14:34


Porque tantas vezes tentamos travar diálogos impossíveis...

14:17

MAS TÁ CHATO ISSO AQUI HEIN...

11:32

Pai!

Afasta de mim esse cálice, Pai! Afasta de mim esse cálice, Pai! Afasta de mim esse cálice, De vinho tinto de sangue...

Como beber Dessa bebida amarga. Tragar a dor, Engolir a labuta. Mesmo calada a boca Resta o peito. Silêncio na cidade Não se escuta. De que me vale Ser filho da santa, Melhor seria Ser filho da outra. Outra realidade Menos morta. Tanta mentira, Tanta força bruta...

Quero lançar Um grito desumano. Que é uma maneira De ser escutado. Esse silêncio todo Me atordoa. Atordoado, Eu permaneço atento, Na arquibancada Prá a qualquer momento, Ver emergir O monstro da lagoa...

Como é difícil Pai, abrir a porta...Essa palavra Presa na garganta...De que adianta Ter boa vontade Mesmo calado o peito Resta a cuca...

Talvez o mundo Não seja pequeno. Nem seja a vida Um fato consumado.Quero inventar O meu próprio pecado...

Quero perder de vez Tua cabeça. Minha cabeça Perder teu juízo...

Pai! Afasta de mim esse cálice, Pai! Afasta de mim esse cálice, Pai! Afasta de mim esse cálice, De vinho tinto de sangue...

Cálice - Chico Buarque

15:40

...


Decepcionada. Frustada. Triste. Cansada do mundo. Precisando de gorda brasiliense.

10:30

Livros...


"Amaranta pelo contrário, cuja dureza do coração a espantava, cuja concentrada amargura a amargurava, foi revelada no último exame como a mulher mais terna que jamais pudesse haver existido e compreendeu com uma penosa clarividência que as injustas torturas a que submetera Pietro Crespi não eram ditadas por uma vontade de vingança, como todo mundo pensava, nem o lento martírio com que frustrara a vida do Coronel Gerineldo Márquez tinha sido determinado pelo fel ruim de sua amargura, como todo mundo pensava, mas sim que ambas as ações tinham sido uma luta de morte entre um amor sem medidas e uma covardia invencível, e triunfara finalmente o medo irracional que Amaranta sempre tivera de seu próprio e atormentado coração. Foi por essa época que Úrsula começou a se referir a Rebeca, a evocá-la com um velho carinho exaltado pelo arrependimento tardio e pela admiração repentina, tendo compreendido que somente ela, Rebeca, a que nunca se alimentara de seu leite e sim da terra e da cal das paredes, a que não levara nas veias o sangue do seu sangue e sim o sangue desconhecido de desconhecidos cujos ossos continuam chocalhando na tumba, Rebeca, a do coração impaciente, a do ventre arrebatado, era a única que tinha tido a valentia sem freios que Úrsula desejara para a sua estirpe"


Cem Anos de Solidão - Gabriel Garcia Márquez


Maravilhoso. Recomendo um papel durante a leitura para desenhar a árvore genealógica : )

17:03

porque quando dóí, dói mesmo

Alguém tem dúvida que a vida ensina tudo que precisamos aprender? Que basta sabermos (e aceitarmos) interpretar as coisas que acontecem que vamos aprendendo a viver cada dia um pouco melhor?

É..., triste é perceber que muitas vezes o que a vida nos ensina não é nada agradável aprender. Triste é saber que não basta o quanto nos esforcemos para sermos os melhores que podemos, para agirmos corretamente, para sermos éticos, sempre vão existir pessoas prontas para nos derrubar. Triste é perceber que na vida não basta sofrermos uma vez, que para muitas coisas precisamos cair repetidamente até levantarmos mais fortes, calejados.

Triste é finalmente aprender com a vida, que aprender é mais difícil do que parece, e que na vida algumas pessoas nunca aprendem.

É perceber que nessa vida onde alguns de nós fazem o máximo para que os outros nunca se sintam solitários e perdidos, estamos para tantas coisas totalmente sozinhos.

16:16

Vida louca

Será que o ser humano tem necessidade de complicar as coisas? Que a vida já tem um grau natural, e sinceramente bem elevado, de complicação é fácil perceber. Mas será que temos uma tendência a enxergar e até tornar tudo mais difícil? Será que às vezes o que é simples, confortável e descomplicado perde a graça?

Já passei por várias situações em que perdi meu interesse devido a simplicidade das coisas. Muitas amigas minhas já me contaram de momentos assim. Meus melhores relacionamentos, pensando em retrospectiva, foram aqueles em que eu podia ficar tranquila, ser eu mesma, e confiar na pessoa que estava comigo. Mas meu relacionamento mais longo e mais marcante foi uma montanha russa de angústia e nervosismo. E até hoje considero este o "amor da minha vida". Bela besteira.

Será que um dia seremos maduros o suficiente para aceitar o que de bom nos é dado? para valorizar as pessoas certas? Sem maiores preocupações e podendo sorrir das coisas que acontecem?

Andei pensando isso porque desde que terminei meu último relacionamento, desgastada, acabada, e não querendo saber tão cedo de namorar, venho dizendo pra todo mundo que tudo que eu queria era ou ficar sozinha ou algo tranquilo, sem compromisso e divertido. Não considero isso sinônimo de não se importar com quem se está convivendo, mas simplesmente poder estar com alguém sem grandes preocupações. É claro que falar é fácil e fazer é difícil, e como boa representante da extra sensibilidade feminina, não consigo evitar de me envolver pelo menos um pouco.

Mas esse detalhe à parte me peguei ontem mais uma vez complicando o que pode ser, e é descomplicado. Momento superado, continuo desenvolvendo minha teoria de que as melhores coisas podem ser as mais simples. Se a maioria das coisas na vida já é tão difícil para que complicar mais, certo? Essa tendência humana de autoflagelo, de querer sofrer...Freud explica...

E citando Dr. Fábio: "Curte o momento gata!"

11:13

Livros...

Na vida criamos modelos de conduta. Desenvolvemos medos e preconcepções. Julgamos e somos julgados. Torcemos para sermos diferentes e muitas vezes rejeitamos aqueles que tentam ser.


"O Último Ato de Esme Lennox" escrito por Maggie O'Farrel é uma lição sobre diferenças, preconceitos, erros, e fraquezas. É um retrato do cotidiano muitas vezes não visto. É uma lição sobre a vida a partir da destruição de uma vida.

Vale muito a leitura!

08:02

Quem não cala desconsente

Apesar de forte defensora de se falar sempre a verdade, devo admitir que ficar calado é muito produtivo.

Perdoar de fato nem sempre é esquecer. Por aquilo que se passa não se apaga. Existem precipícios que uma vez criados construir pontes é tarefa para gigantes.

E como vai a vida? Sério?

07:15

E por esses dias...

O problema de conversar com as pessoas sobre as coisas que estão se passando em sua vida e em sua mente é que você vai sempre ouvir várias opiniões diferentes.

Quem foi o mané que disse que ouvir os outros e estar aberto a novas visões é sinal de crescimento e evolução?

Ultimamente, e especialmente em um certo café ontem à tarde (e por esse fato eu culpo um certo alguém que escreve aqui nesse brog) ouvir outras opiniões tem complicado tudo. Eu tava no meu canto certa do que tava sentindo e querendo.

E agora hein? Que que eu faço com tudo isso?

07:45

BSB

Vou para o clima seco do cerrado.
É no cerrado que posso ser eu mesma sem ninguém julgar.
É lá que agora mora a compreensão para meus atos e desatos.
Lá de seca a vida nada tem.
Vou pro cerrado porque preciso sorrir e chorar.
Porque meu coração, amiga, está mais vazio longe de lá.

Quero Sampoerna que essa vida tá f*****

21:56

O Mundo Anda Tão Complicado

Gosto de ver você dormir
Que nem criança com a boca aberta
O telefone chega ta-feira
Aperta o passo, por causa da garoa

Me empresta um par de meias
A gente chega na sessão das dez
Hoje eu acordo ao meio-dia
Amanhã é sua vez

Vem cá meu bem, que é bom lhe ver
O mundo anda tão complicado
Que hoje eu quero fazer tudo por você

Temos que consertar o despertador
E separar todas as ferramentas
A mudança grande chegou
Com o fogão e a geladeira e a televisão

Não precisamos dormir no chão
Até que é bom, mas a cama chegou na terça
E na quinta chegou o som.

Sempre faço mil coisas ao mesmo tempo
E até que é fácil acostumar-se com meu jeito
Agora que temos nossa casa
É a chave o que sempre esqueço.

Vamos chamar nossos amigos
A gente faz uma feijoada
Esquece um pouco do trabalho
E fica de bate-papo.

Temos a semana inteira pela frente
Você me conta como foi seu dia
E a gente diz um pro outro:
"- Estou com sono, vamos dormir!"

Vem cá meu bem, que é bom lhe ver
O mundo anda tão complicado
Que hoje eu quero fazer tudo por você.

Quero ouvir uma canção de amor
Que fale da minha situação
De quem deixou a segurança do seu mundo
Por amor
Por amor.

10:23

29/09/08

Quero lhe contar como eu vivi e tudo que aconteceu comigo
Viver é melhor que sonhar. Eu sei que o amor é uma coisa boa.
Mas também sei que qualquer canto é menor que a vida de qualquer pessoa.

Eu vou ficar nessa cidade não vou voltar pro sertão, pois vejo vir vindo no vento o cheiro da nova estação. Eu sei de tudo na ferida viva do meu coração.

Belchior

Parabéns dona Gorda. Melhor amiga e irmã.

07:40

Eros e Thanatos (14)

Tentei, mas ainda não posso entender. Não posso falar sobre o que está além de minha compreensão. Por isso irmão, por agora, deixo você em meu coração como mistério. Um dia conseguirei entender.

