, aquilo que está dentro da escuridão do coração. Tudo é contado através dos diários dos personagens, mas poderíamos dizer também que nada é contado nesses diários, pelo menos não explicitamente. Os acontecimentos não são os fatores centrais da história. Janichiro e Kinko vivem uma amargurada solidão a dois, com a qual já estão acostumados e condenados. Os filhos, apesar dos indícios de personalidade vulgar, ainda estão muito novos para qualquer ruptura com a vida e ainda refletem muito da frustração que observam nos pais. Assim, sabemos que algo irá acontecer com essa família, que logo ela irá se desintegrar, mas não será agora, diante dos nossos olhos. Estamos olhando para um momento onde ainda existe uma salvação, mesmo que fadada ao fracasso.

O leitor desses diários, então, assume totalmente a condição de um Deus, capaz de observar as pessoas não só pelos seus atos, mas também pelos seus reais sentimentos, e incapaz de julgá-los além do que realmente são. Fica difícil não sentir pena de Junichiro quando ele se lembra de como amava sua esposa e de como esse sentimento se perdeu diante dos seus olhos. Através de lembranças, ele busca esse amor perdido e adormece sobre o diário. No dia seguinte, as anotações são: "Não vi Kinko o dia todo. Queria conversar com ela sobre um sonho que tive noite passada. Há tempos não lhe conto meus sonhos porque há tempos não sonhava. Amanhã certamente já terei esquecido.”

Outra passagem tocante é quando Hideki comenta: " Hoje magoei profundamente mamãe e me arrependo. Quando ela chegou do trabalho agiu como se nada tivesse acontecido. Botou meu jantar e perguntou como havia sido meu dia na escola. Ao contrário do que ela imagina, agir assim só me faz sentir pior. Envergonhado por sua superioridade, fui para o quarto e deixei-a sozinha. Agora, escuto-a chorando."

Mirota trabalha sutilmente a eterna falta de comunicação entre os homens e suas conseqüências mais profundas, demonstrando essa eterna busca para preencher um vazio inerente à solidão humana, que, na verdade, não pode ser preenchido, mas sim protegido e cuidado, como disse Rilke. Com propriedade, a autora faz seus personagens confessarem todo um mundo de dor e angústia que possuem dentro de si, pois acredita que só assim eles serão livres para viver uma vida sem culpa. Depois, deixa-os expostos para que nós, os leitores, possamos salvá-los, virando a última página e não os esquecendo jamais.

06:29

there is a light that never goes out
there is a light that never goes out
there is a light that never goes out
there is a light that never goes out
there is a light that never goes out
there is a light that never goes out
there is a light that never goes out
there is a light that never goes out
there is a light that never goes out
there is a light that never goes out
there is a light.......

13:47

Essa noite sonhei que o vão entre o céu e a terra
Era coberto por uma melodia suave e inefável
E vivíamos como que embriagados
Confortavelmente adormecidos
Sonhando que nunca havíamos existido.

Senhor, se és meu guia,
Porque me falas em línguas que não entendo.

10:38

hoje é sábado
amanhã é domingo
dia de todos os santos
dia de todos os prantos


dia de falar a verdade
a quem se ama, e a mentira
a quem se ama mais ainda

dia que não é dia
sem o dia seguinte, dia
de tardes longas como mundos

de noites tristes como gerânio

dias abandonados sobre dias
de espaços vazios entre as horas
onde guardamos um único silêncio

que se perde por debaixo dos nossos olhos

hoje é sábado, amanhã é domingo

12:17


Andava sem pressa, mas sequer percebia a si mesmo no meio de tantos, que também andavam, para algum lugar que ele não conhecia. Sentia-se pesado, a ponto de chorar, no entanto sabia que não o faria. Fizera muito calor o dia inteiro, mas agora nuvens já apareciam pesadas no horizonte e com certeza choveria. Gostava dessa época do ano, dessas chuvas repentinas, de acordar com o barulho daquelas gotas grossas tamborilando nas janelas, dos trovões que resplandeciam nas montanhas do outro lado da cidade.

O pensamento fugia. Nada parecia ser capaz de chamar sua atenção. Passou pela banca de jornais, por uma lanchonete. Estava com fome, mas não queria comer. O túnel que descia para o metrô borbulhava de gente saindo do trabalho e voltando pra casa. Apesar disso, estava silencioso, como ele.

Sentou-se num banco de um jardim próximo, perto de um parquinho onde algumas crianças uniformizadas brincavam à vista indiferente de suas babás. Uma delas trazia um cachorrinho, que se empenhava em romper a casca de dos vários tamarindos que se espalhavam pelo chão. Isso o fez sorrir.

Ficou muito tempo ali observando, até que todos foram embora. Nada acontecia e desacostumara-se àquilo. Estava terrivelmente cansado e as primeiras gotas começavam a cair sobre seus ombros. Era tarde e sentia muitas saudades.

10:36

junho, 2005

teu cabelo é feito de flor
de rosa vermelha,
feito noite de inverno

teu toque é silêncio
neve que cai abandonada
sobre a minha solidão


e assim eu prossigo,
pintado na escuridão vazia das ruas
desconstruindo as horas

(nada nesse mundo é tão belo
como as violetas que caem do céu
quando você sorri )

04:52

Crocodilos e Borboletas; parte 2




é verdade,borboleta, sem perceber estou aqui , dentro do mesmo quadro, entortando as mesmas linhas, preenchendo os mesmos espaços com tinta azul e branca,que é pra pintar teu céu ,coisas fulgazes , chuva lilás, teu veneno está em teu voar, no que ele deixa pelo ar, que troca, vira a montanha, caem os guarda-chuvas, uma noite só suficiente para que eu termine de beijar as dobras do seus dedos.Não houve um momento em que eu não pudesse ouvir, mesmo à milhas de distância, a dança dos teus cabelos soturnos, os tigres escondidos no seu pescoço. Beijo-os , beijo-os a todo instante, em minha boca nasce tua floresta, broto e grão, molho tua horta, seco teu pranto demasiado salgado por horas que nunca terminam. Infinito é teu hábito , tua única forma de amar devagar, de menosprezar as artimanhas do tempo em função do toque úmido capaz de paralisar a noite e as nuvens. Ninguém ouve teu cantar, mas eu vejo.Ninguém sorri teus sorrisos, mas eu sonho.Ninguém respira a flor na tua barriga, mas eu entendo que coisas molhadas não secam jamais. Borboleta, onde você carrega tua tristeza se não no misticismo das tuas asas ou nessas manchas pelo seu corpo, nas tuas pequenas rosas,na tua escuridão. Caio em mim, sobre meu desencanto, repito palavras porque não sei inventá-las ,danço ,escuto as estrelas, escrevo clichês de amor, crio o medo. Hoje é feriado , em algum lugar existem cachoeiras nas quais eu nunca vou me banhar, mas mesmo assim eu enxergo além dos teus tornozelos, sofro pelos teus gêmeos na água gelada, rezo a alguém que te diga para me perdoar, por ser tão inseguro, por não ser um só nem muitos nem tantos nem poucos nem nunca.

Não há pretensão nenhuma em noites quentes como essa. Boto minha cadeira na varanda, escuto o lamento nos sorrisos das pessoas que passam, divido com elas a angústia de não possuir nada, mas minto, minto o tempo todo, porque mentindo se constrói uma verdade tão verdadeira quanto qualquer outra .É tudo uma questão de escolhas e escolher qual verdade é tão difícil quanto decidir que camisa usar num dia de trabalho.Não gosto de filosofia, tudo que sei foi o vento quem me ensinou e estou dividindo com você agora porque tenho muito o pouco a dizer.

Escuto bem longe o colapso do outono, eu estou aqui, as canções de guerra, eu estou aqui, tambores e velhas ilustrações, eu estou aqui , um sono sem sonhos, eu estou aqui. Para quando você sentir vontade de cantar, borboleta, eu estou aqui.

10:19

Boa Noite, Ternura


Na verdade o que me levou a escrever esse livro foi que ele era a única forma de manter-me vivo. Há 3 anos cheguei a um ponto onde a vida só me deixou dois caminhos: ou escrevia, ou me suicidava. Não espero que as pessoas entendam isso literalmente, porque realmente, falando assim, soa um tanto dramático e prepotente. Mas pra mim era isso bem claro quando comecei a escrever e essa condição acaba aparecendo em todas as histórias que escrevi.

