18:11

divino (parte 1)

Divino queria ser deus. Assim, com minúsculas. Nunca me disse o porquê.

Nuca falou de outra coisa, na verdade. Todo dia era isso. Todo dia ele aparecia na padaria, pedia uma média, e começava com seus planos de ser deus. Às vezes perguntava sobre o Fluminense.

Achavam o Divino louco, mas eu gostava dele.

Tinha dias que eu me atrasava para o trabalho, distraído com os planos de divino. Filósofo amador que eu era, sempre dava conversa. Não acreditava em Deus, mas de vez em quando acreditava no divino.

Não sei o que ele fazia, digo, qual sua profissão . Só o via na padaria, de manhã, de segunda à sexta. Chegava e ele já estava lá, e lá permanecia quando eu acabava de comer e seguia rumo ao centro da cidade. Era magro, o divino.

Um dia apareceu um pouco tarde, mais eufórico do que o normal. Quase lá, ele dizia, e se calava. Parecia ter forte dores, os olhos se contraíam de vez em quando.Só bebeu água naquele dia e nem se importou quando disseram que o Fluminense havia vencido o Botafogo. Que bom, disse.

Parecia melhor na manhã seguinte, mas com certeza não havia dormido. Divino, você parece cansado, não dorme há quanto tempo? Não posso dormir, preciso cuidar deles, era sua resposta. Todos riam, eu me preocupava.

Aos poucos foi definhando. Sua magreza foi chegando aos limites da carne. Suas olheiras eram duas violetas murchas sob seus olhos. Não penteava o cabelo e não mudava de roupa, mas pelo menos não fedia. Só tomava água agora, nem uma garrafa inteira. Ia morrer, o divino.

Nessa época, não respondia às minhas perguntas. Olhava-me parecendo sempre não entender. Botava a mão nos cabelos desgrenhados e ronronava que faltava alguma coisa, alguma coisa.

Um dia divino não apareceu na padaria, nem no dia seguinte, nem no outro. Morrera? Era cedo demais pra dizer, dizia o balconista, mas não seria nenhuma surpresa. Vai ver alguém o levou pro sanatório, outros falavam. De segunda à sexta, nem sinal de Divino.
Sábado de manhã resolvi dar uma passada onde certa vez ele me disse que morava. Era uma vila, dois quarteirões da padaria, para um lado onde eu nunca tinha ido, novo no bairro que era. Mesmo assim, quando vi o rabecão dos bombeiros, mesmo de longe, suspeitei que era ali.
(continua..)
Fábio

1 comments:

Unknown said...

cadê a parte II? vou matar meu marido!