03:29

o sol por entre as árvores


O amor é como duas solidões protegendo-se uma à outra”. Não é à toa que a famosa frase de Rainer Maria Rilke aparece logo na abertura de O sol por entre as árvores, o único romance escrito pela japonesa Harumi Morita, falecida em 2002 num acidente de carro na Inglaterra, aos 24 anos.

Considerada um talento da nova geração, Morita seguiu o caminho inicial de quase qualquer escritor moderninho. Escrevia sem grandes pretensões em um blog na internet e, quando menos percebeu, seu espaço virtual já era um fenômeno no Japão e em boa parte da Ásia continental, com uma média de 10 mil acessos diários. Daí foi só uma questão de tempo para ter seu primeiro livro encomendado por uma pequena editora de Tóquio.

Seguindo essa tendência, o que podíamos esperar era um livro urbano, com uma linguagem estruturalmente empobrecida, sobre a desculpa de se adequar á realidade do mundo pós-11 de setembro, e que contasse as agruras de uma vida tediosa onde jovens se atiram a vícios ou qualquer tipo de subversão, buscando preencher o vazio de uma sociedade consumista ou qualquer blábláblá que justificasse a filosofia Homer Simpson adotada pela juventude de classe média (não interessa mais se ocidental ou oriental).

No entanto, Morita não seguiu o caminho mais fácil. Encerrou as atividades de seu blog e trancou-se numa pequena casa alugada no interior do Japão. Um ano depois, saiu de lá com o que o prêmio Nobel de literatura, Kenzaburo Oe, definiu como “o maior romance escrito em japonês nos últimos 20 anos”.

A história por trás de O sol por entre as árvores é tão simples que assusta. Passado na zona rural do atual Japão, o livro conta a vida da família Koda durante um ano em que, basicamente, nada de importante acontece. Não há um personagem central e a história flui através de 4 eixos que correspondem aos diários de cada membro da família: Janichiro, sua esposa Kinko, e o casal de filhos Chise e Hideki.


Aos poucos vamos sabendo um pouco mais da história dos Koda que, apesar de serem uma família, parecem não serem suficientes um para o outro. Janichiro e Kinko casaram-se em Tókio nos anos 70 e alimentavam sonhos artísticos-revolucionários que ambos sabiam não ter nenhuma condição de realizar. Fugindo de suas próprias frustrações, o casal já havia ensaiado uma fuga da capital para o campo, mas foi inibido pela mesma falta de coragem que também os impediu de aceitar a proposta de um primo para abrir uma editora, o que significava também largar seus empregos no Estado. Incapazes de fazer algo para si mesmos, os Koda encontraram na doença respiratória de seu primeiro filho, Hideki, a oportunidade de realizar esse sonho migratório e se mudaram de vez para a zona rural. Lá, Junichiro pretendia realizar o sonho de escrever um livro e Kinko se dedicaria a abrir uma escola.

No entanto, as coisas não aconteceram da forma como ambos imaginavam. Junichiro passou um ano e chegou a escrever um livro inteiro, mas sua ambição e sua insegurança o impediram sequer de enviar os originais para uma editora. Assim, em um ritual que simboliza toda sua personalidade dramática, queima os originais no jardim durante o inverno. Kinko, por sua vez, entra de sócia numa escola local, que não lhe realiza como educadora, mas também não lhe dá motivos para reclamar. Impaciente e desiludida abandona o cargo na diretoria para assumir como professora.

Nesse ínterim nasce Chise, que, junto com seu irmão mais velho, cresce num ambiente corrompido e de desesperança. Ambos, na adolescência, já começam a despertar traços de personalidade conflitantes com os pais. Chise é rala, superficial, pode-se dizer até fútil, e Hideki não é diferente. Ambos odeiam a vida no campo e sonham em ir para cidade. Não têm ambições, além de possuir as últimas coisas da moda, ou qualquer coisa que apareça nos comerciais. Cresceram afastados de valores familiares e, assim como seus amigos, evoluíram conforme o mundo se mostrava na tela da TV.