Meu pai, os anos já me ensinaram. As marcas da vida estão tão expostas que é simples decifrar. Eu aprendo aos poucos, mas como alvo único de meus erros de compreensão, posso arriscar.

A vida ensina, pai, que viver não é simples, que contra aquilo que nos flagela temos que lutar. Passar por cima do que nos é imposto tem um preço alto, preço que se paga por toda a vida.

Mas pai, o preço que você paga você impôs a todos. Não se constrói vida sobre a morte. Não se mata aqueles que ainda nem aprenderam a viver.

08:08

Ressaca Iuperjiana 2

E a vida continua... Para os excluídos do antro iuperjiano de superioridade intelectual e política fica a esperança de que se é competente independente do julgamento de um ser que pergunta qual o ultímo livro que você leu, como se isso determinasse sua capacidade para o desenvolvimento acadêmico.

Não, não estou tão puta quanto parece pelo post. É só que algumas coisas na vida são engraçadas demais.

Um passo para nossa instituição de ensino dos excluídos iuperjianos Fabinho!

Beijos

14:29

Vida



















Amo acordar cedo, acho uma das coisas mais lindas desse mundo ver o nascer de um dia.
Ultimamente tenho dormido até tarde. Mesmo quando já estou desperta, me refugio em minha cama.
Quando eu estava no colégio me disseram que dormir muito é fuga. Queria hoje poder negar com a veemência que neguei na época. Sei tão bem quanto antes sabia, mas agora, crescida, não possuo mais o orgulho que antes possuia. Já posso adimitir minhas fraquezas.
Minha vida está melhor do que sempre esteve, hoje sei o que quero pra mim. Ou pelo menos tenho certeza de algumas coisas que não quero. Por isso esse momento é às vezes tão inexplicável. Esse vazio que as palavras não descrevem e que a mente não compreende. Só o coração sente. Tenho muito medo.

Díficil é saber o que fazer consigo mesma a cada segundo que passa.

12:14

samsara - renascimento e transmutação

todo sopro que apaga uma chama reacende o que for para ficar.

05:36

Não tenha medo não
O tempo poderá lhe dizer
Que TUDO traz alguma dor
E o bem de revelar
Que tal felicidade
Sempre tão fugaz
A gente tem que conquistar

10:33

nada na vida é tão definitivo quando se tem 20 e poucos anos.

13:01

No mundinho de hoje em que nada importa

Em dias em que me sinto surpreendentemente feliz, é que vejo como o amor dos que me circulam me é essencial. Não apenas o amor que estes me dão, como o que posso constantemente estar dando para eles.

Dias em que é difícil (não que em algum dia seja fácil) entender a dinâmica desse mundo. Não posso ligar, sorrir, convidar para estar junto aqueles que desejo em algum momento e por algum motivo ter perto de mim. Dar importância para as pessoas sem querer nada em troca aparentemente dá alergia e afasta aqueles que cismam que seus casulos são mais seguros que um abraço.

11:08

Eros e Thanatos (13)

Cansei de tentar te explicar...não é assim que se vive. Não posso te dizer o que dá certo, mas esse seu caminho...a vida não é assim, não podemos ser assim.

Você está seguindo os passos dele. Não consegue enxergar? A cada dia, a mesma rotina dele, as mesmas falas, mesmas reações. Não sorria, isso não é motivo de orgulho.

Seu quarto escuro, sua vida fechada, o silêncio. Tenho medo do futuro. Esse futuro de solidão e morte que você está construindo. Não gosta de ninguém, não tem paciência, suas falas são críticas, se defende atacando antes de ser agredido. Não percebe? Ninguém está te agredindo.

Sua ilha me assusta. Sangue do meu sangue. Meu irmão. Tenho medo.

15:19

resposta

"Para começar, dou a vocês minhas palavras e vocês me dão seu silêncio, e quando vocês retornam para suas palavras, eu lhes dou meu silêncio. Nesse sentido, todo encontro sincero entre as pessoas envolve o presente das palavras e do silêncio. Pois sem este silêncio, simplesmente não haveria encontro(...) Ouvir é abrir-se tantao para a voz do outro quanto para a que se carrega dentro de si mesmo. Para ser silenciosa, deste modo,a presença já deve ter algo a dizer."

Não possuo outra morada que o mar;
não farei de um lago meu habitat.
Buscarei o mar ilimitado e estarei em segurança,
Estarei são e salvo para sempre.

08:29

Mosteiro

Para aqueles que querem ser monge. A vida é difícil, mas linda demais para ser suprimida em termos de regras pré-determinadas.

06:31

Ressaca Iuperjiana

Celular de bêbado é arma. Pra alma e pro bolso.

07:43

Eros e Thanatos (12)

Passei um dia inteiro olhando para meu pai. Ele não me disse uma palavra. Tentei, perguntei, gritei, chorei. Nem uma palavra. Se não me conhecesse melhor, diria que desisto.

Mas não desisto. Agora tudo faz mais sentido. Algumas coisas não acontecem por acaso. A verdade escondida foi a dor cultivada por toda uma vida. Não uma, várias vidas.

Meu pai desistiu. Ele é um muro em minha frente. Passo dias o encarando. Ele nunca me vê. Eu vejo o silêncio que corta como faca. Cortou minha vida, transformou tudo em morte e não deixou respostas.

Eu não desisto. Passo dias chorando, gritando, implorando. Mas os olhos fechados de meu pai, a cada dia, se transformam em minha única chance de vencer a morte em minha vida. Quando não te enxergam a única saída é tudo tentar ver.

07:43

se for mais veloz que a luz, então escapo da tristeza...



16:24

ECCE ERIS TACENS

07:59

Breathe, breathe in the air.
Don't be afraid to care.
Leave but don't leave me.
Look around and choose your own ground.

Long you live and high you fly
And smiles you'll give and tears you'll cry
And all you touch and all you see
Is all your life will ever be.

Breathe - Pink Floyd

10:01

mas o tempo não para.

é incrível como, às vezes, olhamos para trás e percebemos que fizemos tudo errado. o distanciamento, físico e temporal, do meu mundo, da minha vida cotidiana, fez-me ter muita clareza da maior parte dos processos da última fase da minha vida, que antes eram totalmente nebulosos. de repente, todas a minhas dúvidas se dissipam e as coisas surgem, nuas e cruas, na minha frente, me mostrando como eu foi idiota, volúvel, fútil, enfim, uma babaca. por ter perdido tantas coisas, tempo, personalidade, por ter afastado as pessoas que valiam a pena e que eu, somente agora percebo, que realmente amava. é isso. é uma pena, o tempo não para nem pode ser recuperado.

14:24

Fechada pra reforma

Perdi muita coisa desde o ano passado. Minha avó e grande companheira, a maior perda que já tive de enfrentar, e que me deixou um vazio que nunca estará de novo completo. Perdi um dos meus cachorros, meu primeiro e único amor, a rotina da faculdade. Me tiraram meu chão. Há alguns meses estou catando os pedacinhos para reconstruir minha base. Vamos tentando levar a vida da melhor forma que podemos, mas a dor e a tristeza são dificeis de serem superadas.

Por tudo isso estou em um momento em que não reconheço às vezes a mim mesma. Então, preciso parar. Por isso estou tirando férias do blog por algumas semanas. Não sei nem direito o que pensar e muito menos o que escrever.

"Every breath you take
Every move you make
Every bond you break
Every step you take
I'll be watching you

Every single day
Every word you say
Every game you play
Every night you stay
I'll be watching you

Oh can't you see
You belong to me
My poor heart aches
With every step you take
Every move you make
Every vow you break
Every smile you fake
Every claim you stake
I'll be watching you

Since you've gone
I've been lost without a trace
I dream at night
I can only see your face
I look around but it's you I can't replace
I feel so cold and I long for your embrace
I keep crying baby, baby, please

Oh can't you see
You belong to me
My poor heart aches
With every step you take
Every move you make
Every vow you break
Every smile you fake
Every claim you stake
I'll be watching you

Every move you make
Every step you take
I'll be watching you"

(The Police)

21:38

stralight

Far away
This ship is taking me far away
Far away from the memories
Of the people who care if I live or die

Starlight
I will be chasing the starlight
Until the end of my life
I don't know if it's worth it anymore

MUSE

07:23

Quando começamos a entender nossos próprios limites somos muito mais felizes.

Por isso acho que às vezes é hora de achar seu próprio cantinho e passar dias, semanas, ou meses nele se necessário. Vou pro meu cantinho.

"My head won´t leave my head alone." DMB

18:29

O mundo é sem noção.

18:11

Noites de segunda com Grey´s Anatomy (2)

Tem machucado que a gente tampa com band aid, tem uns que só dando pontos.

Vou aprender a tricotar, foi a melhor lição que aprendi nos últimos dias. Utiliza-se a concentração para algo produtivo, aumenta-se a destreza manual, e ainda tira a mente de coisas desagradáveis. Nada como tricotar.

Não, ainda não estou ficando doida.

17:42

Champagne e Pedrinha

Ainda com a idéia do Karl Polanyi....

Nesse mundo temos que estar de armadura. É a lógica do mercado. Escolhem-se sapatos, bolsas, roupas de marca, e seres humanos. Parece cada vez mais que em meio as confusões alheias estamos simplesmente na prateleira. Somos usados conforme convém ao outro, e descartados no dia seguinte. Aproveitados enquanto somos de bom proveito. Meras mercadorias. No mundo que impera a ordem do maior lucro, o ser humano foi jogado na lógica do mercado. O que importa é não se importar. Somos todos arrastados nas dúvidas do próximo. Na lógica do lucro, melhor pisar no acelerador do que no freio, não importa quem se atropele.

Mas em um mundo onde existem pessoas que param para comemorar com bolo e champagne a biopsia benigna de uma vira-lata, eu ainda tenho esperanças.

17:32

Eros e Thanatos (10)

Meu pai se matou aos poucos. A mais terrível das decisões é se matar e continuar vivo.

