Outro dia li uma enquete que reunia um punhado de intelectuais e propunha a seguinte pergunta: qual a maior história de amor já contada? Como em quase todas essas pesquisas, o resultado não foi grande surpresa: Romeu e Julieta, de Shakespeare.
Era muito novo quando li a peça, não lembro de passagens do texto ou coisa assim, mas acho que essa, como muitas outras obras de Shakespeare, é daquelas que todo mundo conhece detalhes, mesmo sem nunca ter aberto o livro. (principalmente graças àquela versão moderninha que foi pro cinema).
Sempre pensei que Shakespeare está pra literatura assim como os Beatles estão para o rock. Você bota um moleque de 15 anos pra ouvir Beatles e ele vai dizer: “é, legalzinho...”. Ele ouve Beatles hoje, depois de já ter consumido quinhentas bandas que não existiriam se os Beatles não tivessem gravado meia dúzia de discos que dariam origem a milhares e milhares de imitações. Não acho exagero dizer: todo mundo imita os Beatles, há mais de 30 anos. Desde então, com raras exceções, pode-se dizer que “não há nada de novo sob o sol”. Não sou beatlemaníaco, longe disso. Até porque é estupidez não admitir que essa influência dos Beatles vem se modificando, se adaptando, se desenvolvendo. A distorção, por exemplo, aquela guitarra suja do Helter Skelter, teve sua ascensão e queda, mas não tem como negar: ela nasceu com os Beatles. Enfim, muitas bandas boas, excelentes, surgiram desde a década de 70, mas isso não é excludente. Copiar os Beatles não faz da banda uma banda ruim ora, pelo contrário.
Muito bem! Com Shakespeare acontece a mesma coisa. Você vai lá e lê Hamlet, por exemplo. É inevitável! Você vira a última página e diz: “É só isso?Esse é o tal do Shakespeare que todo mundo fala? Código Da Vinci é tão bom quanto!!” Ok, peguei pesado, mas deu pra entender, não é? A mesma coisa acontece com Machado de Assis na literatura brasileira, mas isso é tema pra outro post.
Não chego ao exagero do Harold Bloom (um crítico peruado, que baba o ovo do Shakespeare até dizer chegar) de afirmar que Shakespeare inventou o ser humano como conhecemos hoje, e que devíamos cultuá-lo quase como uma religião, pois ele despertou no homem a capacidade total de auto-análise e outras coisas (se você estiver sem nada pra fazer, mas nada mesmo, pode se aventurar pelas quase mil páginas que ele escreveu pra te convencer disso: http://www.planetanews.com/produto/L/11415/shakespeare--a-invencao-do-humano-harold-bloom.html). Sem dúvida, toda a literatura ocidental teria sido muito diferente se Shakespeare não tivesse existido. Não há sentimento humano que não seja abordado na sua obra. Nada fica de fora.
Obviamente, o amor é um dos temas mais freqüentes e sem dúvida seu ponto alto, na obra de Shakespeare, está em Romeu e Julieta. Tal obra deixou se de ser apenas literatura e entrou, há muito, no imaginário da sociedade. A coisa chegou a um estágio de enraizamento cultural tão forte que conhecemos o amor contado por Shakespeare antes mesmo de experimentarmos o amor nas nossas próprias vidas.
A principal particulariedade de Romeu e Julieta, como maior obra de amor de todos os tempos, é que não apresenta final feliz. Pelo contrário: quando a tal adaptação moderninha passou no cinema, todo mundo já sabia o fim, mas, mesmo assim, era uma choradeira total.
Então, não há final feliz. Mas acontece que aquilo que poderia ser interpretado como um estímulo à desesperança, uma vitória das convenções sociais sobre o verdadeiro sentimento humano, é, na verdade a vitória do amor, a eternização do amor. Se o plano do jovem casal tivesse funcionado e ambos conseguissem fugir e tudo mais, o que haveria depois? A história ficaria inconclusa, teria que terminar com um tradicional “Felizes Para Sempre” e, com certeza, se perderia como mais uma entre milhões de histórias de amor que já foram contadas por aí.
A grande sacada de Shakespeare foi desafiar o homem aos seus limites. Revelar sua humanidade à luz do seu pior inimigo: o destino, e mostrar que havia chance de vitória. A eternidade só poderia ser alcançada pelo amor incondicional, o amor súbito, o amor que não se acaba. O amor nunca vai ser capaz de fugir da vida e, consequentemente, da morte, mas, acima de tudo, existe uma capacidade de sonhar e de se elevar além do que é sentimento. A espiritualidade plena, o caminho da salvação, a isso Shakespeare chama amor, e é a isso que ele põe em Romeu e Julieta. Ao mesmo tempo ele tenta mostrar que só no duplo, no outro, cada um se encontra. Ao depender do tempo para viver, o homem se torna vulnerável, passa a ser uma memória turva, um reflexo borrado do que um dia ele já foi. Não podemos confundir isso com desapego pela vida, pois, na verdade é exatamente o contrário, é o elevar da vida ao status supremo, de atemporalidade.
O homem é um ser solitário, abandonado, e essa é sua constante maldição. É preciso achar o caminho de volta e isso só é possível com a ajuda de uma outra alma. Essa é a conjunção de Romeu e Julieta e é isso que torna a morte deles não o fim, mas a redenção do amor. Graças a Shakespeare, ainda é possível ter esperança.