Não deixa de ser, então, o resultado de uma escolha pela vida, por mais estranho que isso possa soar para aqueles que já leram o trabalho. Acima de tudo, o que tentei fazer foi uma dissecação das relações humanas nas diversas maneiras possíveis, dentro de uma gama de contextos que achei adequada para destacar certos pontos que me pareciam importantes porque, antes mesmo de começar, já sabia que este seria um livro que escreveria para minha salvação pessoal exclusiva. Não tinha outra escolha e sabia que só havia uma forma de escrevê-lo. Antes de escrever a primeira frase já sabia que só poderia haver uma primeira frase. Qualquer erro, qualquer desleixo, seria como um passo para meu próprio fim.

Isso, obviamente, tornou tudo muito doloroso. Com certeza, as duas primeiras histórias foram as mais difíceis, porque são totalmente pessoais. Mas era algo que eu devia fazer e, resignadamente, agüentei todo o sangue e lágrimas que elas me fizeram escorrer. A parti daí, pude perceber que a lógica que guiaria meu processo seria a do passado, a da memória. Foi então que, a partir do terceiro conto, os personagens começam a se identificar e se relacionar cada vez mais com seu passado, com suas lembranças. Os contos então, passam a ser contos dentro de contos, mutáveis como o passado de cada um de nós, que selecionamos e contamos conforme nosso critério. Não existe um passado, apenas. Cada um de nós possui um tempo anterior que só pode ser definido e sentido em nós mesmos.

Sei que, até aí, não há nada de inovador. Proust já fez isso, e ninguém será capaz de superá-lo, muito menos eu. Mas veja bem, esse livro, pra mim, é como um quebra-cabeça de tudo que vivi e que fui montando para tentar encontrar todo que poderia me levar a uma certa rendição que eu tanto procurava. Nesse ponto, e isso falo com a maior humildade, creio que fui levado a escrever pelos mesmos motivos de Proust. O resultado é que, claro, saiu muito diferente.

Então, é verdade que quase todos os contos remetem a um tema principal que é o amor e a interação entre dois personagens, no máximo três. Isso, sem dúvida, não foi impensado. Nada no mundo pode infligir maior dor numa pessoa do que outra pessoa, nem nada dura tanto nem danifica tanto do que a dor proporcionada emocionalmente por outra pessoa. Só o ser humano é capaz de provocar dores que não são físicas, que fogem de qualquer possibilidade científica de cura. Um delicado equilíbrio é o responsável por manter as pessoas juntas em qualquer tipo de relação, seja ela filial, fraternal ou conjugal. Quando esse delicado equilíbrio se rompe, existe um mundo que é afetado. Ninguém é capaz e passar pela vida sem uma desilusão, sem cicatrizes que chegam tão fundo a ponto de não sumirem nunca mais. No entanto, para sobreviver a isso, e acima de tudo sabemos que temos que sobreviver, o mundo muda e tenta nos levar adiante. Uns conseguem com mais facilidade, outros não. Alguns recorrem a táticas inebriantes, ou manipulam suas próprias lembranças. Afinal, depois de tudo, o que sobra é sempre a lembrança e nossa capacidade de lidar com ela.



Assim, o que quero dizer é que tudo que está nesse livro é um aceno de adeus a mim e a tudo que eu levo. Uma forma de tentar sobreviver da melhor maneira possível a tudo que vivia na época que comecei a escrevê-lo. Não sei se funcionará para outras pessoas, nem acho que essa seja a intenção. Como disse, cada um lambe da forma que puder as feridas que possui. Nunca recriminei aqueles que tiram sua própria vida, nem considero uma fraqueza ou covardia do que os fazem. Se eles pudessem, tenho certeza, escolheriam ainda estar vivo. Eu tive sorte, muita sorte, podia escrever um livro, e foi o que fiz.

06:53

As mulheres decidem, a sociedade respeita e o Estado garante

17/10 – O Senado uruguaio rejeitou esta semana a proposta de despenalização do aborto no país, pondo fim à polêmica gerada em torno do tema, considerada a mais acirrada desde a discussão sobre a derrogação da Lei da Caducidade[1].

Após uma acalorada discussão em sessão, que foi ainda interrompida por falso alarme de bomba e perturbada por um exibicionista que se despiu, os parlamentares votaram o projeto de lei denominado Saúde Sexual e Reprodutiva que previa, em um de seus capítulos, a descriminalização do ato de interrupção de gestações nas doze primeiras semanas. O projeto, cuja votação no Senado atraiu toda a imprensa, propunha que o aborto fosse desconsiderado crime em casos de risco de saúde para mulher ou para criança e também se a gestante se encontrar em “situação de penúria econômico, social, familiar ou etária”.

Apos a votação, que terminou empatada (15 votos a favor e 15 contra), os senadores não aprovaram o capítulo que tratava do aborto, já que a aprovação de projetos de lei requer maioria simples, ou seja, metade mais um. O restante do documento foi aprovado por unanimidade. O projeto agora será encaminhado para a Câmara dos Deputados, e a coalizão do governo, a esquerdista Frente Ampla (FA), pleiteará uma consulta popular.


O projeto de Saúde Sexual e Reprodutiva provocou, tanto na sociedade civil quanto nas esferas de poder, opiniões e posicionamentos dissonantes. A FA se posicionou a favor da despenalização do aborto, com exceção de dois senadores que se alinharam ao presidente da República, Tabaré Vázquez. Dias antes, ele havia anunciado que vetaria o projeto caso ele fosse aprovado integralmente, contrariando a posição da maior parte de sua coalizão. Em relação às legendas de oposição, o Partido Nacional votou contra e o Partido Colorado ficou dividido.

Os argumentos usados contra a legalização do aborto nas condições previstas pela proposta são, na maioria das vezes, referentes ao “direito à vida”, defendendo a proposição científica que a vida humana começa no momento da concepção. Trata-se de um argumento muito difundido, apesar do Código Civil uruguaio estabelecer que uma pessoa só existe após ter nascido e vivido por mais de 24 horas. Alguns dos defensores da perpetuação da criminalização do aborto sustentam também que a legislação atual já prevê uma série de exceções à criminalização do aborto. Além disso, insistem em avanços na prevenção e na educação para evitar gravidezes indesejadas e abortos clandestinos.
Já os defensores da proposta de despenalização atentam para o fato que a lei que define o aborto como crime é de 1938 e que, até hoje, não contribuiu para que se evitasse um grande número de abortos ilegais e as muitas mortes em decorrência dos procedimentos inadequados nesses casos: no Uruguai, 33 mil mulheres por ano se submetem às condições precárias dessas operações de risco – o equivalente a 90 por dia, num país que possui somente 3,4 milhões de habitantes. Os militantes da despenalização do aborto também enfatizam a necessidade de dotar a mulher de liberdade e autonomia suficientes para decidir soberanamente sobre o próprio corpo. Além disso, muitos adotaram a postura do senador frenteamplista Víctor Vaillant: a favor da descriminalização apesar de contra práticas abortivas. O parlamentar tem chamado a atenção para a contradição entre as normas e a cultura da sociedade – apesar de ser previsto como crime pela lei, o aborto não é denunciado pela população, ao contràrio de outros crimes, como roubo e assasinato.

Segundo a senadora da FA e médica Mónica Xavier, nos países que legalizaram o recurso de interrupção da gravidez, os índices de mortalidade materna durante abortos em condições de risco caíram significativamente. Além disso, o número de abortos praticados nesses países não subiu após a prática ser descriminalizada. Pelo contrário, o número de mulheres que escolhem interromper a gestação diminuiu em tais países. Levando em conta esses fatores, os setores progressistas da sociedade tenderam a se posicionar a favor da despenalização. Segundo os resultados de pesquisa realizada pela empresa Factum, no último trimestre de 2006, 61% dos uruguaios apóia a descriminalização do aborto, enquanto 27% é contra e 12% prefere não opinar.

Organizações de mulheres argumentam que a legalização do aborto é uma “bandeira irrecusável”. Movimentos sociais a favor de sua legalização têm se manifestado constantemente nas ruas uruguaias, reunidos na Coordenação Nacional de Organizações Sociais pela Defesa da Saúde Reprodutiva. Em setembro, houve uma marcha pela descriminalização da prática na América do Sul e Caribe, cujo lema no Uruguai era: “As mulheres decidem, a sociedade respeita e o Estado garante”. Durante a ocasião, denunciou-se a morte de uma mulher de 40 anos após passar por um aborto clandestino – ela tinha 14 filhos. Críticos da despenalização também foram às ruas, liderados pela Mesa Coordenadora Nacional Pela Vida e apoiados pelo arcebispo de Montevidéu, monsenhor Nicolás Cotugno.
O debate pùblico sobre a descriminalização do aborto não é novidade no Uruguai. Desde 2001, o tema está em pauta na agenda política do pais – em 2004, um projeto muito semelhante foi rejeitado no Congresso e hà anos, as organizações feministas se mobilizam no sentido de demandar mudanças na legislação para habilitar a interrupção da gravidez. Dado o conservadorismo presente na sociedade uruguaia, é provàvel que a consulta popular solicitada por alguns senadores condene mais uma vez o aborto. Um projeto de caráter tão ambicioso e liberal dificilmente vingará em um país tradicionalista onde a idade fixada pela lei para meninas se casarem é de apenas 12 anos. A Organização das Nações Unidas chegou a emitir um parecer expressando sua preocupação com o grande numero de adolescentes grávidas e solicitou que o Uruguai modificasse a lei e elevasse a idade mínima para 18 anos. No entanto, o pedido da ONU ainda não foi atendido.

