Existe certa problemática em dizer o adeus definitivo a certas coisas. O sentimento de que estamos olhando uma última vez para algo, ou alguém, pode ser insuportável quando compreendido na totalidade das suas conseqüências, seja esse adeus fruto de um afastamento voluntário ou ocasional. Assim, quase sempre, o “nunca mais” é substituído pelo “até logo”. A porta continua aberta. O passado não se caracteriza como passado e se transforma em um simples dia anterior. Não se encerra, apenas passa.
Ninguém consegue compreender totalmente a extensão (ou duração) de uma vida inteira. A vida de cada um de nós, durando o tempo que dure, pode ser entendida (por que não?) como a única representação possível da eternidade... e isso só é possível graças à nossa capacidade de lembrar.
No entanto, a capacidade de lembrar nem sempre é um ato consciente ou livre, tanto na sua casualidade quanto na sua intensidade, e issogera um constante conflito com as características (ou necessidades) sensoriais de todos nós. O ser humano que vive é também o ser humano que sente, que sangra, e que interage com o momento presente como um solitário elo entre o futuro e o passado, pressionado contras as carências do minuto atual. Assim, subterfúgios são criados para tolerar uma carga tão grande de responsabilidades ligadas a incertezas e sentimentos, um conjunto de maneiras de nos fazer esquecer, ou pelo menos aliviar, a dor e o sentimento de impotência que sentimos quando, por alguns minutos, compreendemos o real tamanho da vida e toda sua extensão..quando percebemos que não temos controle sobre quase nada.
Isso tudo eu pensei quando embalava as últimas coisas antes de ir embora, quando passava a fita durex e lacrava a única caixa, que continha todos os meus pertences após dois anos naquele lugar. Acho que a gente só possui as coisas uma vez na vida, não mais que isso. No momento que elas se perdem, mesmo que um dia voltem a ser nossas, não serão mais as mesmas coisas, assim como nós não seremos mais os mesmos. Então é natural nos prendermos ao que é nosso, ao que dividiu conosco nosso olhar pessoal sobre as coisas. Mesmo quando a necessidade de ir embora é uma obrigação, um fato consumado e necessário, eu nunca vou ter vergonha de sentir saudades de quase tudo, por que quase tudo me carrega e quase tudo está dentro de mim, sejam pessoas ou pacotes de cigarro.
Aí eu disse adeus e fechei a porta. A chave na portaria, como combinado.
Na calçada, esperando o táxi, já nada mais me pertencia. Então eu fiz a única coisa que eu devia fazer. A única coisa que sabia ser certo.
Sentei, e comecei a chorar.
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1 comments:
segunda feira é a minha vez.
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