Tal palco poderia estar montado para a exposição de um grande acontecimento trágico-familiar, mas não é por aí que Mirota decide nos levar. Ao invés disso, autora nos mostra a delicadeza que não podemos ver, aquilo que está dentro da escuridão do coração. Tudo é contado através dos diários dos personagens, mas poderíamos dizer também que nada é contado nesses diários, pelo menos não explicitamente. Os acontecimentos não são os fatores centrais da história. Janichiro e Kinko vivem uma amargurada solidão a dois, com a qual já estão acostumados e condenados. Os filhos, apesar dos indícios de personalidade vulgar, ainda estão muito novos para qualquer ruptura com a vida e ainda refletem muito da frustração que observam nos pais. Assim, sabemos que algo irá acontecer com essa família, que logo ela irá se desintegrar, mas não será agora, diante dos nossos olhos. Estamos olhando para um momento onde ainda existe uma salvação, mesmo que fadada ao fracasso.

O leitor desses diários, então, assume totalmente a condição de um Deus, capaz de observar as pessoas não só pelos seus atos, mas também pelos seus reais sentimentos, e incapaz de julgá-los além do que realmente são. Fica difícil não sentir pena de Junichiro quando ele se lembra de como amava sua esposa e de como esse sentimento se perdeu diante dos seus olhos. Através de lembranças, ele busca esse amor perdido e adormece sobre o diário. No dia seguinte, as anotações são: "Não vi Kinko o dia todo. Queria conversar com ela sobre um sonho que tive noite passada. Há tempos não lhe conto meus sonhos porque há tempos não sonhava. Amanhã certamente já terei esquecido.”

Outra passagem tocante é quando Hideki comenta: " Hoje magoei profundamente mamãe e me arrependo. Quando ela chegou do trabalho agiu como se nada tivesse acontecido. Botou meu jantar e perguntou como havia sido meu dia na escola. Ao contrário do que ela imagina, agir assim só me faz sentir pior. Envergonhado por sua superioridade, fui para o quarto e deixei-a sozinha. Agora, escuto-a chorando."

Mirota trabalha sutilmente a eterna falta de comunicação entre os homens e suas conseqüências mais profundas, demonstrando essa eterna busca para preencher um vazio inerente à solidão humana, que, na verdade, não pode ser preenchido, mas sim protegido e cuidado, como disse Rilke. Com propriedade, a autora faz seus personagens confessarem todo um mundo de dor e angústia que possuem dentro de si, pois acredita que só assim eles serão livres para viver uma vida sem culpa. Depois, deixa-os expostos para que nós, os leitores, possamos salvá-los, virando a última página e não os esquecendo jamais.

06:29

there is a light that never goes out
there is a light that never goes out
there is a light that never goes out
there is a light that never goes out
there is a light that never goes out
there is a light that never goes out
there is a light that never goes out
there is a light that never goes out
there is a light that never goes out
there is a light that never goes out
there is a light.......

13:47

Essa noite sonhei que o vão entre o céu e a terra
Era coberto por uma melodia suave e inefável
E vivíamos como que embriagados
Confortavelmente adormecidos
Sonhando que nunca havíamos existido.

Senhor, se és meu guia,
Porque me falas em línguas que não entendo.

10:38

hoje é sábado
amanhã é domingo
dia de todos os santos
dia de todos os prantos


dia de falar a verdade
a quem se ama, e a mentira
a quem se ama mais ainda

dia que não é dia
sem o dia seguinte, dia
de tardes longas como mundos

de noites tristes como gerânio

dias abandonados sobre dias
de espaços vazios entre as horas
onde guardamos um único silêncio

que se perde por debaixo dos nossos olhos

hoje é sábado, amanhã é domingo

12:17


Andava sem pressa, mas sequer percebia a si mesmo no meio de tantos, que também andavam, para algum lugar que ele não conhecia. Sentia-se pesado, a ponto de chorar, no entanto sabia que não o faria. Fizera muito calor o dia inteiro, mas agora nuvens já apareciam pesadas no horizonte e com certeza choveria. Gostava dessa época do ano, dessas chuvas repentinas, de acordar com o barulho daquelas gotas grossas tamborilando nas janelas, dos trovões que resplandeciam nas montanhas do outro lado da cidade.