Esse quadro indica que apesar de garantir espaço para a atuação dos movimentos sociais, incentivar a organização sindical e eleger um governo de esquerda, a sociedade uruguaia ainda deixa a desejar em relação à promoção da autonomia feminina. A atualidade do pais ainda é marcada pela discriminação da mulher pela limitação de sua autonomia sobre o próprio corpo. Como Monica Xavier bem expressou, citando Albert Einstein, em seu discurso no Senado, “é mais difícil quebrar um preconceito do que um átomo”.

[1] lei de anistia que favoreceu os militares após a ditadura no país.

11:18

O dia em que Shakespeare salvou o amor.


Outro dia li uma enquete que reunia um punhado de intelectuais e propunha a seguinte pergunta: qual a maior história de amor já contada? Como em quase todas essas pesquisas, o resultado não foi grande surpresa: Romeu e Julieta, de Shakespeare.

Era muito novo quando li a peça, não lembro de passagens do texto ou coisa assim, mas acho que essa, como muitas outras obras de Shakespeare, é daquelas que todo mundo conhece detalhes, mesmo sem nunca ter aberto o livro. (principalmente graças àquela versão moderninha que foi pro cinema).

Sempre pensei que Shakespeare está pra literatura assim como os Beatles estão para o rock. Você bota um moleque de 15 anos pra ouvir Beatles e ele vai dizer: “é, legalzinho...”. Ele ouve Beatles hoje, depois de já ter consumido quinhentas bandas que não existiriam se os Beatles não tivessem gravado meia dúzia de discos que dariam origem a milhares e milhares de imitações. Não acho exagero dizer: todo mundo imita os Beatles, há mais de 30 anos. Desde então, com raras exceções, pode-se dizer que “não há nada de novo sob o sol”. Não sou beatlemaníaco, longe disso. Até porque é estupidez não admitir que essa influência dos Beatles vem se modificando, se adaptando, se desenvolvendo. A distorção, por exemplo, aquela guitarra suja do Helter Skelter, teve sua ascensão e queda, mas não tem como negar: ela nasceu com os Beatles. Enfim, muitas bandas boas, excelentes, surgiram desde a década de 70, mas isso não é excludente. Copiar os Beatles não faz da banda uma banda ruim ora, pelo contrário.

Muito bem! Com Shakespeare acontece a mesma coisa. Você vai lá e lê Hamlet, por exemplo. É inevitável! Você vira a última página e diz: “É só isso?Esse é o tal do Shakespeare que todo mundo fala? Código Da Vinci é tão bom quanto!!” Ok, peguei pesado, mas deu pra entender, não é? A mesma coisa acontece com Machado de Assis na literatura brasileira, mas isso é tema pra outro post.

Não chego ao exagero do Harold Bloom (um crítico peruado, que baba o ovo do Shakespeare até dizer chegar) de afirmar que Shakespeare inventou o ser humano como conhecemos hoje, e que devíamos cultuá-lo quase como uma religião, pois ele despertou no homem a capacidade total de auto-análise e outras coisas (se você estiver sem nada pra fazer, mas nada mesmo, pode se aventurar pelas quase mil páginas que ele escreveu pra te convencer disso: http://www.planetanews.com/produto/L/11415/shakespeare--a-invencao-do-humano-harold-bloom.html). Sem dúvida, toda a literatura ocidental teria sido muito diferente se Shakespeare não tivesse existido. Não há sentimento humano que não seja abordado na sua obra. Nada fica de fora.

Obviamente, o amor é um dos temas mais freqüentes e sem dúvida seu ponto alto, na obra de Shakespeare, está em Romeu e Julieta. Tal obra deixou se de ser apenas literatura e entrou, há muito, no imaginário da sociedade. A coisa chegou a um estágio de enraizamento cultural tão forte que conhecemos o amor contado por Shakespeare antes mesmo de experimentarmos o amor nas nossas próprias vidas.

A principal particulariedade de Romeu e Julieta, como maior obra de amor de todos os tempos, é que não apresenta final feliz. Pelo contrário: quando a tal adaptação moderninha passou no cinema, todo mundo já sabia o fim, mas, mesmo assim, era uma choradeira total.

Então, não há final feliz. Mas acontece que aquilo que poderia ser interpretado como um estímulo à desesperança, uma vitória das convenções sociais sobre o verdadeiro sentimento humano, é, na verdade a vitória do amor, a eternização do amor. Se o plano do jovem casal tivesse funcionado e ambos conseguissem fugir e tudo mais, o que haveria depois? A história ficaria inconclusa, teria que terminar com um tradicional “Felizes Para Sempre” e, com certeza, se perderia como mais uma entre milhões de histórias de amor que já foram contadas por aí.

A grande sacada de Shakespeare foi desafiar o homem aos seus limites. Revelar sua humanidade à luz do seu pior inimigo: o destino, e mostrar que havia chance de vitória. A eternidade só poderia ser alcançada pelo amor incondicional, o amor súbito, o amor que não se acaba. O amor nunca vai ser capaz de fugir da vida e, consequentemente, da morte, mas, acima de tudo, existe uma capacidade de sonhar e de se elevar além do que é sentimento. A espiritualidade plena, o caminho da salvação, a isso Shakespeare chama amor, e é a isso que ele põe em Romeu e Julieta. Ao mesmo tempo ele tenta mostrar que só no duplo, no outro, cada um se encontra. Ao depender do tempo para viver, o homem se torna vulnerável, passa a ser uma memória turva, um reflexo borrado do que um dia ele já foi. Não podemos confundir isso com desapego pela vida, pois, na verdade é exatamente o contrário, é o elevar da vida ao status supremo, de atemporalidade.

O homem é um ser solitário, abandonado, e essa é sua constante maldição. É preciso achar o caminho de volta e isso só é possível com a ajuda de uma outra alma. Essa é a conjunção de Romeu e Julieta e é isso que torna a morte deles não o fim, mas a redenção do amor. Graças a Shakespeare, ainda é possível ter esperança.

07:56

O Livro dos Profetas


Minha incompetência, alida a minha perguiça, vem sabotando qualquer tentativa própria de escrever uma resenha sobre lançamentos que considero importantes. Assim, transcrevo abaixo uma pedaço do prefácio da obra O Livro dos Profetas, escrito pelo próprio autor, um jovem carioca com o estranho nome Hugo Soto, que acho que vai dar muito o que falar. Aproveitem.



“ Quando falava para as pessoas que estava publicando um livro, os comentários eram sempre os mesmos: “Que legal! Sobre o que é?”. No começo, confesso, aproveitei a pergunta para me divertir um pouco: “é sobre uma técnica tântrica de sexo animalesco, que servia de elevação espiritual na filosofia hindu e que, por incrível que pareça, possui traços muito semelhantes com os de algumas tribos indígenas amazônicas, que copiavam o ritual de acasalamento dos tatus pardos, registrados no período colonial. Não é interessante?” “ah sim, que bacana”...!

No entanto, a insistência desse questionamento me levou a uma reflexão verdadeira sobre do que, de fato, tratava o meu livro. A resposta mais simples, sem dúvida, é: são contos sobre pessoas que acham que são profetas, ou que talvez sejam de fato, e nós não sabemos. Mas nada, na arte (e me perdoem a pretensão) é o que parece.

Em primeiro lugar, não gosto de enxergar as histórias desse livro como contos isolados. As histórias possuem traços de independência uma das outras em termos de começo, meio e fim, que facilitam a vida do leitor, mas todas possuem um elo em comum. A construção do livro e de suas histórias foi feita como uma pintura, como se contemplasse um enorme painel onde é possível enxergar de perto cada centímetro e perceber uma peculiaridade, um ciclo que se completa, ou dar cinco passos pra trás e observar o todo como um grande universo que compreende inúmeras centelhas de vida. Esse grande painel, no entanto, não deixa de estar envolto por uma certa neblina, uma certa aura que encoberta o grande tema, que é a fé. Essa tema se revela exatamente no minimalismo que permeia o tom que tentei dar a toda escrita a obra, buscando construir um enorme jardim japonês, rico em detalhes que, por sua vez, são mínimos em sua simplicidade.

