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Eros e Thanatos (7)

Sou a última geração da dor de minha família. Da família de meu pai. Se eu encontrasse hoje meu avô saberia o que dizer.

Diria que o silêncio se impôs em minha vida. Que o segredo que maltratou meu pai, maltratou a mim e meus irmãos. O segredo não explicado da dor de um homem. Este segredo, escolhido como segredo por aqueles que preferem calar, não deixou impune ninguém ao meu redor.

Diria que meu pai escondeu de todos e até de si a dor da perda. Não, não a dor da perda, a dor de ser roubado. Diria que ao se matar meu avô roubou de meu pai o direito de respirar, o direito de viver. Mostraria como seu desespero, curado em um segundo impôs horas, dias, anos, uma vida inteira de sofrimento. Que a vida de meu pai nunca saiu daquele quarto, que seus olhos nunca deixaram de ver o sangue no chão. Diria que a morte de meu avô, matou tudo ao seu redor.

Diria que eu, mais de meio século depois de sua morte, vivo todos os dias aquele momento, vivo aquele momento através do olhos de meu pai. Olhos esses que me trouxeram ao mundo, que me criaram, que fizeram de mim quem sou hoje.

Diria entao que o seu suicídio foi sua melhor decisão. E que hoje mais de meio século depois agradeço o dia em que um tiro calou sua vida.

2 comments:

Fábio said...

mais uma manifestação da revelação literaria do ano ahahhaha...

muito gente acha o suicidio uma covardia, eu nao sei... sincermante, tendo a acreditar que escolhemos menos coisas na vida do que achamos...acredito que muitos suicidas, se pudessem escolher, ainda estariam vivos...todo sofrimento é o único sofrimento.

fragmentos said...

decididamente nao acho o suicidio uma covardia...