O pensamento fugia. Nada parecia ser capaz de chamar sua atenção. Passou pela banca de jornais, por uma lanchonete. Estava com fome, mas não queria comer. O túnel que descia para o metrô borbulhava de gente saindo do trabalho e voltando pra casa. Apesar disso, estava silencioso, como ele.

Sentou-se num banco de um jardim próximo, perto de um parquinho onde algumas crianças uniformizadas brincavam à vista indiferente de suas babás. Uma delas trazia um cachorrinho, que se empenhava em romper a casca de dos vários tamarindos que se espalhavam pelo chão. Isso o fez sorrir.

Ficou muito tempo ali observando, até que todos foram embora. Nada acontecia e desacostumara-se àquilo. Estava terrivelmente cansado e as primeiras gotas começavam a cair sobre seus ombros. Era tarde e sentia muitas saudades.

10:36

junho, 2005

teu cabelo é feito de flor
de rosa vermelha,
feito noite de inverno

teu toque é silêncio
neve que cai abandonada
sobre a minha solidão


e assim eu prossigo,
pintado na escuridão vazia das ruas
desconstruindo as horas

(nada nesse mundo é tão belo
como as violetas que caem do céu
quando você sorri )

04:52

Crocodilos e Borboletas; parte 2




é verdade,borboleta, sem perceber estou aqui , dentro do mesmo quadro, entortando as mesmas linhas, preenchendo os mesmos espaços com tinta azul e branca,que é pra pintar teu céu ,coisas fulgazes , chuva lilás, teu veneno está em teu voar, no que ele deixa pelo ar, que troca, vira a montanha, caem os guarda-chuvas, uma noite só suficiente para que eu termine de beijar as dobras do seus dedos.Não houve um momento em que eu não pudesse ouvir, mesmo à milhas de distância, a dança dos teus cabelos soturnos, os tigres escondidos no seu pescoço. Beijo-os , beijo-os a todo instante, em minha boca nasce tua floresta, broto e grão, molho tua horta, seco teu pranto demasiado salgado por horas que nunca terminam. Infinito é teu hábito , tua única forma de amar devagar, de menosprezar as artimanhas do tempo em função do toque úmido capaz de paralisar a noite e as nuvens. Ninguém ouve teu cantar, mas eu vejo.Ninguém sorri teus sorrisos, mas eu sonho.Ninguém respira a flor na tua barriga, mas eu entendo que coisas molhadas não secam jamais. Borboleta, onde você carrega tua tristeza se não no misticismo das tuas asas ou nessas manchas pelo seu corpo, nas tuas pequenas rosas,na tua escuridão. Caio em mim, sobre meu desencanto, repito palavras porque não sei inventá-las ,danço ,escuto as estrelas, escrevo clichês de amor, crio o medo. Hoje é feriado , em algum lugar existem cachoeiras nas quais eu nunca vou me banhar, mas mesmo assim eu enxergo além dos teus tornozelos, sofro pelos teus gêmeos na água gelada, rezo a alguém que te diga para me perdoar, por ser tão inseguro, por não ser um só nem muitos nem tantos nem poucos nem nunca.

Não há pretensão nenhuma em noites quentes como essa. Boto minha cadeira na varanda, escuto o lamento nos sorrisos das pessoas que passam, divido com elas a angústia de não possuir nada, mas minto, minto o tempo todo, porque mentindo se constrói uma verdade tão verdadeira quanto qualquer outra .É tudo uma questão de escolhas e escolher qual verdade é tão difícil quanto decidir que camisa usar num dia de trabalho.Não gosto de filosofia, tudo que sei foi o vento quem me ensinou e estou dividindo com você agora porque tenho muito o pouco a dizer.

Escuto bem longe o colapso do outono, eu estou aqui, as canções de guerra, eu estou aqui, tambores e velhas ilustrações, eu estou aqui , um sono sem sonhos, eu estou aqui. Para quando você sentir vontade de cantar, borboleta, eu estou aqui.