Assim, não foi minha pretensão proporcionar algum tipo de revelação mística, apesar de, confesso, eu mesmo ter sofrido algumas durante o processo de criação (egoístas, sem dúvida). No entanto, esse livro pode ser considerado uma resposta íntima a uma aflição pessoal com a contemporaneidade da literatura e da arte moderna como um todo. Existe sim a intenção declarada de, nas histórias, mergulhar o mais profundamente possível no lado oculto do ser humano, mas sem glorificá-lo, sem se lambuzar nele. Essa escuridão que todo homem apresenta é exposta de forma simples e natural, tentando iluminar as partes possíveis, sem abandonar as questões racionais. Esse livro, humildemente, é meu manifesto contra a uniformização do ser humano e contra a arte sem significado. . È um elogio à tristeza essencial e à felicidade básica. È uma exposição do medo tranqüilo, de um mundo que não se acaba. È uma busca solitária de alguém que descobriu, na escrita, a forma mais humilde de falar com Deus. Por isso, se você veio aqui procurando sujeira e degradação, por favor, vá ler algum blogueiro."

09:30


O renomado lingüista Oliver Schuh veio a falecer pouco depois do lançamento de O Homem Sem Fim, livro que ele próprio considerou o mais importante de sua carreira. A empolgação do autor com sua própria obra foi tanta que o faz sair de sua notória reclusão para dar algumas entrevistas e palestras, com o intuito de divulgar e explicar esse seu último trabalho. Por isso, me eximo de escrever qualquer resenha e passo as palavras ao próprio autor, reproduzindo o trecho de uma entrevista concedida ao periódico francês Le Xis, em 29 de setembro de 1973. A tradução, feita do espanhol, é minha.

Le Xis: Após 10 anos o sr. volta a publicar um livro, acabando com um longo período de silêncio e retomando uma carreira que o sr. mesmo afirmara já ter terminado. Quais os motivos para esse retorno?

Schuh: De fato, já tinha considerado como encerrada minha carreira e já decidira abandonar de vez as grandes atividades intelectuais e me dedicar apenas aos meus netos e minha família. Acreditava, e ainda acredito de certa forma, que não tinha mais forças ou disposição para tal coisa. No entanto, continuei dando aulas na faculdade e isso acabava não me deixando desligar totalmente do meio acadêmico. Foi aí que caíram em minhas mãos os trabalhos de Hamm Junk, particularmente os dois primeiros livros, Gatos Selvagens e África. Interessei-me na hora, principalmente ao constatar que não havia praticamente nenhuma produção acadêmica sobre sua obra, uma vez que ela havia sido quase toda destruída pelo regime nazista e não ganhara traduções. Logo percebi que os exemplares que tinha eram muito raros. Decidi que valia à pena reunir um pouco das minhas últimas forças e me aventurar em mais essa empreitada. Minha esposa, obviamente, não ficou muito satisfeita, afinal, a idéia era fazer um pequeno artigo, que não me ocupasse mais de um ou dois meses trabalho, mas acabou virando um livro de 500 páginas que me consumiu dez anos.

Lê Xis: Como isso se deu? Essa transformação de artigo em livro?

Schuh: Logo que comecei a pesquisar sobre Junk soube que ele ainda havia escrito dois livros: A História do Fogo e O Abismo das Coisas. Esses dois livros eram muito diferentes do que aqueles que eu já possuía. Era uma outra sintaxe, um outro autor. Mas todos eram muito interessantes porque tinham semelhanças que eu não pude distinguir na hora. Foi buscando informações sobre a vida de Junk que pude entender, finalmente, que seus livros, ou melhor, que sua linguagem, era um verdadeiro labirinto. Era como se Junk tivesse inveja de deus e quisesse, através da linguagem, construir um novo mundo em algum lugar que nem ele mesmo sabia. Poderia ter parado a análise aí e ter feito o artigo, mas o vício de anos e anos dedicados à pesquisa me fez a abrir a porta do labirinto. E ali fiquei durante dez anos, creio.

Lê Xis: O sr acabou fazendo, pela primeira vez em sua obra, um livro que vai além da análise literária e incorpora muitos aspectos biográficos. Por que essa escolha?

Schuh: Bom você ter ressaltado que foi uma escolha, porque de fato foi assim. Cheguei a completar um manuscrito feito dentro dos padrões de todos os meus outros trabalhos, mas algo me dizia que não estava certo, que faltava alguma coisa, que aquilo poderia render muito mais. Minhas pesquisas sobre a vida de Junk haviam sido interrompidas pela escassez de material. Tudo sobre sua vida era muito irregular e não havia nada de concreto. Sabia que havia lutado na primeira guerra, que havia passado alguns períodos em sanatórios na Alemanha e na Itália, e de sua viagem à África que acabou virando uma fuga da perseguição nazista. Mas nada disso era oficial e não me sentia seguro suficiente para explorar isso no trabalho. No entanto, uma vez dentro do labirinto, vi que não conseguiria retornar até chegar ao fim. Foi então que deixei de lado a parte lingüística e comecei numa função inédita em minha carreira, a de biógrafo. Fiz inúmeras viagens, buscando fontes primárias sobre sua vida, e finalmente recolhi informações suficientemente fidedignas para completar o trabalho.

Lê Xis: Recentemente o professor Xaval publicou um pequeno estudo sobre Junk, onde contradiz alguns fatos que estão no seu trabalho...

Schuh: Não li o trabalho de Xaval, e não sei se pretendo ler. Parece que ele afirma que Junk era desconhecido dos nazistas e foi ele mesmo que queimou todas as suas obras durante uma de suas crises mentais. No entanto, prefiro confiar nas minhas fontes. Junk era judeu e como sabemos isso implicava numa série de coisas. Acho que ninguém será capaz de desvendar completamente a vida de Junk. Durante minha pesquisa, às vezes, senti como se ele tivesse feito questão de não existir, de não deixar traços de sua existência além de seus livros. Na verdade, acredito que uma de suas muitas paranóias era de que ele mesmo, cedo ou tarde, se tornaria um personagem de seus próprios livros. Sua mente chegou a um ponto onde o que ele criava na literatura se tornava real para ele. Nossas cabeças, consideradas racionais, não conseguem entender a profundidade do que isso implica. Não é como um louco que vemos num filme, normalmente ligado a alucinações. Não, Junk levou sua paranóia a um grau que os próprios relatórios dos hospitais onde ele passou afirmam ser inédito até então. No entanto, temos a sorte de ter isso documentado de uma forma muito menos hermética do que imaginaríamos. Junk tinha uma mente doentia, mas que funcionava quando se tratava de linguagem e foi nisso que eu foquei minha obra. Claro que acho importante, como disse, sabermos sua biografia, mas não sua biografia factual, pois essa é impossível de ser refeita de forma objetiva. O que interessa em Junk, para mim, é a biografia da sua loucura, da sua dor, e de como ele jogou isso tudo na sua linguagem e conseguiu fazer arte.

Lê Xis: E por que o título Homem se Fim?

Schuh: Existe uma frase de Junk, na verdade está em um de seus poemas, que se espalham por toda sua obra, onde ele diz “O que será de nós, homens eternos?” Tive muitos problemas na tradução dessa frase, mas preferi interpretar que a expressão “homens eternos” se refere a ele mesmo. Mas isso tem uma explicação: duas características marcantes que identifiquei na obra de Junk foram a pluralidade de escritores e unicidade do tempo. A pluralidade à que me refiro vai além do narrador, não é uma mudança apenas na voz narrativa. Junk parecia escrever como muitas pessoas ao mesmo tempo. Ele conseguia usar características diferentes em diversas vozes, e confesso que me diverti muito recolhendo e montando esse quebra-cabeça. Pode parecer exagerado, mas a análise a ser feita é muito semelhante a que fazemos com Homero quando perguntamos se ele realmente existiu ou se suas obras não são, na verdade, uma coletânea de história populares reunidas num contexto. A diferença é que Homero viveu a milhares de anos atrás e Junk há poucas décadas. Quanto à unicidade de tempo, parte da percepção de que muitos personagens possuem uma noção completamente inversa da idéias de início e fim. O próprio Junk sofria com distorções semelhantes e a eternidade acaba sendo um tema muito explorado subjetivamente nos seus livros. Acho que ninguém na literatura ocidental conseguiu ir tão fundo na questão metafísica do tempo. Unindo então essas duas características eu percebi que Junk, ao escrever, não se via como um narrador ou um escritor. A linguagem para ele era algo místico, não exercia a simples função de comunicação ou organização como possui para a maioria de nós. A linguagem para ele era como o tempo, e é daí que vem o título. Escrever fazia Junk existir e tenho certeza de que, se ele não tivesse escrito, não teria existido.

