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Crocodilos e Borboletas; parte 2




é verdade,borboleta, sem perceber estou aqui , dentro do mesmo quadro, entortando as mesmas linhas, preenchendo os mesmos espaços com tinta azul e branca,que é pra pintar teu céu ,coisas fulgazes , chuva lilás, teu veneno está em teu voar, no que ele deixa pelo ar, que troca, vira a montanha, caem os guarda-chuvas, uma noite só suficiente para que eu termine de beijar as dobras do seus dedos.Não houve um momento em que eu não pudesse ouvir, mesmo à milhas de distância, a dança dos teus cabelos soturnos, os tigres escondidos no seu pescoço. Beijo-os , beijo-os a todo instante, em minha boca nasce tua floresta, broto e grão, molho tua horta, seco teu pranto demasiado salgado por horas que nunca terminam. Infinito é teu hábito , tua única forma de amar devagar, de menosprezar as artimanhas do tempo em função do toque úmido capaz de paralisar a noite e as nuvens. Ninguém ouve teu cantar, mas eu vejo.Ninguém sorri teus sorrisos, mas eu sonho.Ninguém respira a flor na tua barriga, mas eu entendo que coisas molhadas não secam jamais. Borboleta, onde você carrega tua tristeza se não no misticismo das tuas asas ou nessas manchas pelo seu corpo, nas tuas pequenas rosas,na tua escuridão. Caio em mim, sobre meu desencanto, repito palavras porque não sei inventá-las ,danço ,escuto as estrelas, escrevo clichês de amor, crio o medo. Hoje é feriado , em algum lugar existem cachoeiras nas quais eu nunca vou me banhar, mas mesmo assim eu enxergo além dos teus tornozelos, sofro pelos teus gêmeos na água gelada, rezo a alguém que te diga para me perdoar, por ser tão inseguro, por não ser um só nem muitos nem tantos nem poucos nem nunca.

Não há pretensão nenhuma em noites quentes como essa. Boto minha cadeira na varanda, escuto o lamento nos sorrisos das pessoas que passam, divido com elas a angústia de não possuir nada, mas minto, minto o tempo todo, porque mentindo se constrói uma verdade tão verdadeira quanto qualquer outra .É tudo uma questão de escolhas e escolher qual verdade é tão difícil quanto decidir que camisa usar num dia de trabalho.Não gosto de filosofia, tudo que sei foi o vento quem me ensinou e estou dividindo com você agora porque tenho muito o pouco a dizer.

Escuto bem longe o colapso do outono, eu estou aqui, as canções de guerra, eu estou aqui, tambores e velhas ilustrações, eu estou aqui , um sono sem sonhos, eu estou aqui. Para quando você sentir vontade de cantar, borboleta, eu estou aqui.

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