10:19

Boa Noite, Ternura


Na verdade o que me levou a escrever esse livro foi que ele era a única forma de manter-me vivo. Há 3 anos cheguei a um ponto onde a vida só me deixou dois caminhos: ou escrevia, ou me suicidava. Não espero que as pessoas entendam isso literalmente, porque realmente, falando assim, soa um tanto dramático e prepotente. Mas pra mim era isso bem claro quando comecei a escrever e essa condição acaba aparecendo em todas as histórias que escrevi.

Não deixa de ser, então, o resultado de uma escolha pela vida, por mais estranho que isso possa soar para aqueles que já leram o trabalho. Acima de tudo, o que tentei fazer foi uma dissecação das relações humanas nas diversas maneiras possíveis, dentro de uma gama de contextos que achei adequada para destacar certos pontos que me pareciam importantes porque, antes mesmo de começar, já sabia que este seria um livro que escreveria para minha salvação pessoal exclusiva. Não tinha outra escolha e sabia que só havia uma forma de escrevê-lo. Antes de escrever a primeira frase já sabia que só poderia haver uma primeira frase. Qualquer erro, qualquer desleixo, seria como um passo para meu próprio fim.

Isso, obviamente, tornou tudo muito doloroso. Com certeza, as duas primeiras histórias foram as mais difíceis, porque são totalmente pessoais. Mas era algo que eu devia fazer e, resignadamente, agüentei todo o sangue e lágrimas que elas me fizeram escorrer. A parti daí, pude perceber que a lógica que guiaria meu processo seria a do passado, a da memória. Foi então que, a partir do terceiro conto, os personagens começam a se identificar e se relacionar cada vez mais com seu passado, com suas lembranças. Os contos então, passam a ser contos dentro de contos, mutáveis como o passado de cada um de nós, que selecionamos e contamos conforme nosso critério. Não existe um passado, apenas. Cada um de nós possui um tempo anterior que só pode ser definido e sentido em nós mesmos.

Sei que, até aí, não há nada de inovador. Proust já fez isso, e ninguém será capaz de superá-lo, muito menos eu. Mas veja bem, esse livro, pra mim, é como um quebra-cabeça de tudo que vivi e que fui montando para tentar encontrar todo que poderia me levar a uma certa rendição que eu tanto procurava. Nesse ponto, e isso falo com a maior humildade, creio que fui levado a escrever pelos mesmos motivos de Proust. O resultado é que, claro, saiu muito diferente.

Então, é verdade que quase todos os contos remetem a um tema principal que é o amor e a interação entre dois personagens, no máximo três. Isso, sem dúvida, não foi impensado. Nada no mundo pode infligir maior dor numa pessoa do que outra pessoa, nem nada dura tanto nem danifica tanto do que a dor proporcionada emocionalmente por outra pessoa. Só o ser humano é capaz de provocar dores que não são físicas, que fogem de qualquer possibilidade científica de cura. Um delicado equilíbrio é o responsável por manter as pessoas juntas em qualquer tipo de relação, seja ela filial, fraternal ou conjugal. Quando esse delicado equilíbrio se rompe, existe um mundo que é afetado. Ninguém é capaz e passar pela vida sem uma desilusão, sem cicatrizes que chegam tão fundo a ponto de não sumirem nunca mais. No entanto, para sobreviver a isso, e acima de tudo sabemos que temos que sobreviver, o mundo muda e tenta nos levar adiante. Uns conseguem com mais facilidade, outros não. Alguns recorrem a táticas inebriantes, ou manipulam suas próprias lembranças. Afinal, depois de tudo, o que sobra é sempre a lembrança e nossa capacidade de lidar com ela.



Assim, o que quero dizer é que tudo que está nesse livro é um aceno de adeus a mim e a tudo que eu levo. Uma forma de tentar sobreviver da melhor maneira possível a tudo que vivia na época que comecei a escrevê-lo. Não sei se funcionará para outras pessoas, nem acho que essa seja a intenção. Como disse, cada um lambe da forma que puder as feridas que possui. Nunca recriminei aqueles que tiram sua própria vida, nem considero uma fraqueza ou covardia do que os fazem. Se eles pudessem, tenho certeza, escolheriam ainda estar vivo. Eu tive sorte, muita sorte, podia escrever um livro, e foi o que fiz.