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O Livro dos Profetas


Minha incompetência, alida a minha perguiça, vem sabotando qualquer tentativa própria de escrever uma resenha sobre lançamentos que considero importantes. Assim, transcrevo abaixo uma pedaço do prefácio da obra O Livro dos Profetas, escrito pelo próprio autor, um jovem carioca com o estranho nome Hugo Soto, que acho que vai dar muito o que falar. Aproveitem.



“ Quando falava para as pessoas que estava publicando um livro, os comentários eram sempre os mesmos: “Que legal! Sobre o que é?”. No começo, confesso, aproveitei a pergunta para me divertir um pouco: “é sobre uma técnica tântrica de sexo animalesco, que servia de elevação espiritual na filosofia hindu e que, por incrível que pareça, possui traços muito semelhantes com os de algumas tribos indígenas amazônicas, que copiavam o ritual de acasalamento dos tatus pardos, registrados no período colonial. Não é interessante?” “ah sim, que bacana”...!

No entanto, a insistência desse questionamento me levou a uma reflexão verdadeira sobre do que, de fato, tratava o meu livro. A resposta mais simples, sem dúvida, é: são contos sobre pessoas que acham que são profetas, ou que talvez sejam de fato, e nós não sabemos. Mas nada, na arte (e me perdoem a pretensão) é o que parece.

Em primeiro lugar, não gosto de enxergar as histórias desse livro como contos isolados. As histórias possuem traços de independência uma das outras em termos de começo, meio e fim, que facilitam a vida do leitor, mas todas possuem um elo em comum. A construção do livro e de suas histórias foi feita como uma pintura, como se contemplasse um enorme painel onde é possível enxergar de perto cada centímetro e perceber uma peculiaridade, um ciclo que se completa, ou dar cinco passos pra trás e observar o todo como um grande universo que compreende inúmeras centelhas de vida. Esse grande painel, no entanto, não deixa de estar envolto por uma certa neblina, uma certa aura que encoberta o grande tema, que é a fé. Essa tema se revela exatamente no minimalismo que permeia o tom que tentei dar a toda escrita a obra, buscando construir um enorme jardim japonês, rico em detalhes que, por sua vez, são mínimos em sua simplicidade.

Assim, não foi minha pretensão proporcionar algum tipo de revelação mística, apesar de, confesso, eu mesmo ter sofrido algumas durante o processo de criação (egoístas, sem dúvida). No entanto, esse livro pode ser considerado uma resposta íntima a uma aflição pessoal com a contemporaneidade da literatura e da arte moderna como um todo. Existe sim a intenção declarada de, nas histórias, mergulhar o mais profundamente possível no lado oculto do ser humano, mas sem glorificá-lo, sem se lambuzar nele. Essa escuridão que todo homem apresenta é exposta de forma simples e natural, tentando iluminar as partes possíveis, sem abandonar as questões racionais. Esse livro, humildemente, é meu manifesto contra a uniformização do ser humano e contra a arte sem significado. . È um elogio à tristeza essencial e à felicidade básica. È uma exposição do medo tranqüilo, de um mundo que não se acaba. È uma busca solitária de alguém que descobriu, na escrita, a forma mais humilde de falar com Deus. Por isso, se você veio aqui procurando sujeira e degradação, por favor, vá ler algum blogueiro."

1 comments:

P.R. said...

"Esse tema se revela exatamente no minimalismo que permeia o tom que tentei dar a toda escrita a obra, buscando construir um enorme jardim japonês, rico em detalhes que, por sua vez, são mínimos em sua simplicidade."

Só mesmo o grande Soto pra encarar uma empreitada dessas...