12:10

O labirinto peruano e o fio de Ariadne

Estou colando a artigo que o Luiz, companheido do OPSA, publicou no Valor Econômico.
O labirinto peruano e o fio de Ariadne
Por Luiz Antônio Gusmão
24/09/2007

O desempenho dos governos de esquerda que ascenderam ao poder na América Latina nos últimos anos tem chamado atenção da imprensa devido, em boa parte, às polêmicas ações de líderes nacionalistas como Evo Morales e Hugo Chávez. Mas e quanto a países que, como Peru, México e Colômbia, deram prosseguimento a políticas econômicas ortodoxas e têm pautado suas opções de política externa pela aproximação com os EUA?

Para além das estratégias de inserção na economia internacional e dos esforços em estabelecer uma economia estável e dinâmica, cumpre indagar quais são os dilemas sociais por que passa um país que não optou por reverter as reformas neoliberais implementadas durante a década de 90.

A participação do Peru na última reunião do foro de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec), em Sidnei, Austrália, oferece uma boa oportunidade para refletir sobre essas questões.

Com o objetivo de avançar propostas de liberalização comercial e integração econômica na região, o foro da Apec reuniu, durante os dias 8 e 9 de setembro, ministros e chefes de Estado dos 21 países que compõem a organização, dentre os quais figuram China, EUA e Rússia. Em busca da diversificação de parcerias econômicas, o presidente do Peru, Alan García, cumpriu intensa agenda de reuniões com chefes de governo da Coréia do Sul, Cingapura, Japão e Austrália. O Peru visa a firmar entendimentos para fechar acordos bilaterais e encorajar investimentos e aumentar exportações. Com a China, por exemplo, iniciará negociações para concluir um acordo de livre comércio até novembro de 2008.

Nesse contexto, García anunciou a formação de um novo bloco político-econômico - o Arco do Pacífico. Com o objetivo de consolidar uma aliança entre países da costa do Oceano Pacífico, a iniciativa, que de início congregaria Chile, Colômbia, México e Panamá, já conta com a adesão do Canadá. Segundo García, o Arco se contrapõe às economias protecionistas da região, que qualificou de "primitivas" em referência à Bolívia, Equador e Venezuela.
O Peru se mobiliza ainda para firmar tratados de livre comércio (TLCs) com os membros da Associação Européia de Livre Comércio (Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein) e, no âmbito da Comunidade Andina (CAN), com a União Européia. No que se refere à promoção e proteção de investimentos externos, possui 31 acordos bilaterais com países da Costa do Pacífico, da Ásia e da Europa.
Sua iniciativa mais importante foi a assinatura de um TLC com os EUA em abril de 2006, durante o governo de Alejandro Toledo (2001-2006). Agora García se esforça para promover a ratificação pelo Congresso norte-americano. Para atender às condições exigidas pelos legisladores do Partido Democrata, o governo deverá modificar as legislações ambiental, trabalhista e de propriedade intelectual.
Governo demonstra resistência ao diálogo e segue abusando das declarações de emergência que suspendem direitos civis, o que compromete o estado de direito
Peru é um caso de sucesso de estabilidade econômica na região. Apresenta indicadores consistentes de crescimento econômico há mais de 70 meses. No primeiro semestre deste ano, o PIB aumentou 7,8%, principalmente devido ao crescimento da demanda interna e dos setores de construção, manufatura, serviços e comércio. Embora a meta projetada de inflação (2% ao ano) tenha sido ultrapassada, a carga tributária não chega a 15% e a arrecadação aumentou 16,4%, com a maior atividade econômica.

O desempenho econômico e o engajamento em iniciativas comerciais têm rendido boa imagem ao país como destino de investimentos externos e uma avaliação favorável do ambiente de negócios. Contudo, no âmbito doméstico, o país continua a sofrer de instabilidade política crônica.
Em julho, García completou um ano de governo, exibindo seu mais baixo índice de popularidade (quase 41% de aprovação), após meses de uma trajetória declinante que só agora começou a reverter. Essa vertiginosa queda deve-se ao descontentamento de diversos setores que têm se manifestado em greves, marchas e paralisações regionais disseminadas por todo o país. Segundo a Defensoria do Povo, que acompanha essas manifestações, entre janeiro e julho, os conflitos sociais ativos tinham aumentado de 12 para 35. A resposta que o governo vem dando não tem sido eficaz.
Tome-se como exemplo a última greve geral de professores em julho, aos quais se juntou a Confederação Nacional de Trabalhadores do Peru (CGTP), maior central sindical do país. Manifestações no interior e nas principais capitais em protesto contra a aprovação de uma proposta de lei para regulamentar a promoção na carreira docente resultaram em confrontos violentos com forças policiais. A greve foi declarada ilegal e o governo recrudesceu medidas de repressão, lançando um decreto em que autorizava a intervenção das Forças Armadas para garantir a ordem pública.
Em paralisações regionais, é comum que autoridades locais se associem a pequenos agricultores e cocaleiros para agregar à pauta desses grupos demandas por recursos para investimento em obras e serviços públicos. Com freqüência, ocorrem manifestações violentas e dura repressão policial. Em maio, uma atrapalhada tentativa de solucionar a tensa paralisação dos cocaleiros de La Convención (Cuzco) provocou a renúncia do ministro da Agricultura.
O desempenho econômico e o engajamento em iniciativas comerciais têm rendido boa imagem ao país como destino de investimentos externos e uma avaliação favorável do ambiente de negócios. Contudo, no âmbito doméstico, o país continua a sofrer de instabilidade política crônica.

Esses exemplos mostram que a instabilidade política do Peru não se deve mais a crises econômicas. Agora, ela é provocada pela incapacidade do governo em oferecer soluções eficazes a conflitos sociais recorrentes. O governo demonstra grande resistência ao diálogo e abusa das declarações de emergência que suspendem direitos civis, o que compromete seriamente a vigência do estado de direito. Atualmente, a população que vive em distritos e províncias sob estado de exceção chega a 530 mil.
Estabilização e inserção na economia internacional são necessárias, mas por si sós não farão do Peru um Estado democrático moderno. Com elas o país conseguiu seu fio de Ariadne. A saída do labirinto peruano depende da adoção firme de medidas para melhorar a capacidade gerencial do Estado, promover o gasto público eficiente, difundir o crescimento econômico, incorporar os segmentos sociais mais pobres ao mercado formal e oferecer condições propícias ao pleno desenvolvimento da sociedade civil.


Luiz Antônio Gusmão é pesquisador do OPSA. lagusmao@iuperj.br

23:13

Você é um bom amigo?

Reza a lenda que dias depois de se "iluminar", Siddartha Gautama pernoitou para se alimentar e matar a sede. Na fazenda onde parou, teve uma rápida mas frutífera conversa com um agricultor e que isso teria popularizado a doutrina budista na Índia.

* * *
(...)
- Quer dizer que o senhor descobriu a verdade suprema, atingiu um estado de elevação? -- indaga o fazendeiro enquanto revolve a terra com o arado.


- Sim -- responde simploriamente Siddartha, sem qualquer presunção ou orgulho na voz -- Gostaria que você e todas as pessoas também vissem o que vi, sentissem o que senti.


- Pois então guie-me, me mostre como fez. -- rebate o homem, sem dar muito crédito ou mesmo relevar o feito do Buda vivo.


- Talvez se eu passasse trinta anos ensinando-lhe o que é a atitude reta, o desapego material e outras práticas necessárias para reconhecer o que senti, o senhor se sentiria sábio, mas o que você aprenderia de verdade? -- rebate Siddartha.


- Não entendi, o que o senhor quis dizer com isso? -- pergunta o agricultor largando o arado e virando-se na direção do novo mentor.


- É uma estrada árdua, percorrida nas entranhas da mente e nos confins da alma. Cada um deve trilhar a própria rota; não há atalhos ou pontes, apenas a vastidão do eu -- profere o iluminado, enquanto seu interlocutor coça o alto da cabeça e olha em volta desnorteado, como se duvidadesse da própria existência.


- Vejo que você deu o primeiro passo, é normal ter muitas dúvidas e poucas certezas no início -- diz Siddartha ajeitando a túnica e retomando a peregrinação.


- Espere, mestre -- brada o pupilo -- porque me deixas logo agora?