Se matou em cada silêncio e em cada grito. Se matou em suas resignações e em cada luta inútil que travou. Se matou quando se achou bom demais e quando pensou ser o pior de todos. Se matou quando se curvou sob cada golpe. Matou um pouco de meu irmão e me matou.

Nos matou. A ausência diante da presença é muito mais forte que a perda. Meu pai nos matou a cada vez que fechou os olhos. Construiu um muro e nos deixou do lado de fora. Por mais que gritássemos ele nunca abriu a porta.

Mas a vida é surpreendente. Nos molda diante das adversidades. O futuro, meu e de meu irmão foi moldado assim, sombras de uma vida cavada na morte.

15:06

Idéias alheias (2)

O mercado humano de Karl Polanyi.

Porque enquanto o ser humano não for adaptável à lógica do mercado, o caráter de um homem se constrói e se revela com as decisões que toma nesse mundo não linear. Não arrume desculpas nas dúvidas que assolam sua mente, elas, todos têm, caráter para decidir em benefício alheio e não apenas próprio é que estamos esperando sentados para ver.

obs: "Porque Noelle, o mundo não é reto." Tema gerado em conversa com a Carol sábado à noite. Das poucas pessoas que conheço que em meio as suas próprias confusões lembram que o mundo ainda não se reduziu ao seu próprio umbigo.

11:36

céus.

demônios. eu gosto de nomes nas ruas.

11:03

falta cor escura.

olhei até ficar cansado de ver os meus olhos no espelho
chorei por ter despedaçado as flores que estão no canteiro
os punhos e os pulsos cortados
e o resto do meu corpo inteiro
há flores cobrindo o telhado
e embaixo do meu travesseiro
há flores por todos os lados
há flores em tudo que eu vejo

vocês me fazem muita falta.

06:54

Idéias alheias (1)

Sou o mesmo que você, só que mais velho, mais triste, desprovido de esperanças, pois vencido. Então abaixe esse dedo e diminua seu tom de voz...eu já fui assim um dia. Você anda por aí, diz que está construindo o seu próprio caminho mas não enxerga.

Não está vendo? Está aí, bem na sua frente...tudo bem, eu já fui assim um dia. Você faz planos, vê as coisas acontecerem, obtém sucesso, mas no fundo não percebe, não percebe que nas suas mínimas atitudes, nas suas pequenas decisões, eu estou aí, a semente do que você um dia será. Porque é difícil enxergar. Então, eu aqui na minha miséria, na minha cela, se posso te dizer alguma coisa, é que abaixe seu tom de voz, e observe com atenção, porque eu sou você...espere alguns anos e perceberá.

Você não percebe, pois hoje sua vida está fluindo. Mas olhe com atenção. Olhe para tudo que hoje você fez como ontem, e que amanhã fará como hoje. Fará, e nem notará. É assim mesmo, eu entendo. Adquirimos hábitos, formas de lidar com problemas, de enfrentar o que nos é imposto. Buscamos segurança, conforto. Temos medo. Eu entendo. Mas digo, abaixe seu dedo, pois eu sou você no futuro. Hoje, você não percebe. Não percebe que grande parte do que você faz está determinado pela forma como você está condicionado à agir. Você também está preso aos seus medos, as suas preconcepções. Seu caminho é conhecido.

Eu admito que também vivi assim. Entendo seus medos. Mas te digo, antes de me criticar por eu ter me conformado, por eu viver nessa prisão que eu mesmo construi, pense que sou você no futuro. Você condicionado a aceitar o que acontece, a agir de uma determinada forma, a procurar sempre as mesmas soluções. E eu agora, conformado por ter sempre vivido assim.


"O conformismo é carcereiro da liberdade e o inimigo do crescimento." J.F. Kennedy

obs: essa série de post terá os temas sempre dados por outras pessoas. (tema do post: "condicionamento", idéia dada pelo Alemão).

06:06

Noites de segunda com Grey´s Anatomy (1)

A verdade dói. Nos faz adimitir que controlamos em nós muito menos do que gostaríamos. Abre nossas feridas e expõe nossos medos. Passamos anos construindo quem somos, formando nosso caráter, afirmando, batendo o pé, quais são nossos princípios e em que acreditamos. Mas a verdade dói.

Mentimos para não assumirmos que muito pouco nós controlamos. A verdade nos pega de surpresa, derruba a fortaleza que tentamos construir. Ficamos tão pequenos perto dos nossos sentimentos. Sentimentos que não fazem sentido, que vão contra o que acreditamos, contra a forma que geralmente funcionamos. A verdade dói. Então, repetimos e afirmamos quantas vezes for preciso a mentira, até quem sabe enganarmos nós mesmos.

Por que as coisas do coração, eu já disse, a gente não explica. E entre fazer o certo ou o que desejamos, ficamos com o certo. Eu fico pelo menos. Às vezes seguir regras, princípios e nossa tão inquestionada moral é mais fácil que seguir a vontade. Esse coração que a gente não explica, que não tem razão. Que é tão bobo que me envergonha. A verdade dói.

13:26

Eros e Thanatos (9)

Sabe vô, andei pensando muito sobre você ultimamente. Com meu pai não posso falar, já te disse, com pessoas como ele, a conversa é impraticável. Ele é de cimento forte vô, nunca caiu, mas nunca me deixou desmoronar.

Eu te falei, eu sou de cimento fraco. Me disseram que sou pessimista. Sabe vô, já passei por tanta coisa, seria difícil começar a te explicar. Sou o legado do que você deixou aqui. Sou a vida que se tentou construir sobre a morte. Sabe vô, não se constrói vida sobre a morte.

Meu pai construiu a vida colhendo partes, costurando retalhos. Foi remendando as peças que achou pelo caminho. Um dia tudo se rasga.

Não sou pessimista, sou otimista. Sou calada, fechada, mas a vida ensina que palavras e sorrisos devem ser sempre verdadeiros. Sabe vô, já passei por tanta coisa. A vida ensina que otimismo não é felicidade, nem alegria, é acreditar que as coisas podem ser como você sonha, é olhar para seus amigos e saber que tudo vai dar certo para eles, é amar com todo o coração, é acreditar no amor, é apesar de tudo, acreditar.

Eu, se te encontrasse vô, te agradeceria pelo dia em que tomou sua decisão. Mais de meio século depois, sua decisão me fez de cimento fraco.

20:55

Quando a noite cai...

Gosto do escuro, do breu, do frio, do silêncio sepulcral: um ser da noite.
Prefiro a escuridão. É onde tudo se define, não na luz. A luz engana, ofusca; o negro esconde as mentiras, evoca a verdade. De dia minha sombra é maior que eu. Ela zomba de mim. Me sinto uno com o mundo quando a noite cai, com o meu mundo.



Tudo que eu gostaria de dizer, de fazer, de criar, de transformar, as resoluções e respostas que anseio só me vêm na calada da noite. Me sinto intrépido, imbatível, infalível, sedutor... Sentidos aguçados, nada me escapa, tudo a meu alcance. Lorde-senhor e ninguém para dizer o contrário.



Tento viver uma vida normal, trabalho, aprendo, produzo. Em vão, só respiro livre quando o sol se esconde. Inspiro o ar frio, me alimento dele. Crio asas que cortam a brisa andante. Estou no comando. O véu da noite me aquece, clama por mim. Eu não recuso, gosto do escuro, adoro o silêncio. Deus da vida dormente.



O tempo pára diante dos meus olhos que enxergam distante no escuro, até onde posso
imaginar. Olho as estrelas, frias e distantes. Num piscar de olhos estou lá e de volta. Tudo faz sentido à noite, todos os propósitos são cumpridos. Vultos à espreita, ruídos ao longe... Não, preces e honrarias ao mestre do breu. Meu domínio pulsa enquanto a cidade dorme. Sonhem, meus filhos, sonhem com domínios só seus pois a escuridão me pertence e eu pertenço à ela.

13:39

Queria pensar em uma razão para dizer o que verdadeiramente sinto... aquela leveza de dizer a verdade...





ps: Fábio, não sei se isso está acontecendo com você, mas a leitura do Iuperj está matando minha inspiração...tudo que penso agora é em clã feudal e parental do Vianna! E pra melhorar tem clã eleitoral agora também...

19:22

Em meio a esparadrapos, gazes e uma gigante cicatriz.

05:31

"Sonhar é acordar-se para dentro"
(Mário Quintana)


A esperança, necessária para vivermos, há semanas vem me derrubando.

19:16

Nada

Hoje eu quase desisti. Não quero me achar anormal por isso, ou deprimido, ou melancólico. Mas hoje eu quase desisti.

A eterna espera termina quando percebemos que, no fim, o que há é só esse vazio, esse abismo das coisas. A gente olha pra dentro de si, e só há escuridão.

Eu sentei aqui pra escrever alguma coisa que me inspirasse e inspirasse outras pessoas tb. Algo delicado, que me fizesse chegar mais perto. Mas nem sempre isso funciona e nem sempre eu quero continuar.

Hoje eu olhei pra cima, e não havia nada.

17:40


Se tudo passa, qual o objetivo da atitude que tomamos hoje? Se um dia tudo acaba, porque começar alguma coisa?

Não sei. Somos tomados por uma força que nos obriga a levantar da cama, a abrir a porta, a sair na rua. É essa força que tenta preencher o vazio que tantas vezes nos consome, pelo menos me consome. Essa força que nos joga na vida para enfrentarmos a morte, a perda.

Será essa mesma força que nos prende a situações que já terminaram? Que nos obriga a lutar até o último momento para não enfrentarmos a perda? Para não assumirmos que um dia tudo passa?

Não sou pessimista, sou otimista. Acredito na vida. Acredito no amor, naqueles que duram para sempre. Acredito nos planos, nos sonhos. Acredito que podemos construir coisas lindas.

