18:21

O Suicida

– Por quê ?
– O quê?
– Por quê você tentou se matar?
Abaixei os olhos. Acendeu um cigarro.
Não havia resposta.
– Não achei que você tivesse coragem.
Não consegui encará-la para responder:
– Você não me conhece mais.
Tudo que eu precisava fazer era não deixá-la olhar dentro de mim.
– Como é?
– Como é o que?
– Como é a sensação? Me disseram que mais alguns minutos e seria irreversível. Como você se sentiu?
– Você não entenderia.
– Experimente.
– Não vale à pena.
Ajeitou sua postura jogando-se para trás na cadeira. Pedimos ao garçom:
– Dois cafés.
Ela insistiu:
– Você acha que vai fazer isso de novo?
–Duvido muito.
Controlava-se para não chorar. Secou os olhos.
Silêncio.
– Você está bonito.
Precisava ser simpático:
– Você mudou o cabelo?
– Sim, você gostou?
Não respondi.O garçom veio com os cafés
Olhos vermelhos.
Pude ouvir a porta do bar abrir e fechar novamente.
– Sinto sua falta.
Olhei-a tentando ser gentil.
Silêncio.
– Espero que você esteja tão contente de me ver quanto eu estou.
– Sim, estou.
– Faz quanto tempo?
– Cinco anos.
– É muito tempo, não?
– Tempo demais.
– Você deve ter várias coisas pra contar.
– Na verdade não.
Ela passou a mão sobre os olhos. Parecia exausta.
(A noite em reflexo nos seus cabelos).
– Eu nunca te pedi desculpas.
– Nunca foi necessário.
– Não sabia se valia a pena vir aqui te ver, mas achei que, depois do que você tentou fazer consigo mesmo, era hora de voltar e fazer a coisa certa. Pode parecer loucura, ou muita pretensão da minha parte, mas achei que fosse por minha causa, mesmo depois de tanto tempo.
- Não...
– Eu te abandonei, Fábio.
– Não havia mais nada pra dizer.Você fez a coisa certa.
– Você parecia não entender isso na época.
– Mas entendo agora.
(Ela sabia).
– E eu nunca deixei de te amar.
Acendeu outro cigarro.
– Na verdade descobri que te amo mais do que nunca te amei, mas sei que as coisas são diferentes.

Parecia querer chorar novamente.
(Enquanto isso, chovia no mundo todo).
– O que é diferente, Júlia?
Não conseguiu responder. A tormenta.
Pôs os óculos escuros. Pegou na bolsa um discreto lenço bordado.
– Desculpe-me. Prometi que não faria isso.
(Quis consolá-la, mas tocar seu rosto mais uma vez me faria em pedaços).
– Eu não espero nada, Fábio. Acho que devo ir embora.
– Você está na casa dos seus pais?
– Não, aluguei um apartamento deste lado da cidade.Você está morando do outro lado do rio, não é?
– Sim. Mudei-me há dois anos.
– Posso te visitar um dia desses?
– Claro.
Ela levantou-se sorrindo, e nunca houve nesse mundo uma dor tão forte quanto a que eu senti nesse momento. Perdê-la novamente seria o fim de todas as coisas.
– Tome meu cartão. Me ligue quando puder, ela disse.
Começou a vestir o casaco.
Senti meu estômago revirar. Era como se tudo que existia estivesse confinado dentro daquela mulher. A beleza de uma criação absurda à qual sempre desejamos retornar. O absoluto. A resposta das dúvidas que nos enclausuram na escravidão do ser humano. Havia ali uma alma que preenchia os espaços. Havia ali uma chance, e ela estava indo embora.
Esperava que eu dissesse algo. Esperava que a salvasse de si mesma.
– A gente se vê.
Beijou-me na testa e foi em direção à porta.
O som dos seus passos se afastando me fizeram perceber que no universo não há espaço suficiente para a responsabilidade de viver. Sempre parece ser tarde demais.

– Mais perto de você – gritei antes que ela saísse.
– O que disse?
– Foi como eu me senti: mais perto de você
Ela riu enrubescida e fechou a porta, deixando para trás o cheiro de café, cigarros e a tranqüilidade desesperada de um nunca mais.

Outubro, 2005

1 comments:

fragmentos said...

Tô contagiando as pessoas com o clima meio fúnebre pelo visto!