- Porque não posso lhe ensinar mais nada. Atingir o Nirvana é como uma relação ideal de amizade: quando ajuda um pouco, fortalece; quando ajuda muito, enfraquece... -- entoa o Buda, enquanto desaparece na bruma que rodeia a estrada.

* * *

Engraçado como o ser humano protege os mais próximos, com mais ou menos ênfase. Não é questão de preferência ou noção de comunidade, simplesmente um instinto de sobrevivência da espécie. Mas mesmo assim, isso pode prejudicar tanto ou mais do que as situações desconfortáveis da vida. Estar sob pressão em alguns momentos pode ser o melhor fator de evolução do caráter que alguém pode ter.

Da próxima vez que alguém brigar com o namorado(a), tirar uma nota baixa, perder o emprego, se acidentar ou machucar outrem, etc., ofereça sim o ombro amigo. Enxugue suas lágrimas, console, abrace, beije, mas diga em leve tom de confronto: você de alguma forma é culpado(a) pelo que aconteceu? Você teve a chance de evitar isso? Agiu quando necessário? Seu(Sua) amigo(a) vai estar respondendo para si mesmo(a) a resposta mais sincera que pode haver... E exatamente a que precisa.

Em breve algo menos transcendental. Até.

18:11

divino (parte 1)

Divino queria ser deus. Assim, com minúsculas. Nunca me disse o porquê.

Nuca falou de outra coisa, na verdade. Todo dia era isso. Todo dia ele aparecia na padaria, pedia uma média, e começava com seus planos de ser deus. Às vezes perguntava sobre o Fluminense.

Achavam o Divino louco, mas eu gostava dele.

Tinha dias que eu me atrasava para o trabalho, distraído com os planos de divino. Filósofo amador que eu era, sempre dava conversa. Não acreditava em Deus, mas de vez em quando acreditava no divino.

Não sei o que ele fazia, digo, qual sua profissão . Só o via na padaria, de manhã, de segunda à sexta. Chegava e ele já estava lá, e lá permanecia quando eu acabava de comer e seguia rumo ao centro da cidade. Era magro, o divino.

Um dia apareceu um pouco tarde, mais eufórico do que o normal. Quase lá, ele dizia, e se calava. Parecia ter forte dores, os olhos se contraíam de vez em quando.Só bebeu água naquele dia e nem se importou quando disseram que o Fluminense havia vencido o Botafogo. Que bom, disse.

Parecia melhor na manhã seguinte, mas com certeza não havia dormido. Divino, você parece cansado, não dorme há quanto tempo? Não posso dormir, preciso cuidar deles, era sua resposta. Todos riam, eu me preocupava.

Aos poucos foi definhando. Sua magreza foi chegando aos limites da carne. Suas olheiras eram duas violetas murchas sob seus olhos. Não penteava o cabelo e não mudava de roupa, mas pelo menos não fedia. Só tomava água agora, nem uma garrafa inteira. Ia morrer, o divino.

Nessa época, não respondia às minhas perguntas. Olhava-me parecendo sempre não entender. Botava a mão nos cabelos desgrenhados e ronronava que faltava alguma coisa, alguma coisa.

Um dia divino não apareceu na padaria, nem no dia seguinte, nem no outro. Morrera? Era cedo demais pra dizer, dizia o balconista, mas não seria nenhuma surpresa. Vai ver alguém o levou pro sanatório, outros falavam. De segunda à sexta, nem sinal de Divino.
Sábado de manhã resolvi dar uma passada onde certa vez ele me disse que morava. Era uma vila, dois quarteirões da padaria, para um lado onde eu nunca tinha ido, novo no bairro que era. Mesmo assim, quando vi o rabecão dos bombeiros, mesmo de longe, suspeitei que era ali.
(continua..)
Fábio

05:13

Os ianques somos nós

RUBENS RICUPERO

A radicalização na América do Sul fez o Brasil despertar para a verdade de que, em alguns países, os ianques somos nós

O PRESIDENTE do Equador anuncia renegociação com a Petrobras e seus auxiliares insinuam que o contrato pode ser anulado. Será fato isolado, explicável pelas circunstâncias? Ou faz parte de padrão que se repete em todos os movimentos radicais no poder na América do Sul?
A tendência irrompeu com estrondo em 1º de maio de 2006, com o anúncio da nacionalização do gás e das refinarias da Petrobras na Bolívia. Desde então, confirmados ou não, os sustos originados no país vizinho nunca se interromperam: expulsão de siderúrgica privada, anulação de contrato com construtora, ameaças a fazendeiros brasileiros, alusões levianas ao passado do Acre, resistência à construção de hidrelétricas no rio Madeira, queixas contra o tratamento a imigrantes bolivianos, multas milionárias à Petrobras por delitos negados pela companhia.
A lista é exemplificativa apenas e não pretende negar que o governo de La Paz possa ter razão em algumas dessas situações. A siderúrgica, por exemplo, transferiu-se para Mato Grosso do Sul, onde estaria devastando a mata nativa para fazer carvão. O crime ambiental era justamente o que censuravam à empresa as autoridades bolivianas, mais zelosas que as nossas do ambiente. No Paraguai, não só o favorito nas pesquisas eleitorais mas amplos setores da opinião querem subverter as bases de Itaipu, projeto com 30 anos de vida. Curioso é que, no mais radical dos sul-americanos, a Venezuela, tenha-se evitado até agora o choque direto com interesses brasileiros, embora sejam notórias as dificuldades entre a petrolífera local, a PDVSA, e a Petrobras.
O padrão aqui é mais indireto e sub-reptício. À medida que esfria o relacionamento entre Chávez e Lula, tornando raras as visitas e conversas, a ação do venezuelano se faz mais incômoda no entorno sensível do Brasil. Municípios e até quartéis da Bolívia e do Paraguai de repente se vêm aquinhoados por cheques de petrodólares bolivarianos.
Dir-se-á que não há nada de mal, não passando de ajuda desinteressada, busca natural de prestígio e influência. Mas até quartéis paraguaios? Não haveria prioridades mais óbvias ou menos provocativas? A radicalização da política sul-americana fez o Brasil despertar para verdade desagradável: em alguns países, os ianques somos nós. A presença brasileira quase sempre dependeu da ação do Estado, direta (Itaipu, Petrobras) ou indireta (construtoras financiadas pelo BNDES, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).
No momento em que líderes radicais reescrevem as constituições e redefinem a ordem socioeconômica, o Brasil descobre que faz parte do status quo em contestação. A mudança pode vir em nome das massas excluídas. Nem por isso é menos desconfortável para nós.
O governo brasileiro não é culpado das tendências da história. Salvo por obra de alguns aprendizes de feiticeiro em diplomacia: favoreceram a subida de Chávez e Morales e estimularam novas agressões pela incapacidade de defender os direitos nacionais. As conseqüências são de duas ordens. De um lado, desapareceram as condições para projetos de integração energética e até os existentes correm perigo. Do outro, região vital, a única de nossa influência direta, virou campo minado. A diplomacia na região não funciona e faz água por todo lado. O Itamaraty conseguirá mudá-la quando ela continua dominada pelos aprendizes de feiticeiro?

RUBENS RICUPERO, 70, diretor da Faculdade de Economia da Faap e do Instituto Fernand Braudel de São Paulo, foi secretário-geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) e ministro da Fazenda (governo Itamar Franco). Escreve quinzenalmente, aos domingos, nesta coluna.

07:57

existe forma mais eficiente para acabar com um debate do que propor um debate?

Quero compartilhar o orgulho dos meus colegas e do debate político irado que está rolando na minha instituição de ensino. Vou colar aqui embaixo.

Como não pedi autorização pra ninguém, omitirei os nomes.
Será que isso basta pra não me processarem? Tenho trauminha de processo.
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De: A.
Enviada: qui 13/9/2007 12:04
Para: Professor 1, Professor 2, Lista de email da Instituição de Ensino
Assunto: Protesto


Prezados cidadãos,

está sendo organizado um ato público no sábado, na Praça dos Três Poderes, com a presença de estudantes, entidades civis, e vários representantes da sociedade civil organizada, a fim de simbolizar o desprezo pelo Congresso Nacional, sua ilegitimidade e um Tribunal Popular para julgá-lo, segundo a soberania popular. A proposta é a concentração às 10:00h.
Para tanto será organizada uma reunião hoje, às 13:30 na Candido Mendes, e um convocatória popular amanhã, às 14:00h, no Beco do Lume, com panfletagem, com a presença da imprensa para divulgar a mobilização popular. Quem puder participe hoje da reunião, da convocatória amanha.