Mas por isso mesmo acredito que tudo um dia, de alguma forma, passa. Eu bem sei quantas vezes foi difícil encontrar a força para levantar de manhã. E quantas vezes me prendi a situações que há muito já haviam acabado. A perda, o fim, é uma dor inexplicável. Mas é uma dor linda. Nos permite recomeçar, ter esperança, sonhar. É a perda em algum momento que nos dá a força para levantar em outro.

É a perda do que hoje já na verdade se foi, é deixar passar aquilo que não mais está, é aceitar a dor, que me permite sonhar, sonhar que algumas coisas só passarão, quando eu mesma passar.

19:08

Pós-Modernidade fluida

Um dia meu pai me disse que criamos uma realidade para a qual só vamos estar preparados emocionalmente daqui há muito tempo. Acho que nunca vou estar preparada.

A pós-modernidade fluida, segundo uma amiga de uma amiga é o estágio que estamos. Época em que ninguém é ninguém e nada importa. Tempo em que é moda olhar para o próprio umbigo. Não vou discordar, é a pura verdade.

Me sinto um lixo, excluída, razoavelmente anormal. Acho que 90% das pessoas com quem um dia parei para falar sobre essa sensação de sermos meros espectros na vida dos outros, me disse pra eu relaxar, levar as coisas menos a sério. Não dou ainda razão, mas começo a achar que é o jeito menos doloroso de se viver hoje em dia.

Mas ainda não cheguei nesse grau de evolução. E sei, grande parte dos que me circulam já chegaram. Essa tal de pós-modernidade fluida está dominando tudo.

Pra mim, continuo no meu canto...pequenas coisas me comovem, sorrio ouvindo uma música, choro lendo um livro, e acredito em filmes. Falo no telefone, sinto saudades de minha mãe, e converso com minha cachorra. Abraço meus amigos com todo meu amor. Em cada beijo abro um pouco meu coração. Não consigo pensar em qualquer um. Penso em cada um. Tenho medo da pós-modernidade fluida.

"It's the terror of knowing what this world is about. Watching some good friends screaming ' let me out'............. 'Cause love's such an old fashioned word. And love dares you to care for the people on the edge of the night. And loves dares you to change our way of caring about ourselves."

(Queen - Under Pressure)

06:28

17 de julho de 2008

Finco minhas raízes para poder crescer. Florescer.

O mar. Horizonte inatingível de infinitas possibilidades.

Minha liberdade são pássaros que buscam o sol.

Sol que brilha a cada manhã onde há esperança.

Porque a saudade, cravada na pele, é a lágrima que não cai.

É a felicidade nunca expressa de uma lição aprendida.

04:12

eu te amo.

há três noites não durmo,não por conta de motivos existenciais. só um problema de saúde. Três noites só, mas parecem bem mais
De qualquer forma, isso me fez ter bastante tempo pra pensar em coisas que uma recente fase de depressão tinham me feito esquecer.
Tudo que eu sempre quis dizer na vida, busquei dizer em forma de historias, um velho habito, alimentado por velhos sonhos. Não sei se os abandonei, espero que nao, mas recentemente as coisas têm sido diferentes. Hoje vai se diferente.
Tolstoi escreveu em seu diário que estava cansado de escrever romances, de escrever mentiras. Que tudo que deveria ser dito, deveria ser dito diretamente. Acho que concordo, o mundo já tem mentiras demais, já tem coisas demais pra se pensar. Às vezes precisamos parar e olhar a leveza que a verdade traz dentro de si. Porque nem toda verdade é nua e crua..às vezes ela pode ser bem delicada, bem confortável... mas entendo que usar uma sinceridade sincera não é só difícil, parece impossível.
Isso porque não estamos habituados a associar as coisas com sua existência real. Tudo nos remete a algo,a algum conceito, a alguma asbtração, a algo que achamos conhecer sem possuir, quando na verdade certas coisas simplesmente existem, sem necessariamente ser algo definido.
Uma vez que estamos presos à linguagem, precisamos compreender as palavras em toda sua extensão. Compreender, não só entender. Deixar falar cada coisa da sua forma original, sem metáforas, sem sombras, sem fugas. É preciso chamar cada coisa pelo seu nome certo, e entender isso como uma prova de exclusividade, de salvação, da existência de algo fora do nosso controle.
Então, quando eu falo de amor, eu não posso querer resumir tudo em um punhado de letras, em um símbolo linguístico. Tudo que existe só existe uma vez, não mais.
Daí vem minha grande frustração: como compreender cada coisa como ela é individualmente? Como saber seu real significado? Como dizer a uma pessoa, qualquer pessoa, que a amo, e que isso não tem muita relação com a condição soical que ela ocupa em minha vida, seja ela namorada, amigo, amiga, pai, mãe, irmã? Eu só quero dizer que a amo e que o amor não é como uma caixa de bombons que dividimos com as pessoas que nos fazem sentir bem. Não existe uma coisa chamada amor..o que existe é o amor por alguém. E o amor não é dividir, não é doar...o amor é estar perto, e perder, para poder cuidar.
Lá se vão alguns parágrafos e eu ainda não consegui dizer exatamente o que eu quero,mas tenho consciência de que nunca conseguirei de verdade. Eu nunca vou fazer as pessoas entenderem completamente como eu me sinto em relação a elas. Para amar é preciso ser um pouco egoísta tb e usar o amor como alimento de si mesmo. Sentir-se encantado por algo e ouvir a música noturna que isso sempre traz. É preciso ouvir essa música como uma enorme sinfonia que nós mesmo contruímos. Entender o amor e o amar como a única forma de arte capaz de nos fazer alguém melhor. Como eu disse, amar é perder.
Alguém pode achar isso tudo muito conformista. Discordo. É importante não confundir as coisas. Não estou tentando falar sobre uma forma de amar..essas serão sempre as mesmas, inesgotáveis, insuficientes e inexplicáveis. É importante saber o que esperar, não do outro, mas de si mesmo. Acredito que amor deve ser sempre demonstrado mais do que dito e isso vale pra quase tudo na vida. Mas nada nunca será suficiente. Viver é muito difícil. Eu pelo menos não consigo pensar em nada q seja mais difícil...ou que pelo menos tome mais tempo da minha vida.
O negócio é que a única coisa em que realmente podemos acreditar é em nós mesmos e como, de certa forma, estamos condenados a sermos fiéis ao que sentimos. Não temos escolhas, não temos opções, é preciso sempre acreditar no que vemos e, quem sabe, dar algumas chances de sermos cativados..seja por algo, seja por alguém. Um dia, sempre é preciso se entregar, ou tudo se torna pesado demais, insuportável.

O que eu quero é um dia poder dizer que te amo, e não terei medo, e tu não terás medo..haverá o amor tranquilo, e fim.

18:59

Eros e Thanatos (8)

Por que você sabe, a vida é assim mesmo. Somos um muro, as coisas nos atingem, cada qual desmorona em seu momento. Sou de cimento fraco, meu pai, de cimento forte. Nunca caiu.

Há mais de meio século atrás, meu pai parou de enxergar. Sua vida passou assim, com as mãos em frente aos olhos. Tudo que construímos no escuro, cresce como sombra. Minha família, minha família é sombra. Quando o muro não desmorona, a vida nunca se ergue.

Sobre mim ainda nada posso falar. Já disse, sou feita de cimento fraco, desmoronei tem muito tempo. Minha vida, estou tentando reerguer. Mas isso, isso agora não importa.

Meu pai cresceu na morte, e da morte fez sua vida. Como fica o que criamos, quando tudo que se cria nasce morto? Como fica a vida que levamos, quando da morte nunca escapamos? Não sei a respota para muitas coisas, mas sei para isso vô. Quando da morte se vive, se vive como muro forte, que não cai, mas nunca se ergue.

09:28

Mas tudo que eu te dou são só palavras
E a solidão de cada uma delas
Não me deixará dizer
O que eu vejo quando fecho meus olhos

È no tempo da delicadeza,
Que eu espero,
A música das suas asas se aproximando,
Para que sentes ao meu lado
E me revele o abismo de todas as coisas.

Sem medo,
Eu sussurro no teu ouvido
Acalma o teu coração!
Eu entendo.
Eu entendo.

05:20

Pig

Não é estranho, como vivemos nossa vida para outro dia? É como perder um tempo da música...
Mas e se uma grande onda nos lavar embora daqui? Estou apenas pensando em voz alta. Não pretendo divagar sobre essas coisas mórbidas. Mas olhe para meu amor. Está vivo, aqui no fundo, pulsando em minhas veias... Intoxicando, transformando vinho em lágrimas. Bebendo.

O amor vai abrir nosso mundo. Há muito mais para se ver aqui...não desperdice o dia. Não desperdice o dia.

Tudo isso não é suficiente? Esse abençoado gole de vida, não é suficiente? Olhando para o chão, e reclamando, rezando por mais...seu pequeno ganancioso. Isso tudo é seu problema agora. Em poucos anos eu estarei morto. Apenas o amor abrirá nossos olhos, só o amor preencherá o vazio de nossas mentes. Muito mais do que um dia saberemos. Não desperdice o dia. Não desperdice o dia.

Venha irmã, meu irmão. Sacuda seus ossos e seus pés. Estou dizendo abra-se e deixa a chuva entrar. Lavar essa noção aprisionadora de que o melhor ainda está por vir. Enquanto você está aqui dançando, não pense em quando você não mais estará. Amor. Amor. Amor. O quê mais existe? Pare de pensar, enxugue seus olhos.

Não desperdice o dia. Não desperdice o dia.

Aqui estamos, nessa noite estrelada olhando para o espaço. Preciso dizer, me sinto pequena como a poeira deitada aqui embaixo. O que está me incomodando? Cabeça para baixo pensando o que irá acontecer comigo. Porque me preocupar com o que não posso ver? Não há razão para abandonar tudo isso aqui. O tempo é curto, acho que vou passear no meio da noite. Tira a mão de seus olhos meu amor. Tudo precisa acabar am algum momento. Não desperdice o dia. Não desperdice o dia.

