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O renomado lingüista Oliver Schuh veio a falecer pouco depois do lançamento de O Homem Sem Fim, livro que ele próprio considerou o mais importante de sua carreira. A empolgação do autor com sua própria obra foi tanta que o faz sair de sua notória reclusão para dar algumas entrevistas e palestras, com o intuito de divulgar e explicar esse seu último trabalho. Por isso, me eximo de escrever qualquer resenha e passo as palavras ao próprio autor, reproduzindo o trecho de uma entrevista concedida ao periódico francês Le Xis, em 29 de setembro de 1973. A tradução, feita do espanhol, é minha.

Le Xis: Após 10 anos o sr. volta a publicar um livro, acabando com um longo período de silêncio e retomando uma carreira que o sr. mesmo afirmara já ter terminado. Quais os motivos para esse retorno?

Schuh: De fato, já tinha considerado como encerrada minha carreira e já decidira abandonar de vez as grandes atividades intelectuais e me dedicar apenas aos meus netos e minha família. Acreditava, e ainda acredito de certa forma, que não tinha mais forças ou disposição para tal coisa. No entanto, continuei dando aulas na faculdade e isso acabava não me deixando desligar totalmente do meio acadêmico. Foi aí que caíram em minhas mãos os trabalhos de Hamm Junk, particularmente os dois primeiros livros, Gatos Selvagens e África. Interessei-me na hora, principalmente ao constatar que não havia praticamente nenhuma produção acadêmica sobre sua obra, uma vez que ela havia sido quase toda destruída pelo regime nazista e não ganhara traduções. Logo percebi que os exemplares que tinha eram muito raros. Decidi que valia à pena reunir um pouco das minhas últimas forças e me aventurar em mais essa empreitada. Minha esposa, obviamente, não ficou muito satisfeita, afinal, a idéia era fazer um pequeno artigo, que não me ocupasse mais de um ou dois meses trabalho, mas acabou virando um livro de 500 páginas que me consumiu dez anos.

Lê Xis: Como isso se deu? Essa transformação de artigo em livro?

Schuh: Logo que comecei a pesquisar sobre Junk soube que ele ainda havia escrito dois livros: A História do Fogo e O Abismo das Coisas. Esses dois livros eram muito diferentes do que aqueles que eu já possuía. Era uma outra sintaxe, um outro autor. Mas todos eram muito interessantes porque tinham semelhanças que eu não pude distinguir na hora. Foi buscando informações sobre a vida de Junk que pude entender, finalmente, que seus livros, ou melhor, que sua linguagem, era um verdadeiro labirinto. Era como se Junk tivesse inveja de deus e quisesse, através da linguagem, construir um novo mundo em algum lugar que nem ele mesmo sabia. Poderia ter parado a análise aí e ter feito o artigo, mas o vício de anos e anos dedicados à pesquisa me fez a abrir a porta do labirinto. E ali fiquei durante dez anos, creio.

Lê Xis: O sr acabou fazendo, pela primeira vez em sua obra, um livro que vai além da análise literária e incorpora muitos aspectos biográficos. Por que essa escolha?

Schuh: Bom você ter ressaltado que foi uma escolha, porque de fato foi assim. Cheguei a completar um manuscrito feito dentro dos padrões de todos os meus outros trabalhos, mas algo me dizia que não estava certo, que faltava alguma coisa, que aquilo poderia render muito mais. Minhas pesquisas sobre a vida de Junk haviam sido interrompidas pela escassez de material. Tudo sobre sua vida era muito irregular e não havia nada de concreto. Sabia que havia lutado na primeira guerra, que havia passado alguns períodos em sanatórios na Alemanha e na Itália, e de sua viagem à África que acabou virando uma fuga da perseguição nazista. Mas nada disso era oficial e não me sentia seguro suficiente para explorar isso no trabalho. No entanto, uma vez dentro do labirinto, vi que não conseguiria retornar até chegar ao fim. Foi então que deixei de lado a parte lingüística e comecei numa função inédita em minha carreira, a de biógrafo. Fiz inúmeras viagens, buscando fontes primárias sobre sua vida, e finalmente recolhi informações suficientemente fidedignas para completar o trabalho.