Por um PROTESTO ABERTO, JULGAMENTO ABERTO e AS CARAS FECHADAS.DIVULGUE. COMPAREÇA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! SERÁ NO SÁBADO, UM SÁBADO DIFERENTE!!!!


Ligar para XXXXXXXXXXX para confirmação.
Saudações democráticas.
B.
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De: C.
Enviada: qui 13/9/2007 12:49
Para: A.; Lista de emails da Instituição de Ensino
Assunto: RES: Protesto

Prezado A., antes de vc embarcar nesse clima de comoção ética e moral para "simbolizar o desprezo pelo Congresso Nacional", vamos identificar os atores dessa contenda e entender os interesses em jogo. O que vc acha? Envio a entrevista abaixo para começar.

abs,
C.
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(PS da Pati: colei a entrevista, como anexo 1, no fim do post)


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De: F.
Enviada: qui 13/9/2007 14:26
Para: C., A.; Lista de emails da Instituição de Ensino
Assunto: RES: Protesto

Caro C.,
para defender o governo não precisa defender seus aliados oligarcas e corruptos.Não entro em qualquer manifestação conservadora do estilo "Cansei" ou em tentativas de deslegitimar o Congresso, mas apóio (claro!) a cassação do Renan.
Apóio igualmente e com a maior alegria qualquer atividade que discuta a democratização da comunicação ou que investigue as atividades dos grandes órgãos de imprensa. Por exemplo, essa CPI da Abril. No entanto, apesar da manipulação da mídia, não precisamos fechar os olhos para a existência de corrupção e compra de votos no governo e para seu crescente conservadorismo.
Abraços,

F.
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De: A.
Enviada: sex 14/09/07 10:19
Para: F.; C.; Lista de emails da Instituição de Ensino
Assunto: RES: Protesto (resposta do Augusto aos colegas)

Prezado C. e demais colegas que comentaram minha mensagem,para falar a verdade, repassei a mensagem ontem meio sem convicção. Realmente não acredito que coisas deste tipo sejam relevantes... ou melhor, são relevantes apenas como começo de algo qualitativamente diferente: a coagulação do mal estar e a passagem da indignação moral à prática intervencionista.

É lógico que a bandeira da ética levantada pela imprensa e por este tipo de mobilização de classe média é parcial e mesmo melancólica: é como se estivéssemos pedindo para ser dominados com um mínimo de decência.

No entanto, é preciso lembrar o momento também melancólico que a dita "sociedade civil" (detesto este termo) vive hoje assim como os grandes acadêmicos brasileiros.Explico-me: eu era criança quando um aumento de passagem de ônibus resultou num quebra-quebra terrível em plena Av. Rio Branco. Eu e meu primo na época aproveitamos o ensejo (sem saber nada do que acontecia) e pegamos umas casquinhas de sorvete do MacDonald da Rio Branco (cujas vidraças foram quebradas). Eu chamo isso de coagulação do mal estar e passagem da indignação moral à prática intervencionista. É disso que estou falando e é isso que me interessa como fenômeno social. O resto é o resto! E acredito piamente que a indignação popular possa se solidificar através de manifestações "bobinhas" como essa.

Quanto aos acadêmicos, é melancólica a maneira parcimoniosa como eles comentam o terrível pacto estabelecido entre Governo, elites e "povão". Veja bem, assim como eu detesto o termo "sociedade civil, não tenho problema algum com o termo "povão" (na versão brizolista do termo). No entanto, é óbvio que Lula (como diz a célebre frase de Marx sobre Luís Bonaparte) está lidando vulgarmente com a vulgaridade das massas - em busca de uma vaguinha no Proune, um bolsa miséria ou mesmo uma cesta básica. Então, não vejo problema algum que a imprensa também lide vulgarmente com a vulgaridade das massas em busca do "sangue dos culpados": isso pode ser usado à favor a a coagulação do mal estar e à passagem da indignação moral à prática intervencionista.
Abraços
A.
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Outro PS da Pati. Eu achei muito feio da parte do sr. A. ter roubado sorvete.
As crianças são os seres mais cruéis do mundo.

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De: V.
Enviada: sex 14/9/2007 10:39
Para: A.;F.; C.; Lista de emails da Instituição de Ensino
Assunto: RES: Protesto (resposta do Augusto aos colegas)

Prezadas(os) colegas,
Proponho um debate acerca do tema em questão via Fórum dos Alunos. Como liberal político acredito que o diálogo e debate sejam propedeuticos em si. Não obstante o fato de ser igualmente entusiasta dos debates virtuais, não vejo qualquer problema em nos reunir numa tarde agradável de setembro com o objetivo de nos auto-esclarecermos.
Interessados favor enviar mensagem aos coordenadores do Fórum dos Alunos.
Com sinceras admiraçòes,

V.
Doutorando Ciência Política
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PS da Pati de novo:
E os emails pararam de chegar à minha caixa de mensagens...
existe forma mais eficiente para acabar com um debate do que propor um debate?
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07:46

ANEXO 1

12/09/2007 12:25h

A IMPRENSA NO BRASIL VIROU PARTIDO POLÍTICO

Entrevista com o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos ao blog de Paulo H. Amorim.

Quando se fala em mídia como o "Quarto Poder", qual é a primeira coisa que lhe vem à cabeça?
A primeira coisa que me vem à cabeça: não é uma particularidade nacional. Porque, na verdade, na teoria democrática clássica, não havia previsão para o aparecimento de um lugar institucional com poder político relevante. Então, você tinha o Parlamento e você tinha o Executivo. O Parlamento podia ser dividido em duas Casas, como quando tem Senado e Câmara, ou ser unicameral. O Executivo podia ser ou de gabinete ou uma Presidência da República. Mais o Judiciário, quando árbitro dos conflitos eventualmente surgidos entre as duas estâncias anteriores. Mas não havia, não há previsão em nenhuma teoria, de algo, de uma instituição que veio a ser a imprensa. Como também, aliás, não havia para as Forças Armadas. Não se concebia que as Forças Armadas viessem a ser um ator político relevante.
Mas, sobretudo, a imprensa. Porque, de certo modo, ela encarnaria não um poder, mas a vigilância do poder. Era a garantia do direito de opinião, a garantia do direito de expressão de idéias e a garantia de vigilância dos poderes constituídos. Então, era muito mais um órgão defensivo e reflexivo do que interferente. A partir do momento em que você tem uma sociedade de massa, ou seja, o tamanho do eleitorado traz novidades para o funcionamento da democracia - ninguém jamais imaginou eleitorado de mais de dez milhões de pessoas -, isso também trouxe uma modificação do papel das instituições. Em princípio, elas interagem com estas massas que têm peso.
O resultado foi que aquelas instituições que, de certa maneira, condicionam e influenciam a formação de opinião das massas, fazendo com que a disposição delas se altere ou se incline numa direção ou em outra, aquelas instituições passaram a ter um papel de importância.
A imprensa, os órgãos de comunicação e informação, na medida em que condicionavam e orientavam a inclinação desta população, e o peso delas se tornando cada vez maior dentro do funcionamento das democracias, fizeram com que esta instituição, a imprensa, passasse a ter um papel híbrido: de um lado, refletia o real; e de outro, ao mesmo tempo, interferia, interfere e condiciona as alternativas deste real.
É necessário deixar claro que isso não aconteceu por nenhuma conspiração, nenhum plano previamente estipulado. Foi assim, numa democracia de massa, com o problema do populismo, por exemplo. Este novo papel desempenhado pela imprensa, envolvida no seu papel constitucional, teórico, de expressão de opinião, controle e vigilância da ação dos poderes públicos, e, ao mesmo tempo, cobrar responsabilidade desta instituição pública, tem que ter norma a que deva obedecer, tem que ter instâncias de julgamento - com o qualquer agente público. E não se trata de julgamento estritamente policial, trata-se de julgamento político. Não existe consenso sobre como conciliar esta responsabilidade, que deve ser cobrada neste ato público, com o que é fundamental também numa democracia - que é o respeito à liberdade de imprensa, à liberdade de opinião.
Quer dizer, a liberdade de expressão de opinião é crucial e essencial na definição do que é democracia. Quando esta expressão de opinião pode de alguma maneira trabalhar contra a democracia, cria um problema. É o mesmo problema que se coloca em relação a partidos revolucionários. Democraticamente, é necessário que se permita a organização em partidos as diversas opiniões, correntes. Agora, em que medida este direito deve ser ou pode ser assegurado a partidos cujo objetivo é fazer com que desapareçam as instituições que permitam que ele exista - isso é uma complicação numa teoria democrática. Então, esse é um problema contemporâneo da imprensa, não é só no Brasil: como conciliar os dois papéis que a imprensa tem. Primeiro, como instituição da sociedade privada de exprimir o que se passa no mundo e a opinião da população. Por outro lado, na medida em que se comporta como ator político, ter instâncias que cobrem responsabilidade política dessa instituição.
Este problema já foi resolvido em algum país ?
Institucionalmente, não. O que você encontra é uma evolução da cultura política e também do poder da sociedade civil, do poder privado. Na verdade, até agora não se criaram instituições consensuais para a solução deste problema. Tem sido resolvido pela idéia gradativa de redução da importância da imprensa, como condicionador das atitudes da população. Isso é o que tem acontecido nas sociedades ricas, porque dependem cada vez menos das políticas de governo. Porque são ricas, porque a sociedade é abundante, então, a opinião que os jornais e as televisões começam a distribuir - dizer que o governo é isso, que o governo é aquilo, isso não tem conseqüência sobre a vida privada dos cidadãos. E por isso mesmo a opinião da imprensa deixa de ser relevante. Então, o que tem acontecido nos países mais estabilizados, não é que se tenham criado instituições de controle ou de chamada à responsabilidade, mas que os jornais e as televisões vêm perdendo importância.
Especificamente no Brasil, como é que esse cenário se desenvolveu? Quem se aproveitou?
Quem se aproveitou eu não sei. No Brasil, você tem uma circunstância peculiar que é o fato de que as empresas jornalísticas têm os interesses empresariais também fora do circuito de informação. Então, isso faz com que as opiniões da imprensa não se apoiem apenas, como se diz, pelos preceitos de seus comentários, mas pelo interesse de matérias econômicas também, que são defendidos sob a desculpa, o contexto de que está sendo defendido o interesse da população. Então, este aspecto é o aspecto que não se encontra muito nos países desenvolvidos: a distância entre empresas, empresas jornalísticas que têm interesses comercias e empresariais, além dos interesses jornalísticos.
E isso cria uma situação muito particular, porque, afinal de contas, os interesses econômicos e empresariais de proprietários de jornais deviam ter suas instâncias de defesa e não utilizar a imprensa para isso. Mas, esta é a peculiaridade do Brasil. E é isso o que se mistura com freqüência no Brasil: as campanhas políticas desenvolvidas pela imprensa, sob o pretexto de que são questões que se quer públicas, mas, na verdade, são interesses privados dos próprios empresários jornalísticos.
Paulo Henrique Amorim costuma dizer que em nenhuma democracia importante do mundo os jornais e uma só emissora de TV têm a importância política que têm no Brasil.Quer dizer, só em países mais ou menos parecidos com o Brasil. Fora países, digamos, com renda per capita inferior a 30 mil dólares, fora países desta faixa, isso não existe. Ou seja, em todos os países (com renda superior a 30 mil dólares), a imprensa não tem esta capacidade de criar crises políticas, como tem nos países da América Latina.