Venha irmã, meu irmão. Sacuda seus ossos e seus pés. Estou dizendo abra-se e deixa a chuva entrar. Lavar essa noção aprisionadora de que o melhor ainda está por vir. Enquanto você está aqui dançando, não pense em quando você não mais estará. Amor, amor, amor, o que mais existe? Pare de pensar, enxugue seus olhos.

(Versão adaptada de "Pig", Dave Matthews Band - uma música pode mudar um dia.)

18:21

O Suicida

– Por quê ?
– O quê?
– Por quê você tentou se matar?
Abaixei os olhos. Acendeu um cigarro.
Não havia resposta.
– Não achei que você tivesse coragem.
Não consegui encará-la para responder:
– Você não me conhece mais.
Tudo que eu precisava fazer era não deixá-la olhar dentro de mim.
– Como é?
– Como é o que?
– Como é a sensação? Me disseram que mais alguns minutos e seria irreversível. Como você se sentiu?
– Você não entenderia.
– Experimente.
– Não vale à pena.
Ajeitou sua postura jogando-se para trás na cadeira. Pedimos ao garçom:
– Dois cafés.
Ela insistiu:
– Você acha que vai fazer isso de novo?
–Duvido muito.
Controlava-se para não chorar. Secou os olhos.
Silêncio.
– Você está bonito.
Precisava ser simpático:
– Você mudou o cabelo?
– Sim, você gostou?
Não respondi.O garçom veio com os cafés
Olhos vermelhos.
Pude ouvir a porta do bar abrir e fechar novamente.
– Sinto sua falta.
Olhei-a tentando ser gentil.
Silêncio.
– Espero que você esteja tão contente de me ver quanto eu estou.
– Sim, estou.
– Faz quanto tempo?
– Cinco anos.
– É muito tempo, não?
– Tempo demais.
– Você deve ter várias coisas pra contar.
– Na verdade não.
Ela passou a mão sobre os olhos. Parecia exausta.
(A noite em reflexo nos seus cabelos).
– Eu nunca te pedi desculpas.
– Nunca foi necessário.
– Não sabia se valia a pena vir aqui te ver, mas achei que, depois do que você tentou fazer consigo mesmo, era hora de voltar e fazer a coisa certa. Pode parecer loucura, ou muita pretensão da minha parte, mas achei que fosse por minha causa, mesmo depois de tanto tempo.
- Não...
– Eu te abandonei, Fábio.
– Não havia mais nada pra dizer.Você fez a coisa certa.
– Você parecia não entender isso na época.
– Mas entendo agora.
(Ela sabia).
– E eu nunca deixei de te amar.
Acendeu outro cigarro.
– Na verdade descobri que te amo mais do que nunca te amei, mas sei que as coisas são diferentes.

Parecia querer chorar novamente.
(Enquanto isso, chovia no mundo todo).
– O que é diferente, Júlia?
Não conseguiu responder. A tormenta.
Pôs os óculos escuros. Pegou na bolsa um discreto lenço bordado.
– Desculpe-me. Prometi que não faria isso.
(Quis consolá-la, mas tocar seu rosto mais uma vez me faria em pedaços).
– Eu não espero nada, Fábio. Acho que devo ir embora.
– Você está na casa dos seus pais?
– Não, aluguei um apartamento deste lado da cidade.Você está morando do outro lado do rio, não é?
– Sim. Mudei-me há dois anos.
– Posso te visitar um dia desses?
– Claro.
Ela levantou-se sorrindo, e nunca houve nesse mundo uma dor tão forte quanto a que eu senti nesse momento. Perdê-la novamente seria o fim de todas as coisas.
– Tome meu cartão. Me ligue quando puder, ela disse.
Começou a vestir o casaco.
Senti meu estômago revirar. Era como se tudo que existia estivesse confinado dentro daquela mulher. A beleza de uma criação absurda à qual sempre desejamos retornar. O absoluto. A resposta das dúvidas que nos enclausuram na escravidão do ser humano. Havia ali uma alma que preenchia os espaços. Havia ali uma chance, e ela estava indo embora.
Esperava que eu dissesse algo. Esperava que a salvasse de si mesma.
– A gente se vê.
Beijou-me na testa e foi em direção à porta.
O som dos seus passos se afastando me fizeram perceber que no universo não há espaço suficiente para a responsabilidade de viver. Sempre parece ser tarde demais.

– Mais perto de você – gritei antes que ela saísse.
– O que disse?
– Foi como eu me senti: mais perto de você
Ela riu enrubescida e fechou a porta, deixando para trás o cheiro de café, cigarros e a tranqüilidade desesperada de um nunca mais.

Outubro, 2005

14:22

Eros e Thanatos (7)

Sou a última geração da dor de minha família. Da família de meu pai. Se eu encontrasse hoje meu avô saberia o que dizer.

Diria que o silêncio se impôs em minha vida. Que o segredo que maltratou meu pai, maltratou a mim e meus irmãos. O segredo não explicado da dor de um homem. Este segredo, escolhido como segredo por aqueles que preferem calar, não deixou impune ninguém ao meu redor.

Diria que meu pai escondeu de todos e até de si a dor da perda. Não, não a dor da perda, a dor de ser roubado. Diria que ao se matar meu avô roubou de meu pai o direito de respirar, o direito de viver. Mostraria como seu desespero, curado em um segundo impôs horas, dias, anos, uma vida inteira de sofrimento. Que a vida de meu pai nunca saiu daquele quarto, que seus olhos nunca deixaram de ver o sangue no chão. Diria que a morte de meu avô, matou tudo ao seu redor.

Diria que eu, mais de meio século depois de sua morte, vivo todos os dias aquele momento, vivo aquele momento através do olhos de meu pai. Olhos esses que me trouxeram ao mundo, que me criaram, que fizeram de mim quem sou hoje.

Diria entao que o seu suicídio foi sua melhor decisão. E que hoje mais de meio século depois agradeço o dia em que um tiro calou sua vida.

13:55

2006

teu cabelo é feito de flor
de rosa vermelha,
feito noite de inverno

teu toque é silêncio
neve que cai abandonada
sobre a minha solidão


e assim eu prossigo,
pintado na escuridão vazia das ruas
desconstruindo as horas

(nada nesse mundo é tão belo
como as violetas que caem do céu
quando você sorri)

13:52

eu não consigo versar a causa sem a consequencia
eu já não lembro como é tirar os pés do chão

em toda frase que escrevo vem a eloquencia
de rimar com a anterior, mesmo sem ter educação

eu já tentei falar de política
mas eu só tomo coca-cola

a ultima bandeira vermelha que eu tinha
troquei na feira por uma vitrola

20:29

Escolhas


Na verdade não queria postar um em cima do "Aleatório", mas como ultimamente tenho pensado muito sobre "Escolhas", resolvi postar. A verdade é que o sentimento de "Aleatório" é o que agora está presente em mim.

Vendo alguém que amo fazer uma escolha, uma escolha que pode fazer chorar ou sorrir, voltei a pensar sobre decisões. Basta dizer que estou longe de saber tomá-las da melhor forma possível, mas a cada momento percebo mais como elas afetam enormemente minha vida e a dos que me circulam. O último ano, e em grande parte o princípio deste me mostrou como é inútil ter medo de fazer uma escolha.

É impossível não ter, mas o clichê é verdade, a coragem é a capacidade de enfrentar o medo. Quase tudo acontece independente de nossa vontade, para quase tudo a tentativa de controle é impotente. Já quis muito que a vida me mostrasse os caminhos a serem tomados. Hoje em dia prefiro escolher o que posso, posso errar, muitas vezes é certo que errarei, mas arrisco, pois no que posso, quero ter as rédeas de meu caminho. A possibilidade de escolher e o ato de decidir, além de nos tornar forte, nos prepara para aceitar aquilo que simplesmente acontece. Que nos é dado ou tirado sem nem notarmos.

A escolha é a capacidade de optar sem saber se haverá ganho ou perda. Prefiro perder tudo do que ser privada de escolher o caminho que me parece certo. As últimas semanas, das formas mais singelas, me mostraram o poder das escolhas. Ou a completa ausência desse poder.

No que eu puder, quero construir minha própria vida.

16:33

Aleatório

Tenho olhado ao meu redor. O vazio às vezes me surpreende. Ele pode estar sempre tão completo.

Queria dizer para todos meus amigos que são as pessoas mais lindas que conheço. Que a dor que eles sentem é a dor que também sinto. Que se meus braços fossem grandes o suficiente abraçaria-os todos ao mesmo tempo. Mas que meu coração é grande o suficiente.

Queria dizer que são todos parte de mim, que a alegria que hoje sinto devo sempre a eles. Queria que soubessem que todas as lágrimas que choraram, eu choraria quantas vezes fosse preciso para que voltassem a sorrir.

Queria ter certeza que a vida vale a pena. Para então ser forte o suficiente para reerguê-los sempre que caíssem. Não tenho essa certeza.

Queria rasgar meu coração e mostrar tudo que existe dentro dele. Poder então doar a beleza que vejo ao meu redor, a esperança que encontrei, e o sorriso que às vezes sorrio. Quero só ter braços para abraçar o mundo.





"Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...Que tristes os caminhos, se não fora a presença distante das estrelas!" Mário Quintana

20:15

My baby just cares for me (um último conto para M.)