Era muito novo quando li a peça, não lembro de passagens do texto ou coisa assim, mas acho que essa, como muitas outras obras de Shakespeare, é daquelas que todo mundo conhece detalhes, mesmo sem nunca ter aberto o livro. (principalmente graças àquela versão moderninha que foi pro cinema).
Sempre pensei que Shakespeare está pra literatura assim como os Beatles estão para o rock. Você bota um moleque de 15 anos pra ouvir Beatles e ele vai dizer: “é, legalzinho...”. Ele ouve Beatles hoje, depois de já ter consumido quinhentas bandas que não existiriam se os Beatles não tivessem gravado meia dúzia de discos que dariam origem a milhares e milhares de imitações. Não acho exagero dizer: todo mundo imita os Beatles, há mais de 30 anos. Desde então, com raras exceções, pode-se dizer que “não há nada de novo sob o sol”. Não sou beatlemaníaco, longe disso. Até porque é estupidez não admitir que essa influência dos Beatles vem se modificando, se adaptando, se desenvolvendo. A distorção, por exemplo, aquela guitarra suja do Helter Skelter, teve sua ascensão e queda, mas não tem como negar: ela nasceu com os Beatles. Enfim, muitas bandas boas, excelentes, surgiram desde a década de 70, mas isso não é excludente. Copiar os Beatles não faz da banda uma banda ruim ora, pelo contrário.
Muito bem! Com Shakespeare acontece a mesma coisa. Você vai lá e lê Hamlet, por exemplo. É inevitável! Você vira a última página e diz: “É só isso?Esse é o tal do Shakespeare que todo mundo fala? Código Da Vinci é tão bom quanto!!” Ok, peguei pesado, mas deu pra entender, não é? A mesma coisa acontece com Machado de Assis na literatura brasileira, mas isso é tema pra outro post.
Não chego ao exagero do Harold Bloom (um crítico peruado, que baba o ovo do Shakespeare até dizer chegar) de afirmar que Shakespeare inventou o ser humano como conhecemos hoje, e que devíamos cultuá-lo quase como uma religião, pois ele despertou no homem a capacidade total de auto-análise e outras coisas (se você estiver sem nada pra fazer, mas nada mesmo, pode se aventurar pelas quase mil páginas que ele escreveu pra te convencer disso: http://www.planetanews.com/produto/L/11415/shakespeare--a-invencao-do-humano-harold-bloom.html). Sem dúvida, toda a literatura ocidental teria sido muito diferente se Shakespeare não tivesse existido. Não há sentimento humano que não seja abordado na sua obra. Nada fica de fora.
Obviamente, o amor é um dos temas mais freqüentes e sem dúvida seu ponto alto, na obra de Shakespeare, está em Romeu e Julieta. Tal obra deixou se de ser apenas literatura e entrou, há muito, no imaginário da sociedade. A coisa chegou a um estágio de enraizamento cultural tão forte que conhecemos o amor contado por Shakespeare antes mesmo de experimentarmos o amor nas nossas próprias vidas.
A principal particulariedade de Romeu e Julieta, como maior obra de amor de todos os tempos, é que não apresenta final feliz. Pelo contrário: quando a tal adaptação moderninha passou no cinema, todo mundo já sabia o fim, mas, mesmo assim, era uma choradeira total.
Então, não há final feliz. Mas acontece que aquilo que poderia ser interpretado como um estímulo à desesperança, uma vitória das convenções sociais sobre o verdadeiro sentimento humano, é, na verdade a vitória do amor, a eternização do amor. Se o plano do jovem casal tivesse funcionado e ambos conseguissem fugir e tudo mais, o que haveria depois? A história ficaria inconclusa, teria que terminar com um tradicional “Felizes Para Sempre” e, com certeza, se perderia como mais uma entre milhões de histórias de amor que já foram contadas por aí.
A grande sacada de Shakespeare foi desafiar o homem aos seus limites. Revelar sua humanidade à luz do seu pior inimigo: o destino, e mostrar que havia chance de vitória. A eternidade só poderia ser alcançada pelo amor incondicional, o amor súbito, o amor que não se acaba. O amor nunca vai ser capaz de fugir da vida e, consequentemente, da morte, mas, acima de tudo, existe uma capacidade de sonhar e de se elevar além do que é sentimento. A espiritualidade plena, o caminho da salvação, a isso Shakespeare chama amor, e é a isso que ele põe em Romeu e Julieta. Ao mesmo tempo ele tenta mostrar que só no duplo, no outro, cada um se encontra. Ao depender do tempo para viver, o homem se torna vulnerável, passa a ser uma memória turva, um reflexo borrado do que um dia ele já foi. Não podemos confundir isso com desapego pela vida, pois, na verdade é exatamente o contrário, é o elevar da vida ao status supremo, de atemporalidade.
O homem é um ser solitário, abandonado, e essa é sua constante maldição. É preciso achar o caminho de volta e isso só é possível com a ajuda de uma outra alma. Essa é a conjunção de Romeu e Julieta e é isso que torna a morte deles não o fim, mas a redenção do amor. Graças a Shakespeare, ainda é possível ter esperança.

1 comments:
shakespeare salvou o amor e o chuchu me salvou!
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