Aqui no Brasil, com esta importância política que os jornais e a Globo têm, como é que eles exercem este poder?
O modo tradicional de exercer o poder em países como o Brasil, e isso tem acontecido historicamente com freqüência, é a capacidade que a imprensa tem de mexer na estabilidade, ou seja, de criar crises, cuja origem é simplesmente uma mobilização do condicionamento da opinião pública. O que a imprensa nos países da América Latina, e particularmente no Brasil, tem é a capacidade de criar instabilidades. É a capacidade que a imprensa tem de criar movimentação popular, de criar atitudes, opiniões, independentemente do que está acontecendo na realidade. Isso é próprio de países latino-americanos, mas particularmente no Brasil, em que as empresas jornalísticas têm poder econômico e capacidade e disposição para a intervenção política. Então, a arma da imprensa no Brasil, o seu recurso diante dos governos: esta capacidade de criar instabilidade política.
Como é que o senhor vê o papel da mídia no governo Lula ?
Tem dois aspectos. O primeiro aspecto é fato de o governo Lula ser um governo inédito no Brasil. É realmente um governo cuja composição de classe, cuja composição social é diferente de todos os governos até agora. Isso não foi e dificilmente será bem digerido. Agora, em acréscimo a isso é que, ao contrário do que se teria esperado ou gostariam que acontecesse, este é um governo que até agora tem se mantido fiel à sua orientação original, independentemente das discussões internas do grupo do PT. A verdade é que as políticas do governo têm prioridades óbvias, que são as classes subalternas. Isso é algo que irrita e, conseqüentemente, faz com que aumente a disposição da imprensa para acentuar tudo aquilo que venha a dificultar e comprometer o desempenho do governo.

Em que outros episódios da Historia do Brasil a imprensa usou a arma da instabilidade ?
No Brasil, tivemos em 1954, com a crise que resultou no suicídio de Vargas, em que tudo foi utilizado. Documentos falsos que foram apresentados como verdadeiros, testemunhos de estrangeiros que seriam associados a confusões internas...
Houve em 1955, na tentativa de impedir a posse de Juscelino Kubitschek. E em 1961, na crise de Jânio, na sucessão do Jânio. E em 1964.
Depois, durante o tempo do período autoritário, evidentemente, houve uma atuação explícita da imprensa. Não se falava a favor, mas também não se desafiava. Com o retorno da democracia, a imprensa interveio outra vez, na sucessão de Sarney, com todas as declarações e reportagens absolutamente falsas em relação ao candidato das forças populares, que já era Lula. Isso se repetiu nas duas eleições de Fernando Henrique, mas mais moderadamente. Foi bastante incisiva durante a primeira campanha. Na segunda, a imprensa se comportou razoavelmente. Houve certas referências, mas nada escabroso.
Mas, os dois últimos anos foram inacreditáveis em matéria de criação de fatos sobre nada: foi inacreditável. Para 50 anos de vida política, é uma participação à altura dos partidos políticos e dos militares. Quer dizer, fazem parte da política brasileira os partidos, as Forças Armadas e a imprensa.
Destes episódios que o senhor listou qual o senhor acha que é o mais emblemático ?
Eu acho que dois episódios. Primeiro, a tentativa de impedir a posse de Juscelino Kubitschek. Por quê? Porque Juscelino não era intérprete ou representante de uma classe ascendente. Ele pertencia à elite política. Era um homem do PSD - Partido Social Democrata. Juscelino era um modernizador. Portanto, a tentativa de impedir a sua posse mostra o radicalismo e a intolerância das classes conservadoras brasileiras. Quer dizer, naquele momento, não aceitava nem mesmo um dos seus membros, porque era um modernizador. Este episódio é bem emblemático. Não houve nada de dramático, de trágico ou suicídio, mas é um exemplo de até onde pode chegar a intolerância do conservadorismo brasileiro. É impressionante. Esse foi pra mim um episódio que define muito bem até onde o conservadorismo é capaz de violar os escrúpulos democráticos.
E o segundo ?
É agora com Lula, porque a posse de Lula realmente revela uma nova etapa histórica no país. E revela o quanto o conservadorismo se dispõe a comprometer o futuro do país, pelo fato de o governo estar sendo exercido pelo intérprete de uma nova composição social. Isto é, há um grupo parlamentar e há grupos privados - e neles se inclui a imprensa - dificultando a implementação de políticas que são reconhecidamente benéficas ao país, porque estão sendo formuladas e implementadas por um governo intérprete das classes populares. Isso é impressionante. Quer dizer, no fundo, aquilo que os conservadores dizem que as forças populares - segundo eles, para a esquerda, quanto pior melhor -, na prática, quem pratica o quanto pior melhor são os conservadores.
Por que, na opinião do senhor, a mídia se considera inatacável, indestrutível ?
Ela se considera indestrutível porque ela tem razões para isso. Ou seja, uma das instituições que até agora vem resistindo à democratização, à republicanização do país é a imprensa. Um país moderno e democrático é um país em que não existe instituição ou pessoa com privilégio de direitos, pessoa que não seja submetida à lei. Na medida em que a democracia se implanta nos países, se reduz o número de instituições e grupos sociais que não se submete à lei. Todo mundo fica, de fato, igual diante da lei. Isso vem acontecendo gradativamente, vagarosamente, mas inapelavelmente no Brasil. Na realidade, nós temos até que as Forças Armadas hoje, no Brasil, estão mais democraticamente enquadradas, mais juridicamente contidas do que a imprensa. Hoje, é muito mais difícil para um representante das Forças Armadas violar impunemente as leis do que a imprensa.

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Minha vida é um constante esforço de adaptação. A insegurança sobre quem eu sou tornou a adaptação diária, quanto as minhas próprias dimensões e possibilidades, um dos meus grandes esforços enquanto ser humano.