Sentaí. Sentaí e cale a boca..
Eu quero que você escute.
Está ouvindo..sinto que logo irá chover em algum lugar dentro de mim.
Eu ia te escrever uma carta de amor, mas eu te trouxe aqui pra te contar que da última vez, quer dizer, quando você foi embora, eu falei com Deus e ele falou comigo.
Eu estava descendo sua rua, era agosto, ou setembro...não..nada de café, deixe-me terminar...era agosto ou setembro....você não estava ali e eu gritei: Vamos ,cadê? to aqui embaixo esperando ...seu merda!! E foi então que começou a chover como eu nunca vi na vida. Foi a maior chuva da década você lembra? Deu no telejornal e tudo. Eu sei, você não vê TV . Eu estava ali, era agosto ou setembro, e Ele sorriu pra mim. Eu estava morto e ele veio ate mim..Pare de rir, isso é sério...Ele veio até mim e me olhou..e era você.E ficamos conversando a noite toda até a chuva parar e você me levar pra casa, no mesmo carro velho que você usa para ir trabalhar. Eu adoro essa música, vamos dançar. Então...merda, eu sigo teus passos, apóie a mão no meu ombro, assim, como o tempo, haverá sempre o tempo para nos deixar loucos ,não é? Você é Beatrice e eu sou Dante. Queimei meu livro semana passada, não fazia mais sentido, não prestava. Palavras não servem pra nada .Não importa. Nada importa.OK, vou dizer o que penso, depois dessa canção: my baby don´t care for clothes, my baby just cares for me....lindo, lindo demais. Calma tenha paciência, eu te trouxe aqui por vários motivos, Primeiro pra te falar que eu descobri o vazio..sim ..ele estava ali o tempo todo e eu não tinha percebido..ele estava ali, olhando pra mim, e havia muita coisa nele, mas ele continuava vazio e então eu o pus seu nome nele e ele deixou de ser O vazio pra ser outra coisa que me faz dormir mais cedo, sabe, me faz dormir apenas.Uma coisa que deixa a luz menos acesa, que transforma as noites em reflexos , só reflexos debaixo da cama . Um filme mudo, é assim a minha vida, em preto e branco as coisa são mais belas, acredite. Olha, o importante é a beleza, foi isso que você não entendeu em mim e eu não entendi em você. Pra mim o que importa é a beleza,mas não essa beleza de dicionário, de escola de arte, existe uma outra beleza que está além..é a minha religião..esse foi nosso erro, nós ignoramos a beleza.Ai meu amor, vou explicar com calma.Não sei como dizer isso sem ser assim direto, mas você errou em não querer acreditar que poderia ser algo novo..uma nova forma de amar..uma forma sem conteúdo etéreo, algo como fogo, algo como a eternidade na mesa do café, chorando como a gente sempre chora, baixinho,baixinho. Meu erro foi capital,mas você me perdoa mesmo assim, sempre assim,estou quase lá, quase lá. O que não foi contado não será... mas terá existido, eu te pergunto? Pra mim sim, mesmo que eu nunca mais te veja, eu ainda vou casar com você. Mesmo que você diga que não me ama, eu ainda te farei a mãe dos meus filhos, e nós ainda iremos passear no parque, ir ao cinema aos domingos. E eu ainda cuidarei da sua gripe, te levarei ao médico, ouvirei você me xingando e indo pra casa da sua irmã. Depois voltando, fazendo o dever com nossos filhos, ensinando matemática ao mais novo, rindo do meu ciúme da mais velha. E eu vou morrer , como todos nós vamos, e meu ultimo momento ficará gravado em seus olhos verdes sem lágrimas, porque você jurou nunca chorar, porque em você sempre esteve a fortaleza que eu não fui. E depois você irá pra casa e será a mulher mais feliz da história, dessa história. Sim, pra mim isso tudo vai acontecer , mesmo que você saia daqui e nunca mais fale comigo. Pra mim já aconteceu. Está vendo, tudo é a beleza. “ A arte é longa, a vida é curta ”. Você errou, eu já disse, em tantas coisas quanto eu, mas se você tivesse acertado tudo acho que eu não pararia de chorar. Aqui está, tudo faz sentido agora, mais uma vez, é a beleza que me dá as respostas e não há respostas quando ela não está. O meu erro, é claro, eu também erro, foi não perceber que tudo isso começou quando você apareceu. Foi você quem criou o mundo que eu procuro e criou todos os mundos. Foi você quem criou a primeira beleza quando esteve do meu lado e respirou, e sorriu, e chorou, e apoiou a cabeça no meu ombro, e me fez sentir sua presença, devagar, devagar, pra tudo terminar em um instante, um instante de loucura , onde, por uma última vez, são seus olhos que fecham os meus.

20:00

As coisas do coração a gente não explica.

Posso perder algo e não sentir mais falta.

Posso nunca ter tido algo e ter muita saudade.

05:22

Eros e Thanatos (6)

Segui minha vida assim, endurecido. Aquilo que eu não conseguia falar transformava em minha mente em grandes segredos. A morte de meu pai se tornou para mim um grande mistério. Encarava ela com um misto de medo e vergonha.

O quê determina a forma como encaramos o que nos é dado como nossa realidade? O quê em mim direciona o modo de enfrentar obstáculos? De onde vem a força para sorrir ou chorar diante da vida? Quem está fadado a sucumbir perante a vida, e quem é abençoado com a capacidade de transformar tragédias em lições?

Nunca me interessei em responder essas perguntas, aceitei de braços abertos e olhos fechados o meu destino. A morte de meu pai levaria consigo também minha vida. Calei minha boca, com ninguém falei, e sucumbi. Morreu também em vida toda minha família. Cada um em seu canto, todos sucumbiram.

Mas em uma coisa o tempo é inexorável. A gente para, mas ele continua. Temos que viver, mesmo quando tudo dentro de nós está determinado a morrer. Assim, levamos conosco a morte para onde formos. Nasce morto tudo aquilo que construímos. Essa é a história da minha vida.

06:31

Eros e Thanatos (5)

Hoje é meu aniversário. Há mais de meio século atrás meu pai se matava. Com apenas sete anos eu perdia a inocência e a esperança que no futuro nos torna uma pessoa mais completa.

Com sete anos eu olhava o meu pai, caído no chão, e descobria a tristeza humana em sua mais crua faceta. Um homem desistia de si mesmo. Eu nada sentia, apenas olhava. A vida nunca mais teria o mesmo sentido para mim, estava dominada pela morte. Aquele que me deu vida desistia da sua própria. Tirava de mim minha própria vida.

Durante muito tempo eu olhava mas nada via. Meu pai estendido no chão. Morto. Não compreendia o sigificado daquele momento. Não compreendo até hoje. Para ele, ali tudo acabou. Quanto a mim, eu tinha uma vida pela frente. Com sete anos, eu não tinha palavras para explicar, mas dentro de mim não havia vida para seguir.

Aquele momento afetou tudo ao meu redor. Meus irmãos, das mais variadas idades, não mais se falavam. Minha mãe, alguns vários anos mais moça que meu pai, passava os dias em silêncio. O tiro que calou meu pai calou também nossas vidas. Poderíamos ter enfrentado a morte com vida? Provavelmente sim, mas como a cada um cabe a força e a forma de enfrentar o que nos é imposto, foi com nossas mortes em vida que vivemos a morte de nosso pai.

05:57

Eros e Thanatos (4)

Solidão é lava,
Que cobre tudo.
Amargura em minha boca.
Sorri seus dentes de chumbo.
Solidão palavra,
Cavada no coração,
Resignado e mudo,
No compasso da desilusão.

(Paulinho da Viola)

Quando não se encontra a si mesmo, quando a solidão é devastadora, quando você está dentro e o mundo está fora, quando nada lhe toca, e você não é mais capaz de a nada tocar, quem poderia me culpar?

18:03

eu hoje joguei tanta coisa fora....

Existe certa problemática em dizer o adeus definitivo a certas coisas. O sentimento de que estamos olhando uma última vez para algo, ou alguém, pode ser insuportável quando compreendido na totalidade das suas conseqüências, seja esse adeus fruto de um afastamento voluntário ou ocasional. Assim, quase sempre, o “nunca mais” é substituído pelo “até logo”. A porta continua aberta. O passado não se caracteriza como passado e se transforma em um simples dia anterior. Não se encerra, apenas passa.

Ninguém consegue compreender totalmente a extensão (ou duração) de uma vida inteira. A vida de cada um de nós, durando o tempo que dure, pode ser entendida (por que não?) como a única representação possível da eternidade... e isso só é possível graças à nossa capacidade de lembrar.

No entanto, a capacidade de lembrar nem sempre é um ato consciente ou livre, tanto na sua casualidade quanto na sua intensidade, e issogera um constante conflito com as características (ou necessidades) sensoriais de todos nós. O ser humano que vive é também o ser humano que sente, que sangra, e que interage com o momento presente como um solitário elo entre o futuro e o passado, pressionado contras as carências do minuto atual. Assim, subterfúgios são criados para tolerar uma carga tão grande de responsabilidades ligadas a incertezas e sentimentos, um conjunto de maneiras de nos fazer esquecer, ou pelo menos aliviar, a dor e o sentimento de impotência que sentimos quando, por alguns minutos, compreendemos o real tamanho da vida e toda sua extensão..quando percebemos que não temos controle sobre quase nada.

Isso tudo eu pensei quando embalava as últimas coisas antes de ir embora, quando passava a fita durex e lacrava a única caixa, que continha todos os meus pertences após dois anos naquele lugar. Acho que a gente só possui as coisas uma vez na vida, não mais que isso. No momento que elas se perdem, mesmo que um dia voltem a ser nossas, não serão mais as mesmas coisas, assim como nós não seremos mais os mesmos. Então é natural nos prendermos ao que é nosso, ao que dividiu conosco nosso olhar pessoal sobre as coisas. Mesmo quando a necessidade de ir embora é uma obrigação, um fato consumado e necessário, eu nunca vou ter vergonha de sentir saudades de quase tudo, por que quase tudo me carrega e quase tudo está dentro de mim, sejam pessoas ou pacotes de cigarro.

Aí eu disse adeus e fechei a porta. A chave na portaria, como combinado.

