Considerada um talento da nova geração, Morita seguiu o caminho inicial de quase qualquer escritor moderninho. Escrevia sem grandes pretensões em um blog na internet e, quando menos percebeu, seu espaço virtual já era um fenômeno no Japão e em boa parte da Ásia continental, com uma média de 10 mil acessos diários. Daí foi só uma questão de tempo para ter seu primeiro livro encomendado por uma pequena editora de Tóquio.
Seguindo essa tendência, o que podíamos esperar era um livro urbano, com uma linguagem estruturalmente empobrecida, sobre a desculpa de se adequar á realidade do mundo pós-11 de setembro, e que contasse as agruras de uma vida tediosa onde jovens se atiram a vícios ou qualquer tipo de subversão, buscando preencher o vazio de uma sociedade consumista ou qualquer blábláblá que justificasse a filosofia Homer Simpson adotada pela juventude de classe média (não interessa mais se ocidental ou oriental).
No entanto, Morita não seguiu o caminho mais fácil. Encerrou as atividades de seu blog e trancou-se numa pequena casa alugada no interior do Japão. Um ano depois, saiu de lá com o que o prêmio Nobel de literatura, Kenzaburo Oe, definiu como “o maior romance escrito em japonês nos últimos 20 anos”.
A história por trás de O sol por entre as árvores é tão simples que assusta. Passado na zona rural do atual Japão, o livro conta a vida da família Koda durante um ano em que, basicamente, nada de importante acontece. Não há um personagem central e a história flui através de 4 eixos que correspondem aos diários de cada membro da família: Janichiro, sua esposa Kinko, e o casal de filhos Chise e Hideki.
Aos poucos vamos sabendo um pouco mais da história dos Koda que, apesar de serem uma família, parecem não serem suficientes um para o outro. Janichiro e Kinko casaram-se em Tókio nos anos 70 e alimentavam sonhos artísticos-revolucionários que ambos sabiam não ter nenhuma condição de realizar. Fugindo de suas próprias frustrações, o casal já havia ensaiado uma fuga da capital para o campo, mas foi inibido pela mesma falta de coragem que também os impediu de aceitar a proposta de um primo para abrir uma editora, o que significava também largar seus empregos no Estado. Incapazes de fazer algo para si mesmos, os Koda encontraram na doença respiratória de seu primeiro filho, Hideki, a oportunidade de realizar esse sonho migratório e se mudaram de vez para a zona rural. Lá, Junichiro pretendia realizar o sonho de escrever um livro e Kinko se dedicaria a abrir uma escola.
No entanto, as coisas não aconteceram da forma como ambos imaginavam. Junichiro passou um ano e chegou a escrever um livro inteiro, mas sua ambição e sua insegurança o impediram sequer de enviar os originais para uma editora. Assim, em um ritual que simboliza toda sua personalidade dramática, queima os originais no jardim durante o inverno. Kinko, por sua vez, entra de sócia numa escola local, que não lhe realiza como educadora, mas também não lhe dá motivos para reclamar. Impaciente e desiludida abandona o cargo na diretoria para assumir como professora.
Nesse ínterim nasce Chise, que, junto com seu irmão mais velho, cresce num ambiente corrompido e de desesperança. Ambos, na adolescência, já começam a despertar traços de personalidade conflitantes com os pais. Chise é rala, superficial, pode-se dizer até fútil, e Hideki não é diferente. Ambos odeiam a vida no campo e sonham em ir para cidade. Não têm ambições, além de possuir as últimas coisas da moda, ou qualquer coisa que apareça nos comerciais. Cresceram afastados de valores familiares e, assim como seus amigos, evoluíram conforme o mundo se mostrava na tela da TV.
Tal palco poderia estar montado para a exposição de um grande acontecimento trágico-familiar, mas não é por aí que Mirota decide nos levar. Ao invés disso, autora nos mostra a delicadeza que não podemos ver, aquilo que está dentro da escuridão do coração. Tudo é contado através dos diários dos personagens, mas poderíamos dizer também que nada é contado nesses diários, pelo menos não explicitamente. Os acontecimentos não são os fatores centrais da história. Janichiro e Kinko vivem uma amargurada solidão a dois, com a qual já estão acostumados e condenados. Os filhos, apesar dos indícios de personalidade vulgar, ainda estão muito novos para qualquer ruptura com a vida e ainda refletem muito da frustração que observam nos pais. Assim, sabemos que algo irá acontecer com essa família, que logo ela irá se desintegrar, mas não será agora, diante dos nossos olhos. Estamos olhando para um momento onde ainda existe uma salvação, mesmo que fadada ao fracasso.
O leitor desses diários, então, assume totalmente a condição de um Deus, capaz de observar as pessoas não só pelos seus atos, mas também pelos seus reais sentimentos, e incapaz de julgá-los além do que realmente são. Fica difícil não sentir pena de Junichiro quando ele se lembra de como amava sua esposa e de como esse sentimento se perdeu diante dos seus olhos. Através de lembranças, ele busca esse amor perdido e adormece sobre o diário. No dia seguinte, as anotações são: "Não vi Kinko o dia todo. Queria conversar com ela sobre um sonho que tive noite passada. Há tempos não lhe conto meus sonhos porque há tempos não sonhava. Amanhã certamente já terei esquecido.”
Outra passagem tocante é quando Hideki comenta: " Hoje magoei profundamente mamãe e me arrependo. Quando ela chegou do trabalho agiu como se nada tivesse acontecido. Botou meu jantar e perguntou como havia sido meu dia na escola. Ao contrário do que ela imagina, agir assim só me faz sentir pior. Envergonhado por sua superioridade, fui para o quarto e deixei-a sozinha. Agora, escuto-a chorando."
Mirota trabalha sutilmente a eterna falta de comunicação entre os homens e suas conseqüências mais profundas, demonstrando essa eterna busca para preencher um vazio inerente à solidão humana, que, na verdade, não pode ser preenchido, mas sim protegido e cuidado, como disse Rilke. Com propriedade, a autora faz seus personagens confessarem todo um mundo de dor e angústia que possuem dentro de si, pois acredita que só assim eles serão livres para viver uma vida sem culpa. Depois, deixa-os expostos para que nós, os leitores, possamos salvá-los, virando a última página e não os esquecendo jamais.