Lê Xis: Recentemente o professor Xaval publicou um pequeno estudo sobre Junk, onde contradiz alguns fatos que estão no seu trabalho...

Schuh: Não li o trabalho de Xaval, e não sei se pretendo ler. Parece que ele afirma que Junk era desconhecido dos nazistas e foi ele mesmo que queimou todas as suas obras durante uma de suas crises mentais. No entanto, prefiro confiar nas minhas fontes. Junk era judeu e como sabemos isso implicava numa série de coisas. Acho que ninguém será capaz de desvendar completamente a vida de Junk. Durante minha pesquisa, às vezes, senti como se ele tivesse feito questão de não existir, de não deixar traços de sua existência além de seus livros. Na verdade, acredito que uma de suas muitas paranóias era de que ele mesmo, cedo ou tarde, se tornaria um personagem de seus próprios livros. Sua mente chegou a um ponto onde o que ele criava na literatura se tornava real para ele. Nossas cabeças, consideradas racionais, não conseguem entender a profundidade do que isso implica. Não é como um louco que vemos num filme, normalmente ligado a alucinações. Não, Junk levou sua paranóia a um grau que os próprios relatórios dos hospitais onde ele passou afirmam ser inédito até então. No entanto, temos a sorte de ter isso documentado de uma forma muito menos hermética do que imaginaríamos. Junk tinha uma mente doentia, mas que funcionava quando se tratava de linguagem e foi nisso que eu foquei minha obra. Claro que acho importante, como disse, sabermos sua biografia, mas não sua biografia factual, pois essa é impossível de ser refeita de forma objetiva. O que interessa em Junk, para mim, é a biografia da sua loucura, da sua dor, e de como ele jogou isso tudo na sua linguagem e conseguiu fazer arte.

Lê Xis: E por que o título Homem se Fim?

Schuh: Existe uma frase de Junk, na verdade está em um de seus poemas, que se espalham por toda sua obra, onde ele diz “O que será de nós, homens eternos?” Tive muitos problemas na tradução dessa frase, mas preferi interpretar que a expressão “homens eternos” se refere a ele mesmo. Mas isso tem uma explicação: duas características marcantes que identifiquei na obra de Junk foram a pluralidade de escritores e unicidade do tempo. A pluralidade à que me refiro vai além do narrador, não é uma mudança apenas na voz narrativa. Junk parecia escrever como muitas pessoas ao mesmo tempo. Ele conseguia usar características diferentes em diversas vozes, e confesso que me diverti muito recolhendo e montando esse quebra-cabeça. Pode parecer exagerado, mas a análise a ser feita é muito semelhante a que fazemos com Homero quando perguntamos se ele realmente existiu ou se suas obras não são, na verdade, uma coletânea de história populares reunidas num contexto. A diferença é que Homero viveu a milhares de anos atrás e Junk há poucas décadas. Quanto à unicidade de tempo, parte da percepção de que muitos personagens possuem uma noção completamente inversa da idéias de início e fim. O próprio Junk sofria com distorções semelhantes e a eternidade acaba sendo um tema muito explorado subjetivamente nos seus livros. Acho que ninguém na literatura ocidental conseguiu ir tão fundo na questão metafísica do tempo. Unindo então essas duas características eu percebi que Junk, ao escrever, não se via como um narrador ou um escritor. A linguagem para ele era algo místico, não exercia a simples função de comunicação ou organização como possui para a maioria de nós. A linguagem para ele era como o tempo, e é daí que vem o título. Escrever fazia Junk existir e tenho certeza de que, se ele não tivesse escrito, não teria existido.

1 comments:

P.R. said...

oliver schuh é meu escritor favorito. ninguem supera esse homem! como diz o professor lessa, tem que ler uma vez por semana! Quem é o ignorante aqui que nunca leu Schuh?