Na calçada, esperando o táxi, já nada mais me pertencia. Então eu fiz a única coisa que eu devia fazer. A única coisa que sabia ser certo.

Sentei, e comecei a chorar.

17:11

Avó

Perdemos muitas coisas...


À Iracilda Lima Coelho, elo de amor que une toda minha família. Fonte maior de alegria e força para minha vida. Inspiração e modelo perene para minhas decisões. Razão de meu amor pelas menores coisas que me circulam, destinatária de meu eterno orgulho e devoção, minha amiga, minha sempre amada avó.


(dedicatória do trabalho final de curso)

AMO

05:31

Eros e Thanatos (3)

Solidão... Tudo está apagado. É a ausência. Não de outros, mas de si mesmo.
É não saber o que fazer quando se acorda, e não ter descoberto até a hora de ir se deitar. É não entender o motivo do próximo passo. É existir sem existir.

Quando se experimenta esse sentimento nunca mais se pensa que a solidão pode ser curada pela presença de outra pessoa. O mal e a cura só um pode encontrar. É perder o fio da meada, é esquecer porque se respira. Olhar ao redor, saber quem é, e não saber. É trabalhar, conversar, passear, e nada sentir. É o encontro com o desencontro. São as palavras que nada dizem.

A ausência de si mesmo pode ser uma benção. Pois o reencontro nos torna fortes, resistentes, preparados. A ausência pode vir novamente, mas se há possibilidade do reencontro, há possibilidade de crescimento. A solidão pode portanto ser salvação. Não nos torna pessimistas, não nos separa dos outros. Mostra que os outros são vitais, mas que a vida é feita de nós mesmos.

No entanto, a solidão nos maltrata. Facilmente sucumbimos a ela. E quem poderia me culpar? Como todos os aprendizados na vida, a dor antes do riso é imponderável. A saída não se enxerga de longe. Quero sucumbir, quem poderia me culpar?

05:42

Para algumas pessoas em especial...

Não quero alguém que morra de amor por mim... Só preciso de alguém que viva por mim, que queira estar junto de mim, me abraçando. Não exijo que esse alguém me ame como eu o amo, quero apenas que me ame, não me importando com que intensidade.
Não tenho a pretensão de que todas as pessoas que gosto, gostem de mim... Nem que eu faça a falta que elas me fazem, o importante pra mim é saber que eu, em algum momento, fui insubstituível... E que esse momento será inesquecível... Só quero que meu sentimento seja valorizado.
Quero sempre poder ter um sorriso estampando meu rosto, mesmo quando a situação não for muito alegre... E que esse meu sorriso consiga transmitir paz para os que estiverem ao meu redor.
Quero poder fechar meus olhos e imaginar alguém... e poder ter a absoluta certeza de que esse alguém também pensa em mim quando fecha os olhos, que faço falta quando não estou por perto.
Queria ter a certeza de que apesar de minhas renúncias e loucuras, alguém me valoriza pelo que sou, não pelo que tenho... Que me veja como um ser humano completo, que abusa demais dos bons sentimentos que a vida lhe proporciona, que dê valor ao que realmente importa, que é meu sentimento... e não brinque com ele. E que esse alguém me peça para que eu nunca mude, para que eu nunca cresça, para que eu seja sempre eu mesmo.
Não quero brigar com o mundo, mas se um dia isso acontecer, quero ter forças suficientes para mostrar a ele que o amor existe... Que ele é superior ao ódio e ao rancor, e que não existe vitória sem humildade e paz.
Quero poder acreditar que mesmo se hoje eu fracassar, amanhã será outro dia, e se eu não desistir dos meus sonhos e propósitos, talvez obterei êxito e serei plenamente feliz.
Que eu nunca deixe minha esperança ser abalada por palavras pessimistas... Que a esperança nunca me pareça um "não" que a gente teima em maquiá-lo de verde e entendê-lo como "sim".

Quero poder ter a liberdade de dizer o que sinto a uma pessoa, de poder dizer a alguém o quanto ele é especial e importante pra mim, sem ter de me preocupar com terceiros... Sem correr o risco de ferir uma ou mais pessoas com esse sentimento.

Quero, um dia, poder dizer às pessoas que nada foi em vão... que o amor existe, que vale a pena se doar às amizades a às pessoas, que a vida é bela sim, e que eu sempre dei o melhor de mim...e que valeu a pena!!!

Mário Quintana

19:26

A AMIZADE E' O SENTIMETO MAIS LINDO DO UNIVERSO.

05:58

Eros e Thanatos (2)

Vou me matar. Pensou na frase várias vezes. Sabia conscientemente de tudo que lhe prendia a esse mundo. Sua esposa, seus filhos. Sete filhos. Nenhum deles crescidos o suficiente.

Mas nada o prendia a esse mundo. A dor de um homem não se explica. É grande, sufocadora demais para se explicar. Diante da grandeza do mundo, do desespero esmagador, o amor não era mais amor, a responsabilidade era irresponsabilidade, a vida era morte.

Vou me matar, chegou a anunciar. Precisava que algo o convencesse que havia outra saída. Nada o convencia. O desespero de não enxergar, de olhar e não ver, de estar e não estar, era maior que o mistério da morte, que a dor dos filhos sem um pai, que a solidão da mulher. Aos poucos qualquer um se convence que nada nesse mundo nos prende aqui. A luta é diária, e se um dia ela se rompe, nada no mundo nos prende aqui.

O desespero crescia dentro, tão fundo que ele não mais o alcançava. Não sabia mais sua razão, não conseguiria explicar se fosse preciso. A luta se rompeu. Quando morto já se está, quando o mistério já se conhece em vida, como se explica a vida?

05:57

Errata

Pesquisando melhor o que eu pretendia com o título passado, conclui: Eros e Thanatos.

05:56

Ethos e Thanatos (1º capítulo)

Vinha chegando seu aniversário. Há mais de meio século atrás seu pai se matava. Uma decisão.

Decisão? Repentina ou refletida? Impulso ou afirmação? Consciente ou inconsciente? Ele não sabia responder, jamais saberia. Esse ato no entanto marcara toda sua vida. Na realidade mudara sua vida.

Sua família teria sido a mesma? O destino de seus irmãos, seu próprio destino, a família que ele constriu, seriam os mesmos? A vida de todos, sem distinção, era diariamente afetada por aquele momento.

Momento em que um homem, privado de tudo que lhe prende ao mundo, de qualquer felicidade, racionalidade, orgulho e esperança, acaba com sua própria vida.

19:10

Primeiro

A cabeça dela deu um giro, quase um nó. Mudou, e de outra forma continuou a mesma. A essência estava lá. Mas já não era mais a mesma. Sua tolerância com algumas coisas acabou, mas sua compreensão cresceu. Calejou. Já não é mais a mesma. Ama o mundo, e o mundo não parece amar ninguém. Ama aqueles que ama, parece redundante, mas quanto mais olha ao redor mais percebe que o normal é não amar aquilo que se ama. Faria tudo por todos, e pouco por ela. Ama o mundo, mas o mundo não parece amar ninguém. Tem muito dentro dela, pouco que consegue explicar e alcançar. Ama o mundo, mas o mundo é ingrato para se amar.

11:00

Respostinha pra dona Gorda

Gordinha, tenho que estudar mas aí vai...

Mesmo sabendo que existem diferentes níveis de egoísmo e que suas causas são independentes e diversas, vou opinar a partir da relação entre o egoísmo e a covardia.

Para mim, a covardia nos torna seres humanos egoístas. Egoístas com o próximo, com seus sentimentos e com sua vida.

Sei também que existem diversas formas de sermos covardes, mas mais uma vez vou restringir o conceito de covardia só para focar minha análise em coisas que andamos discutindo... (sinta-se livre para abrir a análise)

A covardia nesse âmbito é o medo de tomar decisões, fazer escolhas. Em qualquer situação da vida chegamos em um ponto em que nos é imposto decidir, escolher. As escolhas trazem consigo perdas e ganhos. O problema é que as perdas são óbvias, e os ganhos imprevisíveis.

Essa é a dificuldade em tomar decisões, não se quer perder, mas também não se quer deixar de ganhar. Queremos nosso porto seguro, representado por aquilo que já conhecemos. Mas queremos também o novo, o que dá dinâmica à vida, queremos evoluir, progredir, avançar. O avanço implica na perda, e em geral acabamos por muito tempo parados no mesmo lugar para evitá-la.

Isso em si não tem nenhum problema, a vida é nossa, agimos como desejarmos. Se quisermos para sempre estarmos no mesmo lugar, se essa parecer a melhor opção, somos livres para optar. O problema é quando percebemos, mesmo que vagarosamente que a melhor opção é a mudança. Queremos mudar sem abrir mão do que temos como certo.

Nesse momento a covardia vira egoísmo. Arrastamos quem estiver em nossa frente no meio de nossas confusões. Não se para e se analisa a situação, se avança. O avanço em meio à falta de escolhas é egoísmo. Egoísmo puro. Afetamos a vida dos outros por medo de decidirmos nossa própria vida.

E gordinha, quanto a quando podemos nos magoar com as atitudes que consideramos egoístas, acho que isso é subjetivo. Evitando sermos incompreensivas, podemos nos magoar quando bem entendermos. A escolha é nossa.

Beijundas

07:22

Agonizando mas não morto...

Calma dona Patrícia!!! : )

Como alguns dos mil projetos de nossas vidas, esse aqui tá agonizando mas não tá morto ainda não. Acho que demorou para cair a ficha do ano de 2008.

Após um 2007 um tanto turbulento, digo não só pra mim mas também para meus amiguinhos sonhadores e levemente dominados pela utopia, tá começando a cair a ficha de 2008. Ano marcado inicialmente pela ressaca de 2007, começa a se organizar.

Vamos combinar que é difícil manter vários sonhos e ao mesmo tempo não ter quase nenhum de verdade. Alguém me explica como em meio a tantos projetos parece que não existe nenhum? Como um dia que começa 6:00 e acaba as 23:00 parece tão vazio? Mas esse não é o objetivo desse post.

Esse post é só pra dizer que estamos vivos sim dona gorda (ou pelo menos é o que parece por enquanto). E que em meio as confusões, muitas dais quais compartilhamos, esse nosso projetinho continua vivo. Precisando de cuidados intensivos mais vivo.

Euzinha aqui tô só tentando entender por enquanto a dinâmica das pessoas. Por que estamos cada vez mais rodeados de seres egoístas, preocupados com o próprio umbigo e que não enxergam um palmo a sua frente. Por que é mais importante satisfazer desejos próprios e viver imerso em suas próprias confusões do que dar uma espiadinha nas pessoas que estão ao seu lado?

Estamos de volta gordinha...vê se atualiza também hein!!!

07:09

Morreu?

Meninos, se ninguém atualizar essa porra, vou deletar o blog.

E tenho dito.

08:35

Sua viagem de turismo acabou

Patrícia Duarte Rangel – Mestranda em Ciência Política do IUPERJ detida por 50 horas pelas autoridades espanholas.

‘Sua viagem de turismo acabou’. Foram essas as últimas palavras que ouvimos em solo espanhol. Digo, em território internacional, pois estávamos ‘em trânsito’ no tempo em que estivemos indevidamente detidos em Madri, conexão do nosso vôo para Lisboa, onde participaríamos de um congresso da Associação Portuguesa de Ciência Política. Obra do destino ou não, a frase condensa as características de nossa estadia nas dependências da Polícia de Migração: ironia, desdém, maus-tratos, humilhação e ignorância. Durante dois dias, fomos tratados como gado: a nós não era dirigida nenhuma palavra que não ordens, não tivemos o direito de nos pronunciar e muito menos de contestar as falsas afirmações a nosso respeito. Mas não é minha intenção aqui narrar todos os abusos da polícia espanhola ou detalhar a condição sub-humana a qual fomos submetidos. Creio que isso a imprensa brasileira já o fez amplamente. O que acredito ser capaz de fazer no atual momento é contar as duas grandes conclusões às quais cheguei após minha ‘viagem de turismo’: uma se refere à política internacional e a outra, a relações humanas. A primeira conclusão me veio quando ouvi a opinião de um dos chefes de polícia, que discutia com meu colega de mestrado Pedro. A opinião do policial sobre soberania nacional, que representa a do governo espanhol, é uma concepção anacrônica que remonta à formação do Estado-nação. Eles parecem simplesmente ignorar a existência de um Sistema Internacional composto de complexas relações de interdependência. Realmente acreditam que um país possui o direito de agir arbitrariamente, inclusive contra cidadãos de outros, e batem no peito para dizer que todas as suas ações são respaldadas por leis aprovadas pelo Parlamento e, portanto, pelo povo espanhol. Eles possuem uma interpretação esquizofrênica de democracia que eu não sou capaz de compreender e muito menos de explicar. Como considerar legítimos procedimentos que violam os direitos humanos? A segunda conclusão a que cheguei, com base no tratamento cruel que recebemos das autoridades policiais, é que a dimensão da dignidade e do respeito depende de uma noção de reconhecimento que, infelizmente, muitos europeus não desenvolveram em relação aos povos do Sul. Daí os maus-tratos que sofremos em Madri, as perseguições de turcos por skinheads alemães, o assassinato de Jean Charles de Menezes, etc., etc. Esses crimes somente cessarão com mudanças nas práticas sociais e transformações na dimensão jurídica e nos controles institucionais. Em relação a modificações nas regras que regulam a migração, até a polícia espanhola concorda que elas são necessárias. ‘Admito que cometemos abusos, portanto, as regras têm que mudar para que não haja mais casos como o seu’. Foi o que ouvi de um dos poucos policiais que conversaram comigo, na última noite de minha ‘viagem de turismo’. Essas sim, eu gostaria que tivessem sido as últimas palavras a ouvir em solo espanhol, digo, em território internacional.

08:35

Entre a norma e a anomalia

Pedro Luiz Lima – Mestrando em Ciência Política do IUPERJ detido por 50 horas pelas autoridades espanholas.

“Eles praticam um massacre e o chamam de paz.”
Tácito

O lado de dentro da prisão dificilmente pode ser compreendido a partir do lado de fora. O roubo arbitrário e injustificado da liberdade pode ser teorizado das mais diversas maneiras, alcançando os tantos êxitos que advêm da teoria; mas o peso da prisão pode apenas ser sentido – e a razão analítica se rende, então, impotente frente ao sentimento da opressão. Ao mesmo tempo, porém, a incursão relevante na esfera pública exige que da experiência individual se universalizem os conteúdos que dizem respeito à comunidade como um todo. Nesse sentido, há que se buscar uma boa medida entre o insuperável desconforto subjetivo, intrínseco a todas as palavras neste momento, e a necessária referência a uma totalidade com relação a qual o caso específico aparece como epifenômeno.
O relato da dor experimentada nas cinqüenta horas de prisão a que eu e minha colega Patrícia Rangel fomos submetidos no aeroporto de Madri – relato este já parcialmente publicado nos mais diversos meios de comunicação – guarda certamente a sua importância para a divulgação de uma conduta autoritária absurda que vinha coagindo centenas de brasileiros. Mas, para além da descrição minuciosa dos maus tratos e da truculência dos guardas espanhóis, é tanto ou mais importante bem relacionar o caso dos dois estudantes indevidamente “inadmitidos” (eufemismo preferido da oficialidade espanhola) ao quadro geral das “inadmissões” em massa de brasileiros nos últimos tempos.
Com este intuito, é preciso identificar duas chaves interpretativas possíveis para a análise da nossa detenção. Uma primeira leitura dos acontecimentos parece sugerir uma versão que eu chamaria de hipótese da anomalia (ou da disfuncionalidade). Por esse viés, trata-se do seguinte: as normas da União Européia, mais especificamente do Espaço Schengen, estariam em conformidade com os princípios do Estado de direito e, sendo assim, seriam legítimas. A partir desta legitimidade – já duvidosa por si mesma, dado o déficit democrático de seu fundamento –, a polícia de fronteira espanhola nada mais realizaria do que aplicar as normas da maneira mais objetiva possível. Sendo assim, impedir a continuidade da viagem de estudantes que portam todos os documentos exigidos e satisfazem todas as condições para a entrada neste espaço regulado representaria um erro de procedimento. Que este procedimento falho tenha se dado apenas 27 horas depois do nosso enclausuramento revelaria, então, justamente o quão arriscado é fazer a aplicação da norma depender tanto de uma discricionariedade bêbada de preconceitos. Deste eixo de análise, portanto, conclui-se: os estudantes, assim como os outros tantos turistas injustamente detidos, estariam na margem de erro da aplicação da norma e seu aprisionamento por mais de dois dias seria efeito da distorção de preceitos legais legítimos em si mesmos. Por uma disfunção do sistema, centenas de brasileiros teriam sofrido com a prisão e com todos os seus efeitos perversos, físicos e mentais.
A meu juízo, contudo, a anomalia evidente na nossa prisão (minha e de tantos outros brasileiros detidos no arrepio da lei) sugere ainda uma outra leitura. Terá mesmo se devido a uma disfunção do Estado de direito “europeu” a nossa permanência por tantas horas ao sabor das arbitrariedades dos autoritários, quer dizer, das autoridades espanholas? Será que o nosso despejo simboliza apenas isso: um equívoco grave de uma política aguerrida de controle de fronteiras que pôde confundir meros estudantes e turistas com supostos imigrantes ilegais em potencial?
Aqui, eu gostaria de sugerir um outro eixo interpretativo, que toma estes últimos eventos não como conseqüências não-intencionais de uma norma justa, mas antes como efeitos intrínsecos de uma política de controle cada vez mais agressiva no trato com trabalhadores do sul. Em um mundo sistemicamente dividido entre “turistas e vagabundos” (Zygmunt Bauman), em que uma economia global desenfreada cada vez mais impõe as regras do jogo, todos os trabalhadores do sul representamos um perigo para a estabilidade, evidentemente inexistente e ilusória, do mercado europeu. Em uma palavra: com o rebaixamento do Estado de direito a mero cão de guarda de um regime econômico que quanto mais se globaliza mais parece incapaz de suprir as necessidades humanas, a expulsão paranóica de brasileiros não é apenas um erro de procedimento. Trata-se, antes, do propósito central de uma política de Estado esquizofrenicamente voltada para assegurar as condições naturalistas de um mercado cego às demandas humanas da globalização.
Nesse sentido, enxergar na nossa prisão, minha e de Patrícia Rangel, um mero erro de aplicação de normas leva a uma aceitação silenciosa da sistêmica divisão da humanidade entre turistas e vagabundos. Seríamos apenas “turistas” e o problema estaria em terem nos confundido com “vagabundos”. Em outros termos, seríamos dinheiro em potencial para a União Européia, e o erro estaria em terem nos confundido com meros homens. Mas se ainda defendemos a possibilidade de que a liberdade dos homens se sobreponha à liberdade do dinheiro e das mercadorias, então há que se ver neste caso um sofrido sintoma de uma neurótica política européia de controle que, não por acaso, tem na Espanha um de seus mais truculentos agentes.
Resta esperar, enfim, que a publicização do sofrimento de tantos brasileiros e a privação de nossa liberdade sirvam, ao menos, para construirmos um olhar reflexivo sobre uma barbárie que se reproduz, no coração mesmo da assim chamada “civilização européia”, como segunda natureza.

09:34

salva-vidas

Quem faz um poema abre uma janela.Respira, tu que estás numa cela abafada,esse ar que entra por ela.Por isso é que os poemas têm ritmo- para que possas profundamente respirar.Quem faz um poema salva um afogado.

Mario Quintana